Política
Antero: “Taques tem virtudes que viram defeitos”
Em entrevista ao programa O Livre, da Band, com Augusto Nunes, o ex-senador da república e marqueteiro que acumula seis vitórias, sendo quatro consecutivas, à prefeitura de Cuiabá, Antero Paes de Barros posicionou-se crítico à gestão do governador Pedro Taques (PSDB) e sugere ainda que as investigações envolvendo desvio de recursos da Secretaria de Educação do Estado (Seduc), nesta gestão, não foram esgotadas pelo Ministério Público.
"Taques tem algumas virtudes que viram defeito", dispara. Antero sugere que a atuação do secretário de Cidades, Eduardo Chiletto foi pífia desde os seis meses de gestão e que a demissão tardou outros 12 meses. "Por que o governador não demitiu Chiletto mais cedo? Com seis meses de governo deu para perceber que ele era incapaz de tomar conta de duas tartarugas, porque as duas fugiriam. Lá aos 18 meses Taques demitiu. É uma virtude, à lealdade e à amizade, mas essa virtude na hora de olhar o interesse do estado deve ser bem dosada", diz.
O ex-senador pontuou os indícios de crime de desvio de recursos na Seduc. "Está evidente que aconteceram. Não dá para tampar o sol com a peneira. O que não dá para falar é que um estado gigantesco como este dizer 'eu tenho certeza que ninguém vai roubar'".
Mesmo com delações citando esquema de desvio de recursos da Seduc para pagamento de despesas de campanha de Taques, o que é negado por Taques, Antero cuidou em destacar na entrevista o que caracteriza como testemunho. "Trabalhei no marketing da campanha do governador. Eu reputo ao governador a imagem de uma pessoa séria e por tudo que conheço dele", lembra.
Para Antero, as delações exercem papel essencial para desvendar a corrupção o Estado. "Eu acredito que deveriam ter perguntado melhor para os delatores, tanto a juíza, quanto os membros do MP nesta questão da Seduc. A questão não está esgotada", alega.
Outro desgaste vivido pela gestão Taques seria proveniente da postura do próprio governador ao decidir que indicaria todos os quadros das pastas. Estas arestas teriam dado ensejo para mobilização de uma oposição mais estruturada. "Quem ajudou a eleger não tinha nada a ganhar. Quem ajuda a ganhar quer ajudar a governar e não é errado você querer ajudar. O errado é contemplar a má política".
Para o marqueteiro, é fato que administrativamente o governador Pedro Taques "está mal" e aponta que boa parte da culpa está em uma equipe econômica inexperiente. "Nos primeiros meses quando ele autorizava contração disso e daquilo, pensei que ou o ex-governador Silval Barbosa tivesse sido um baita de um governador e deixou o estado redondíssimo para que o Taques pudesse fazer tudo isso ou a equipe econômica dele é muito inexperiente", declarou.
Para Antero a equipe inexperiente é a alternativa plausível para os atrasos de salário e desgaste. Aponta também que a reforma administrativa do governo nunca sai do papel. "Isso é ruim. Governar é fazer o que tem que ser feito. Se dá para reeleger ou não depois e outro detalhe", pontua.
Com a imagem abalada e com a crise econômica instaurada no Estado, boa parte dela em decorrência da crise político-econômica nacional, Taques ainda amarga uma má avaliação de sua gestão, porém, Antero defende que há condições de recuperar o andamento e avaliação da gestão, mas depende de uma autocrítica profunda e teria que partir de Pedro e do chefe da Casa Civil, Paulo Taques.
Política
Teia de suspeitas do VLT e impasse do BRT tensionam relação entre “Governo” e “Oposição”
A Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso (AL/MT) converteu-se no cenário de um intenso embate político que paralisou o debate sobre a infraestrutura local. O episódio ocorreu durante uma Audiência Pública de prestação de contas que acabou por desviar o foco técnico para antigas disputas eleitorais. A sessão, que deveria esclarecer o andamento das obras do Ônibus de Trânsito Rápido (BRT), transformou-se em uma arena de acusações recíprocas entre a base governista e a oposição. O impasse reflete a profunda polarização que historicamente caracteriza a gestão das grandes obras de mobilidade urbana na capital mato-grossense.
O debate centralizador das discussões ocorreu no Palácio Dante de Oliveira, sede do Poder Legislativo do Estado de Mato Grosso, localizada no Centro Político Administrativo de Cuiabá. A escolha do local conferiu caráter oficial e solene ao encontro, que reuniu parlamentares, gestores públicos e representantes da sociedade civil organizada. A capital, que convive há mais de uma década com os transtornos decorrentes de projetos de transporte inacabados, serviu como pano de fundo geográfico e social para o confronto. O ambiente do plenário, marcado por discursos inflamados e questionamentos incisivos, evidenciou a urgência das respostas demandadas pela população cuiabana.
