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O custo oculto da ansiedade financeira nas empresas

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Autor: Cristiano Verardo*

A ansiedade financeira tornou-se um dos fatores mais determinantes da saúde mental contemporânea e seu impacto já é sentido de forma direta dentro das organizações. Para os departamentos de Recursos Humanos, isso representa um desafio crescente: lidar com equipes que enfrentam insegurança financeira constante, dificuldade de planejamento e medo do futuro.

Segundo a ANBIMA (Raio X do Investidor 2026), 61% dos brasileiros não possuem investimentos, 51% não investem porque não sobra dinheiro e apenas 8% investem pensando na aposentadoria. Esses dados revelam um cenário de fragilidade financeira que ultrapassa a esfera pessoal e se manifesta no ambiente de trabalho por meio de estresse contínuo, perda de foco e queda de produtividade. Em um contexto de pressão econômica, a dificuldade de honrar as necessidades e desejos da vida cotidiana, a ausência de reservas (seja para uma emergência, seja para aproveitar uma oportunidade) e a falta de perspectiva de renda futura tornam-se gatilhos permanentes de ansiedade.

Esse quadro se intensifica quando observamos a baixa capacidade da população de compreender conceitos essenciais para o planejamento de longo prazo. O Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central (2025) mostra que o brasileiro acerta, em média, 53% das questões sobre inflação, juros simples e compostos, risco e retorno, desempenho que coloca o país na 33ª posição global, abaixo da média mundial.

Os maiores erros aparecem justamente nos temas mais importantes para o planejamento previdenciário: 87% erram questões de cálculo de juros simples e 42% falham em perguntas sobre diversificação de risco. Esses achados se somam ao Pisa 2022, que coloca o Brasil entre os últimos colocados em letramento financeiro entre jovens, reforçando que a dificuldade de planejar o futuro é estrutural e atravessa gerações.

Para o RH, isso significa lidar com colaboradores que enfrentam realidades financeiras complexas sem instrumentos adequados e que, por isso, podem viver sob estresse crônico. A dimensão organizacional desse problema fica ainda mais clara quando observamos o impacto direto sobre comportamento e desempenho.

Pesquisa da Creditas + Opinion Box (2026) mostra que 66% dos trabalhadores afirmam que problemas financeiros impactam sua saúde mental, e 50% relatam ansiedade constante devido ao endividamento. Esse estresse se traduz em rotinas fragilizadas: 64% dizem ter dificuldade em cumprir horários e manter o foco por causa das dívidas. Em contrapartida, 71% performam melhor quando estão com as contas em dia, evidenciando que estabilidade financeira é um determinante direto de produtividade, engajamento e bem-estar.

Esse impacto não é apenas subjetivo. A Organização Mundial da Saúde estima que ansiedade e depressão geram US$ 1 trilhão por ano em perdas de produtividade global, evidenciando que o problema é estrutural, não periférico. No Brasil, a Previdência Social concedeu mais de meio milhão de licenças por incapacidade temporária relacionadas a transtornos mentais e comportamentais somente em 2025, com custo estimado próximo de R$ 3,5 bilhões apenas para o INSS.

Esses números reforçam que o adoecimento emocional atravessa o mercado de trabalho e que a insegurança financeira é parte relevante desse fenômeno. Nesse contexto, a ansiedade financeira deve ser compreendida como um risco corporativo, e não apenas como uma dificuldade individual.

O medo do futuro, a ausência de reservas e a incapacidade de planejar criam um ciclo de estresse que afeta presenteísmo, engajamento e rotatividade. Para enfrentar esse desafio, as empresas precisam ampliar sua atuação no campo do bem-estar financeiro. A previdência complementar fechada cumpre papel estratégico nesse sentido ao oferecer previsibilidade de longo prazo, reduzir incertezas e permitir que o trabalhador construa uma perspectiva concreta de renda futura. Quando integrada às políticas de gestão de pessoas, ela se torna um instrumento de proteção que ajuda a mitigar a ansiedade crônica associada ao pós-carreira.

Mas a previdência complementar fechada só alcança seu potencial quando acompanhada de educação financeira e previdenciária contínua, conduzida de forma estruturada pelo RH. Programas permanentes de orientação, simuladores de renda futura, trilhas de conhecimento e ações de sensibilização contribuem para reduzir vulnerabilidades, fortalecer a autonomia dos colaboradores e criar uma cultura de segurança financeira. Essa atuação não apenas melhora o bem-estar individual, mas também mitiga riscos organizacionais associados ao presenteísmo, à queda de produtividade e ao aumento da rotatividade.

