Artigo
Requer tempo
Autor: Francisney Liberato* –
A vida é feita de processos. Não interrompa ciclos. Tudo deve acontecer em seu devido tempo.
Não há como alcançar o topo de uma montanha sem passar pelo caminho com todas as suas dificuldades. A cada etapa percorrida, os nossos objetivos e sonhos fazem mais sentido e clareiam a nossa mente.
Quando criança, eu era um dos garotos mais baixos dos amigos que conviviam comigo. A minha vontade era de crescer fisicamente em estatura, o mais rápido possível. A minha ânsia por crescer e me desenvolver era enorme, pois não gostaria de “ficar para trás”. Contudo, a cada dia percebia que esse crescimento não era da forma como eu vislumbrava, mas sim um processo natural, e que exigia paciência.
Crescer requer tempo. Crescer requer amadurecimento. Crescer é um processo natural. Crescer deve ser constante e permanente. Com o crescimento nós podemos visualizar um cenário diferente do qual estamos ou, quem sabe, nem imaginamos que existe.
No reino animal, encontramos diversos tipos e tempos para a gestação de um filhote, tais como: a gestação dos camelos pode durar entre 13 e 14 meses; os rinocerontes têm uma longa gestação de 15 meses; as orcas têm o período de até 19 meses; entre os mamíferos, os elefantes são os que têm o período de gestação mais longa, são quase dois anos; o tubarão-de-bico pode esperar 3,5 anos para dar à luz.
Você já imaginou se o animalzinho não tivesse paciência, como ele faria para sair do ventre de sua mãe? Como vimos, o tubarão-de-bico demora três anos e meio para ter oportunidade de viver no nosso mundo. Nós, seres humanos, temos um período de gestação de no máximo 9 meses, e, mesmo assim, existem pessoas que nascem prematuras.
Para ser mais assertivos com a nossa vida, é importante que tenhamos maturidade. Assim, teremos um crescimento constante e permanente.
É necessário que cresçamos no desenvolvimento da nossa inteligência emocional e, principalmente, do autocontrole. A estatura e o patamar desejados devem ter como base o controle de nossas emoções, só então poderemos ser mais felizes e melhores.
A cada dia podemos crescer e desenvolver a habilidade de cuidar e controlar das emoções. Para que haja um crescimento sustentável, é fundamental que cresçamos todos os dias, a cada ação ou omissão.
Não existe crescimento brusco, pois normalmente é necessário ter maturidade emocional para que tenhamos um crescimento permanente, mas vale ressaltar que para atingirmos esse “novo normal” precisamos de tempo e de esforços diários.
Infelizmente, nós, seres humanos, temos a tendência de sempre estar dispostos a começar uma nova caminhada, um novo percurso, que no nosso caso é o desenvolvimento do autocontrole, contudo, não temos tranquilidade e paciência para aguardar o crescimento, e logo desistimos, pensamos ser impossível adquirir essa habilidade, que isso é para aquelas pessoas que já são predestinadas ao sucesso.
Passou o tempo e, graças a Deus, eu ganhei uma estatura adequada e desejada. Que possamos ter tranquilidade para crescer no desenvolvimento do autocontrole. Que tenhamos paciência. Tudo o que acontece nesta vida requer tempo.
*Francisney Liberato é Auditor do Tribunal de Contas de Mato Grosso. Escritor. Palestrante e Professor há mais de 25 anos. Coach e Mentor. Mestre em Educação. Doutor Honoris Causa. Graduado em Administração, Ciências Contábeis (CRC-MT), Direito (OAB-MT) e Economia. Membro da Academia Mundial de Letras.
Artigos
A corrupção como álibi moral
Autor: Murilo Gonçalves* –
Talvez seja hora de dizer uma coisa incômoda sobre boa parte da direita brasileira: o problema nunca foi, ou ao menos não é mais, apenas a corrupção. Se fosse, a indignação seria a mesma, independentemente de quem estivesse envolvido. Afinal, a corrupção deveria provocar a mesma revolta, viesse ela da esquerda ou da direita. Mas não é isso que tenho observado nos últimos anos.
Há algum tempo, escândalos envolvendo políticos do Partido dos Trabalhadores ajudaram a transformar corrupção quase em sinônimo de esquerda. Não eram apenas alguns políticos acusados ou condenados por corrupção, mas “o PT corrupto”, “a esquerda corrupta”, “o comunista corrupto”. Quando os escândalos atingem o outro lado, porém, essa generalização desaparece.
Recentemente, o país assistiu ao orçamento secreto movimentar dezenas de bilhões de reais durante um governo de direita, beneficiando principalmente sua base de sustentação no Congresso; viu esquemas de “rachadinhas” envolvendo gabinetes de políticos identificados com a direita; e tem acompanhado escândalos bilionários, como as fraudes no INSS e o caso do Banco Master, que revelam relações entre dinheiro, poder e personagens de diferentes campos políticos, inclusive da direita brasileira.
