ÉPOCA DE ENGOLIR SAPO
Entre alianças e confrontos, eleição de 2026 expõe novos arranjos políticos em Mato Grosso
O início oficial da campanha eleitoral de 2026 em Mato Grosso expôs uma realidade recorrente da política brasileira: adversários que protagonizam disputas públicas podem acabar dividindo o mesmo espaço em nome de alianças partidárias e interesses eleitorais.
O cenário ganhou novos contornos após declarações da ex-primeira-dama Virginia Mendes, candidata a deputada federal pelo União Brasil (UB), recentemente criticou a postura da deputada estadual Janaina Riva (MDB) em relação à sua família.
“Ela só sabe atacar minha família, infelizmente é a velha política!”, afirmou Virginia, ao questionar a mudança de posicionamento da parlamentar, que durante anos integrou a base de sustentação do governo Mauro Mendes.
As declarações de Virginia Mendes ocorreram em meio a um ambiente político marcado por rearranjos para a disputa de outubro. A ex-primeira-dama afirmou lamentar os ataques e disse não desejar que Janaina Riva enfrentasse consequências semelhantes às que, segundo ela, sua família estaria enfrentando durante o período eleitoral.
Virginia também questionou a mudança de comportamento da deputada emedebista, destacando que, depois de seis anos de elogios e proximidade com o grupo governista, Janaina Riva teria passado à oposição a partir do ano passado.
O episódio levanta uma questão central para a política mato-grossense: como adversários declarados conseguem compartilhar palanques durante uma eleição?
A resposta está no pragmatismo que frequentemente orienta as alianças eleitorais brasileiras. Nesse modelo, partidos e grupos políticos podem relativizar divergências ideológicas e disputas locais para preservar acordos considerados estratégicos, formando coalizões eleitorais capazes de ampliar suas possibilidades de atuação nas urnas.
A situação tornou-se particularmente evidente no primeiro dia oficial de campanha, quando integrantes de grupos políticos rivais estiveram reunidos durante um evento religioso em Alta Floresta, a 803 quilômetros de Cuiabá. O encontro ocorreu na Fazenda Shalom, durante a celebração dos 21 anos da Igreja Batista Nacional Shalom (IBN Shalom), e reuniu nomes que, apesar das diferenças políticas, passaram a integrar um mesmo ambiente público em razão das articulações estabelecidas para a eleição deste ano.
Entre os participantes estavam os candidatos ao Senado José Medeiros (PL) e Janaina Riva (MDB). A presença dos dois no mesmo palanque chamou atenção porque as siglas que representam estabeleceram uma aliança nacional com reflexos na composição política de Mato Grosso. Embora tenham permanecido no mesmo evento, Medeiros e Janaina mantiveram distância física e tiveram apenas uma breve interação, marcada por um cumprimento com a cabeça.
Não houve registro de uma aparição conjunta que pudesse caracterizar uma dobradinha eleitoral entre os dois.
A composição política foi articulada pela Direção Nacional do Partido Liberal (PL) e contou, em Mato Grosso, com a participação do candidato ao governo Wellington Fagundes, também do PL e sogro da emedebista Janaina Riva. A formação do acordo colocou no mesmo campo eleitoral grupos que, até recentemente, apresentavam posições divergentes. José Medeiros, identificado com o bolsonarismo no Estado, já havia manifestado resistência à aproximação com o grupo político ligado à deputada e chegou a discutir o assunto com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
Se a relação entre Medeiros e Janaina permaneceu marcada pela distância, a situação foi diferente entre Janaina e Virginia Mendes. As duas também acumulam episódios de confronto público, mas, durante o evento em Alta Floresta, demonstraram uma postura mais cordial.
Ao subir ao palco, Janaina e Virginia trocaram abraços e beijos, em uma demonstração pública de convivência que contrastou com as críticas feitas anteriormente pela ex-primeira-dama.
O histórico de divergências entre as duas ganhou força principalmente depois de críticas de Janaina Riva à família de Mauro Mendes, do União Brasil (UB). A tensão voltou ao centro do debate quando o nome da deputada passou a ser cogitado para a vice-governadoria na chapa de Otaviano Pivetta, do Republicanos, político associado ao grupo de Mauro Mendes. Foi nesse contexto que Virginia Mendes afirmou que Janaina Riva vinha apenas “atacando” sua família e questionou a mudança de posicionamento da parlamentar.
Outro capítulo da disputa ocorreu em 2025, durante o embate entre Janaina Riva e Fábio Garcia, então secretário-chefe da Casa Civil. A deputada acusou Garcia de dificultar o pagamento de suas Emendas Parlamentares e afirmou que o secretário teria declarado que não liberaria os recursos destinados a ela. Janaina Riva classificou o episódio como perseguição política e afirmou que enfrentaria o então secretário na Assembleia Legislativa Mato-grossense caso os valores não fossem pagos.
Fabio Garcia negou ter determinado qualquer bloqueio e sustentou que o pagamento das emendas impositivas constituía uma obrigação legal, além de acusar a parlamentar de disseminar uma informação falsa.