A reunião deliberativa aconteceu nesta terça-feira, momento em que o cronograma físico e financeiro do BRT voltou a ser oficialmente questionado pela Comissão Parlamentar competente. O agendamento da Audiência Pública atendeu a um requerimento de urgência apresentado pela oposição, motivado pelas sucessivas dilações nos prazos de entrega das vias exclusivas de transporte. A temporalidade do evento revelou-se estratégica, ocorrendo em um período de crescente cobrança social pela retomada e finalização dos corredores estruturais de trânsito na região metropolitana do Vale do Rio Cuiabá.
O secretário de Estado de Infraestrutura e Logística do Estado de Mato Grosso (SINFRA/MT), Marcelo de Oliveira, conhecido politicamente como Marcelo “Padeiro”, figurou como o principal convocado para prestar os esclarecimentos técnicos necessários. O gestor, contudo, optou por retirar-se do recinto parlamentar antes da formulação das perguntas cruciais pelos deputados da oposição, gerando forte descontentamento no plenário.
A conduta do secretário foi interpretada pela bancada oposicionista como uma deliberada esquiva diante das responsabilidades administrativas referentes aos contratos e aditivos vigentes.
A convocação oficial da autoridade governamental deu-se em razão da necessidade imperiosa de esclarecer os motivos das constantes paralisações e o encarecimento das obras do BRT. O projeto atual, que substituiu o antigo modelo de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), é alvo de investigações que apontam suposta falta de planejamento e excesso de contratações diretas sem licitação. Os deputados estaduais exigiam a apresentação detalhada de planilhas de custos e a justificativa para a escolha de consórcios específicos para a execução dos lotes remanescentes.
A controvérsia instalou-se em virtude do abandono da sessão pelo secretário e das posteriores declarações do governador Otaviano Pivetta, do partido Republicanos, que saiu em defesa de seu colaborador. O chefe do Executivo Estadual descaracterizou as cobranças técnicas da oposição ao sugerir que a campanha eleitoral de 2012 do deputado estadual Lúdio Cabral (PT), fora financiada com desvios do extinto projeto do VLT.
Esse movimento retórico redirecionou a pauta de fiscalização orçamentária para o campo das suspeitas criminais pretéritas, inflamando o ambiente político estadual e deslocando o foco das atuais falhas de execução do BRT.
Os parlamentares estaduais utilizaram-se dos mecanismos constitucionais de fiscalização do Poder Executivo, amparados pelo regimento interno da Casa de Leis e pela prerrogativa de controle externo da administração pública. A inquirição dos secretários de Estado constitui um dever do parlamento e um direito do cidadão ao acesso à informação e à transparência pública. A utilização desse instrumento de controle democrático visa garantir que os recursos públicos sejam aplicados em conformidade com os princípios da legalidade, da impessoalidade e da moralidade administrativa.
A complexidade operacional e financeira que envolve a transição do modelo de VLT para o BRT justifica a intensa preocupação dos órgãos de controle e dos representantes do Legislativo. Um dos pontos de maior atrito consiste no expressivo aumento do valor de um lote licitado, cujo custo inicial saltou de R$ 68 milhões para expressivos R$ 120 milhões em apenas dois meses.
A dispensa de licitação concedida sistematicamente a uma única empresa construtora agravou as suspeitas de favorecimento, motivando pedidos de auditoria detalhada junto ao Tribunal de Contas do Estado.
O impacto imediato desse novo embate político consiste no severo travamento da interlocução institucional entre o Palácio Paiaguás e a Assembleia Legislativa de Mato Grosso. As declarações de Otaviano Pivetta geraram forte reação do deputado petista Lúdio Cabral, que refutou veementemente as acusações de corrupção eleitoral e prometeu acionar os meios jurídicos cabíveis para restabelecer sua honra. A judicialização da disputa política tende a prolongar o clima de instabilidade, prejudicando a aprovação de matérias de interesse público e a própria fiscalização das obras de mobilidade urbana.
A sociedade mato-grossense permanece como a principal prejudicada pelo prolongamento indefinido dos canteiros de obras que obstruem o tráfego e deterioram o comércio de Cuiabá. Enquanto as lideranças políticas priorizam a disputa de narrativas sobre eventos ocorridos há mais de uma década, o cronograma do BRT segue sem uma definição concreta de entrega.
A expectativa coletiva por um sistema de transporte coletivo moderno e eficiente continua frustrada pela crônica incapacidade de planejamento e pela constante partidarização das soluções de infraestrutura pública.
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