Se escândalos dessa dimensão tivessem como protagonistas apenas políticos de esquerda, é difícil imaginar que a reação seria a mesma. E é justamente essa diferença que interessa aqui e talvez nos ajude a entender algo mais profundo. Para uma boa parcela dos chamados “homens de bem”, a corrupção funciona como justificativa para uma rejeição muito maior ao que a esquerda brasileira também passou a representar.
E o que, afinal, essa esquerda passou a representar? O nordestino pobre e sem diploma universitário chegando à Presidência da República. Negros entrando nas universidades e ocupando posições de destaque. Mulheres comandando empresas, tribunais e governos. Homossexuais formando famílias e exigindo que suas relações sejam tratadas com a mesma dignidade das relações heterossexuais. Religiões de matriz africana exigindo o mesmo respeito dedicado às religiões cristãs.
Talvez seja exatamente nesse ponto que a rejeição a esses grupos se encontre com a rejeição à esquerda, ao PT e a tudo aquilo que genericamente chamam de comunismo, pois raramente o preconceito se apresenta dizendo seu próprio nome.
Ninguém diz “sou racista”, mas “não tenho nada contra negros, só que sou contra cotas”. Não diz “sou homofóbico”, mas “cada um faz o que quiser, só não precisa mostrar”. Não diz que considera a mulher inferior. Mas a mulher firme é “histérica”, enquanto o homem com o mesmo comportamento é “um líder“. Não diz que despreza nordestinos, mas transforma origem e sotaque em motivo de chacota. Não diz que despreza os pobres, mas usa a falta de um diploma para inferiorizá-los.
Sempre existe um “mas”. Talvez seja justamente depois desse “mas” que comece a conversa que a sociedade brasileira evita ter consigo mesma. É claro que o problema não é ser branco, heterossexual, cristão e/ou conservador. Evidentemente, não há nada de errado nisso. Eu mesmo reúno essas características. O problema começa quando alguém transforma a própria maneira de existir no padrão pelo qual todas as outras pessoas devem ser julgadas. É exatamente aí que o diferente passa a incomodar.
Assim, o negro pode existir, desde que não reivindique espaço na medicina e nos tribunais. O gay pode existir, desde que esconda sua família. A mulher pode trabalhar, desde que não mande. O pobre merece respeito, desde que permaneça no lugar reservado a ele. Outras religiões podem até existir, desde que não exijam o mesmo reconhecimento e respeito dedicados à religião cristã.
Por isso, possivelmente, a grande transformação social das últimas décadas tenha produzido tanto ressentimento entre os ditos cidadãos de bem conservadores. Pessoas que historicamente estavam à margem começaram a ocupar o centro e a conquistar espaços de poder, prestígio e reconhecimento. Mas e a corrupção, o que tem a ver com tudo isso? Ela oferece um álibi perfeito para rejeitar politicamente essas transformações sem precisar dizer em voz alta o verdadeiro motivo: uma justificativa moralmente aceitável para uma rejeição cuja origem pode estar em outro lugar.
Isso também pode explicar a indignação de tantas pessoas diante de quem ainda escolhe votar na esquerda ou no PT. O argumento costuma ser a corrupção, como se esse voto significasse compactuar com algo que não existisse do outro lado. No entanto, muitos desses mesmos eleitores conhecem os escândalos e os casos de corrupção envolvendo políticos nos quais votam.
É nessa contradição que a justificativa da corrupção perde força. Para uma boa parcela dessas pessoas, provavelmente não é a corrupção que torna o voto na esquerda tão inaceitável, mas aquilo que esse voto passou a representar: uma sociedade mais plural, com negros ocupando espaços de poder, mulheres comandando, nordestinos governando, homossexuais formando famílias e diferentes religiões convivendo com igual dignidade.
Nada disso absolve a esquerda e o PT de seus próprios erros. A corrupção deve ser investigada e punida, seja praticada por quem for. Mas quem realmente combate a corrupção por princípio não deveria escolher a intensidade da indignação conforme a cor da camisa, se vermelha ou verde e amarela.
É justamente aí que a corrupção deixa de explicar tudo. No fim, para uma boa parcela da direita, sobretudo para sua parte mais extrema, a corrupção talvez seja apenas o inimigo que pode ser confessado publicamente. Os outros têm nomes muito mais difíceis de admitir diante do espelho: racismo, xenofobia, misoginia, homofobia e intolerância religiosa.
*Murilo Gonçalves, servidor público e advogado com atuação em direito público
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