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Autoliderança: o que você faz quando ninguém cobra

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Autora: Madilad Almassy*

Existe uma pergunta que revela mais sobre alguém do que qualquer currículo: como essa pessoa age quando ninguém está cobrando? A resposta é o território da autoliderança, e é ali, não nos grandes discursos, que se decide a consistência de uma trajetória inteira.

Costumamos reservar a palavra liderança para os momentos visíveis: a reunião decisiva, a meta batida, o gesto de coragem sob os holofotes. Mas a autoliderança acontece no avesso disso, nas centenas de microescolhas diárias que ninguém testemunha e que, somadas, constroem ou corroem tudo aquilo que pretendemos ser. Sua importância está justamente nesse ponto: ela é discreta no varejo e decisiva no atacado.

Toda ação tem consequência, e a consequência raramente respeita o momento. A palavra dura dita num dia ruim não termina quando a conversa acaba: ela mora em quem a recebeu e volta, semanas depois, disfarçada de desconfiança. O atalho tomado quando se tinha certeza de que ninguém iria conferir cobra seu preço mais tarde. O compromisso rompido com um cliente, um colega ou consigo mesmo cobra juros. Vigiar as próprias ações não é excesso de controle nem vaidade moral, mas o reconhecimento de que somos causa, e não apenas vítima, do mundo que colhemos.

É por isso que a autoliderança importa tanto: ela é a guardiã da coerência. Sem ela, dizemos uma coisa e fazemos outra, prometemos e não entregamos, exigimos dos outros o que não cobramos de nós mesmos. E nada destrói mais depressa a confiança de uma equipe, de uma família ou de si próprio do que a distância entre o discurso e o gesto. Confiança não se conquista com intenção; conquista-se com repetição. Inclusive a confiança mais difícil de reconstruir, que é a que temos em nós mesmos.

A dificuldade é que sustentar essa vigilância exige energia, e a força de vontade se esgota, sobretudo no fim do dia, quando o cansaço baixa a guarda. Por isso a autoliderança não se apoia em heroísmo, e sim em atenção: a capacidade de perceber, no intervalo entre o impulso e o ato, que existe ali uma escolha, e que ela é nossa, ainda que ninguém venha a saber qual tomamos. Treinar esse instante é a diferença entre conduzir a própria vida e ser conduzido por ela.

No fim, a autoliderança é uma competência silenciosa, mas essencial. Liderar o mundo lá fora perde sentido quando ainda somos reféns de nós mesmos por dentro. A pergunta segue necessária e desconfortável: quem você é quando ninguém está olhando? É essa pessoa que, todos os dias, conduz a sua vida.

*Madilad Almassy é psicanalista, especialista em autoliderança e autora de “A Bússola do Invisível” com mais de 30 anos de experiência em gestão.

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Transplante de microbiota fecal e mais um importante avanço da medicina

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Autor: Fernando Bray*

Parece papo de ficção científica: transplantar fezes de uma pessoa saudável para tratar uma doença. Porém, esse procedimento, chamado de Transplante de Microbiota Fecal (TMF) ou, simplesmente, transplante fecal, já é realidade na medicina — e vem ajudando pacientes que não respondiam a nenhum outro tratamento a recuperar a saúde intestinal e a qualidade de vida.

Para entender como funciona e para quem é indicado esse tipo de tratamento, é preciso explicar como funciona o nosso intestino. Ele abriga trilhões de micro-organismos, entre bactérias, vírus, fungos e outros seres microscópicos que formam a chamada microbiota intestinal, além de arqueas e substâncias produzidas por esse ecossistema, como ácidos graxos de cadeia curta e metabólitos que conversam diretamente com o nosso sistema imunológico.

Quando essa comunidade microbiana está equilibrada, ela ajuda a digerir alimentos, produzir vitaminas, regular a imunidade e até proteger contra infecções.

Mas, certas condições, como o uso repetido de antibióticos, podem destruir esse equilíbrio, abrindo espaço para bactérias agressivas dominarem o intestino.

O transplante de microbiota fecal consiste em transferir fezes de um doador saudável, previamente tirado e testado, para o intestino de um paciente, com o objetivo de restaurar essa comunidade microbiana benéfica. Mais do que uma “reposição de bactérias”, o procedimento pode ser traduzido também como uma verdadeira transferência de informação para o sistema imunológico.

Atualmente, a indicação para o TMF com aprovação formal e comprovação científica sólida é o tratamento da infecção recorrente ou refratária por Clostridioides difficile (C. difficile), uma bactéria que pode causar diarreia grave e recorrente, especialmente após o uso prolongado de antibióticos.

Estudos mostram taxas de cura entre 65% e 80% já na primeira infusão, chegando a até 95% com tratamentos repetidos — números muito superiores aos obtidos apenas com antibióticos nesses casos difíceis.

Outras aplicações do transplante têm sido pesquisadas, ainda sem aprovação para uso rotineiro, como na Doença de Crohn e retocolite ulcerativa, síndrome do intestino irritável e constipação crônica, além de doenças metabólicas, como obesidade, diabetes tipo 2 e resistência à insulina; doenças autoimunes; e condições neurológicas, como Parkinson e esclerose múltipla, e até o espectro autista. Para essas condições, vale reforçar, o transplante fecal ainda é experimental. Os resultados são promissores em alguns estudos, mas insuficientes para recomendação de rotina fora de protocolos de pesquisa.

O processo passa por etapas bem definidas, pensadas para garantir segurança e eficácia, desde a seleção rigorosa do doador, com investigação de doenças crônicas, infecciosas e intestinais, histórico de viagens, uso de medicamentos, tatuagens recentes e outros fatores de risco, o preparo do material fecal em laboratório, seguindo protocolos específicos, até chegar na administração ao paciente, por uma das vias possíveis: endoscopia digestiva alta, sonda nasoentérica, cápsulas orais (congeladas ou liofilizadas), colonoscopia ou enema, a depender da doença e da região do intestino que precisa ser tratada.

Essa flexibilidade de vias é, justamente, uma das razões pelas quais o transplante fecal tem sido adaptado para diferentes indicações clínicas.

Agora, como qualquer procedimento médico, o transplante fecal exige critérios rigorosos de segurança. O principal risco é a transmissão de patógenos presentes nas fezes do doador, incluindo bactérias multirresistentes, vírus ou outros micro-organismos indesejados. Por isso, a triagem do doador é extensa e inclui exames de sangue e fezes, questionários de saúde detalhados e reavaliações periódicas. Há um grande rigor e esse é um dos motivos que torna encontrar um doador uma tarefa complexa.

Com um profissional especializado e a busca certa de doadores, o transplante de microbiota acompanha a evolução da medicina e se transforma em recurso diferenciado na qualidade de vida do paciente. A saúde do intestino influencia muito mais do que a digestão, ela está ligada à imunidade, ao metabolismo e até ao bem-estar geral. Quem convive com infecções intestinais recorrentes, doença inflamatória intestinal, constipação persistente ou outros sintomas digestivos que atrapalham sua rotina, o primeiro passo é buscar uma avaliação especializada.

*Fernando Bray é médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde

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