O contraste entre discursos de confronto e imagens de convivência resume um dos principais desafios da eleição de 2026 em Mato Grosso: conciliar rivalidades pessoais, disputas históricas e interesses partidários em uma mesma estratégia eleitoral.
Enquanto a polarização nacional continua alimentando discursos de oposição entre “nós” e “eles”, as articulações locais demonstram que alianças podem aproximar adversários circunstanciais.
O eleitor mato-grossense, portanto, acompanhará uma campanha na qual declarações públicas, acordos partidários e gestos de aproximação poderão revelar tanto as diferenças entre os grupos quanto os interesses que os levam a compartilhar o mesmo palanque.
Política
“A classe política está se reunindo num grupo e eu não estou com esse grupo”
A consolidação do cenário eleitoral no Estado de Mato Grosso ganhou contornos de forte tensão interna no Partido Liberal (PL) após o Prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, manifestar publicamente sua recusa em integrar o palanque oficial da legenda. A declaração do chefe do Executivo Municipal marca uma fissura estratégica dentro da sigla, revelando a resistência de quadros conservadores locais em relação às alianças costuradas pela direção partidária para a composição da chapa majoritária no estado.
A divergência política veio a público durante pronunciamento em que o gestor cuiabano confirmou que não participará dos atos de campanha voltados ao Governo do Estado ou ao Senado Federal que contem com a presença dos aliados estipulados na coligação. O posicionamento isola momentaneamente a candidatura do correligionário Wellington Fagundes e evidencia a complexidade das negociações regionais que envolvem diferentes correntes do meio político mato-grossense.
A comunicação formal da decisão ocorreu diretamente no âmbito da alta cúpula do Partido Liberal (PL), tendo sido transmitida ao presidente nacional da agremiação, Valdemar Costa Neto, e a lideranças de projeção federal, como o senador Flávio Bolsonaro. Durante as interlocuções com a executiva, o prefeito cuiabano assegurou que respeitará a legislação eleitoral ao não manifestar apoio a candidatos de agremiações adversárias, contudo ressaltou a garantia de sua autonomia em relação às escolhas locais.
A medida do mandatário da capital abrange a negação categórica de apoio e espaço de palanque à candidata ao Senado pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), deputada estadual Janaina Riva, e ao senador Jayme Campos, do União Brasil (UB).
A restrição estende-se de forma direta à campanha do próprio correligionário de partido, inviabilizando a construção de uma imagem de unidade partidária durante o itinerário eleitoral em Cuiabá.
A motivação central da postura do gestor municipal fundamenta-se na rejeição ao modelo de coalizão firmado no estado, classificado por ele como uma tentativa de articulação de grupos políticos tradicionais para a retomada de espaço na administração pública. Segundo a avaliação expressa pelo prefeito cuiabano Abilio Brunini, a chapa desenhada reúne atores cujas trajetórias se alinham a gestões passadas marcadas por controvérsias e desgastes perante a opinião pública.
A concretização da recusa respalda-se também nos reflexos recentes das disputas municipais na capital, onde confrontos diretos com lideranças que hoje compõem o bloco governista inviabilizaram a coexistência harmoniosa em um mesmo espaço de propaganda. O gestor cuiabano apontou a incoerência ética que representaria dividir palanque e atos públicos com oponentes que teceram duras críticas à sua plataforma de governo e às suas referências políticas ao longo do pleito municipal.
A estratégia adotada por Abilio Brunini prevê o direcionamento exclusivo de suas forças e articulações políticas para a sustentação da candidatura do deputado federal José Medeiros na disputa por uma vaga no Senado Federal. Além do empenho na candidatura ao Congresso Nacional, o prefeito concentrará sua atuação na promoção das candidaturas proporcionais do Partido Liberal (PL), destinadas à Assembleia Legislativa Mato-grossense e à Câmara dos Deputados.
Diante do cenário de contestação às diretrizes partidárias, o prefeito descartou quaisquer especulações acerca de eventuais retaliações disciplinares ou risco de expulsão dos quadros da agremiação. O alinhamento rigoroso às normas jurídicas vigentes, garantido pela opção da neutralidade sem apoio infiel a legendas concorrentes, fundamenta a segurança política do gestor frente à direção nacional do partido.
A reação da cúpula do Partido Liberal e dos integrantes da coligação majoritária expõe os desafios enfrentados pelas grandes alianças partidárias para harmonizar os interesses de quadros municipais consolidados com as metas regionais. A fragmentação interna exige da coordenação de campanha a readequação das agendas públicas nos maiores colégios eleitorais do estado para mitigar os efeitos da ausência de lideranças locais.
Por fim, o desdobramento dessa divisão interna delineia a complexidade do ambiente político mato-grossense, no qual convicções ideológicas e rivalidades locais frequentemente se sobrepõem às orientações das convenções partidárias.
A manutenção do posicionamento do Prefeito de Cuiabá reforça a independência das bases municipais em relação às cúpulas estaduais, redefinindo as dinâmicas de busca por votos ao longo da campanha.
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