Empresas que ignoram a ansiedade financeira também ignoram um dos fatores mais influenciadores da saúde mental atual. Em um cenário onde o medo do futuro já afeta produtividade, engajamento e qualidade de vida, cuidar do preparo financeiro dos colaboradores é cuidar da empresa hoje. Para o RH, isso significa assumir um papel central na construção de ambientes de trabalho mais estáveis, saudáveis e preparados para o futuro, reconhecendo que segurança financeira é, cada vez mais, parte essencial da estratégia de gestão de pessoas.

*Cristiano Verardo é Diretor de Seguridade, Relacionamento e Tecnologia da Vexty, Entidade Fechada de Previdência Complementar que administra R$ 5,6 bilhões em ativos, especialista em previdência complementar, porta-voz do projeto Previdência é Coisa de Jovem e promotor do conceito Atitude Previdente. Atua como educador, palestrante e entusiasta da cultura previdenciária no Brasil.

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Menopausa: quando o silêncio se torna um problema de saúde pública

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Autora: Vanessa Oliveira*

Durante décadas, a menopausa foi tratada como um assunto privado, quase constrangedor. Os sintomas que acompanham essa fase da vida feminina foram naturalizados como um preço inevitável do envelhecimento, sem que recebessem a mesma atenção dedicada a outras condições que afetam milhões de brasileiros. Entre eles, as ondas de calor, ou fogachos, permanecem como um dos exemplos mais claros de como um problema altamente prevalente ainda é cercado por desinformação e negligência.

Os números revelam a dimensão dessa realidade. Entre 50% e 75% das mulheres que atravessam a menopausa sofrem com ondas de calor, e aproximadamente um terço das brasileiras apresenta sintomas moderados ou graves. Estima-se que cerca de 17 milhões de mulheres estejam atualmente no climatério, fase de transição hormonal que envolve a menopausa e seus efeitos.

Não se trata apenas de uma sensação passageira de calor. Os fogachos podem surgir diversas vezes ao dia, interromper reuniões, comprometer apresentações profissionais, prejudicar o sono e provocar cansaço crônico. Quando acontecem durante a noite, transformam o descanso em sucessivas interrupções, com reflexos diretos sobre memória, concentração, produtividade e qualidade de vida. O impacto ultrapassa o desconforto físico e alcança dimensões sociais, emocionais e econômicas.

A ciência já compreende com razoável clareza a origem desses episódios. A redução dos níveis de estrogênio torna o hipotálamo, responsável pela regulação da temperatura corporal, excessivamente sensível às pequenas variações térmicas. O organismo reage como se estivesse superaquecido, desencadeando intensa vasodilatação e sudorese. Não é exagero nem fragilidade: é uma resposta fisiológica decorrente das mudanças hormonais próprias dessa etapa da vida.

Ainda assim, persiste um comportamento preocupante: muitas mulheres deixam de procurar orientação médica por acreditarem que “é assim mesmo”. Essa resignação ajuda a explicar por que boa parte das pacientes permanece sem qualquer tratamento, apesar dos prejuízos cotidianos que enfrentam.

O debate precisa avançar para além da reposição hormonal. Embora seja uma alternativa eficaz para muitas pacientes, ela não é indicada para todas. Há espaço para uma abordagem mais ampla, baseada em hábitos de vida saudáveis, controle do peso, prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, técnicas de manejo do estresse e, quando indicadas por profissionais de saúde, suplementações nutricionais que possam contribuir para o bem-estar durante essa fase.

Outro aspecto que merece atenção é o crescente conjunto de evidências que relaciona fogachos frequentes a maior risco cardiovascular. Embora a associação ainda continue sendo estudada, ela reforça que esses sintomas não devem ser vistos apenas como uma questão de conforto, mas como um possível marcador clínico que merece acompanhamento adequado.

À medida que a população brasileira envelhece e a expectativa de vida aumenta, discutir menopausa deixa de ser uma pauta exclusivamente feminina para se tornar uma questão de saúde pública. Empresas precisam compreender seus impactos sobre o ambiente de trabalho. Profissionais de saúde devem estar preparados para acolher essas pacientes sem minimizar seus relatos. E a sociedade precisa abandonar a ideia de que sofrer em silêncio faz parte do envelhecimento.

A menopausa não é uma doença, mas tampouco deve ser encarada como um período em que milhões de mulheres simplesmente precisam aprender a conviver com sintomas incapacitantes. Informação de qualidade, acompanhamento médico individualizado e maior conscientização social são ferramentas fundamentais para transformar essa experiência. Afinal, viver mais deve significar também viver melhor.

*Vanessa Oliveira é biomédica e doutoranda em Neurociências, com atuação voltada à bioquímica, toxicologia, envelhecimento celular e saúde preventiva e atua na Lushe Cosmetics.

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