ESQUEMAS DE CORRUPÇÃO E DESVIOS DE VERBAS PÚBLICAS
PF deflagra “Operação Heritage” e mira suposto desvio de R$ 308 milhões envolvendo ex-governador de MT
Uma ação popular ajuizada no Mato Grosso (MT) aponta que empresas ligadas a parentes do governador Mauro Mendes (UB) e do deputado federal licenciado e chefe da Casa Civil, Fabio Garcia (União Brasil), teriam se beneficiado de um acordo para o pagamento de uma dívida tributária da empresa Oi, no valor de R$ 308 milhões. A movimentação, segundo a denúncia, também teria favorecido o desembargador Ricardo Almeida, do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso (TJMT).
A ação foi movida pelo ex-governador mato-grossense José Pedro Gonçalves Taques (2015 e 2019), que também é ex-procurador da República. Pedro Taques é adversário político de Mauro Mendes na disputa por uma das duas vagas do estado para o Senado nas eleições deste ano.
Ação da Policia Federam em Mato Grosso
A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta quinta-feira (6), a chamada “Operação Heritage“. A ação ostensiva tem como foco principal a apuração de esquemas de corrupção e desvios de verbas públicas que teriam como figura central o ex-governador do Estado de Mato Grosso, Mauro Mendes Ferreira (UB).
O objetivo fundamental da corporação é desarticular uma suposta estrutura criminosa voltada à prática de peculato, lavagem de dinheiro, uso indevido de informação privilegiada e crimes financeiros contra o Sistema Financeiro Nacional. A ofensiva busca estancar a sangria de cofres públicos e reaver ativos desviados do Estado.

A “Operação Heritage” ocorre simultaneamente nos Estados de Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. As equipes da PF foram mobilizadas nas primeiras horas do dia para o cumprimento das ordens judiciais expedidas pelas autoridades competentes.
O cumprimento dos mandados foi determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A Suprema Corte autorizou a expedição de 25 mandados de busca e apreensão e decretou medidas cautelares rigorosas, tais como o bloqueio de bens em até R$ 316 milhões, a quebra dos sigilos bancário e fiscal, o recolhimento de passaportes e a proibição de contato entre os alvos.
A deflagração da “Operação Heritage“ tornou-se possível após a conclusão das análises técnicas de um acordo firmado entre o Estado de Mato Grosso e uma empresa privada de telefonia. O pacto tratava do ressarcimento de valores decorrentes de uma disputa tributária e serviu de ponto de partida para a atuação dos investigadores.
A apuração sobre as irregularidades transcorria nos bastidores e ganhou celeridade após peritos e analistas financeiros identificarem indícios consistentes de fraudes. A ação ostensiva foi deflagrada na manhã desta quinta-feira (6) assim que o STF deferiu os pedidos de busca, apreensão e bloqueio de bens.

Conforme as apurações, a fraude teria se operacionalizado por meio de uma engenharia financeira complexa composta por fundos de investimento em cascata e empresas de fachada. Essa estrutura interposta visava ocultar e dissimular a origem, a movimentação e os destinatários finais das verbas desviadas.
O montante desviado do erário de Mato Grosso supera a quantia de R$ 308 milhões. Além disso, as cautelares de indisponibilidade e bloqueio patrimonial sobre os envolvidos alcançam a cifra aproximada de R$ 316 milhões.
Agentes federais e peritos realizaram buscas em endereços estratégicos, incluindo a residência de Mauro Mendes no condomínio Alphaville 1, em Cuiabá, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), escritórios de advocacia e endereços vinculados a dois desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) e a um parlamentar.
Em nota, a Polícia Federal ressaltou que a “Operação Heritage“ busca elucidar a extensão dos danos e que os fatos configuram, em tese, organização criminosa e crimes financeiros. A corporação ressaltou que a divulgação formal preservou nomes de alvos específicos até a plena conclusão das diligências no terreno.
Destaques
“Operação Heritage” expõe teia de fundos em cascata, cessões de crédito interpostas e conexões de alto escalão entre o Executivo, o Judiciário e o setor privado
O QUE
A Polícia Federal deflagrou na manhã de hoje a Operação Heritage, ostensiva ação policial voltada a desarticular um sofisticado esquema institucional de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro no Estado de Mato Grosso. A investigação debruça-se sobre a homologação e o pagamento transacional de um controverso pacto financeiro, mediante o qual cofres estaduais repassaram R$ 308,1 milhões sob a justificativa de encerrar um litígio tributário histórico.
O caso revela indícios severos de concussão, peculato, uso indevido de informação privilegiada e infrações graves contra o Sistema Financeiro Nacional.
QUEM
A teia dos investigados abrange figuras proeminentes do cenário político e jurídico estadual, tendo como alvo central o ex-governador Mauro Mendes (UB), além do deputado federal Fábio Garcia (UB), atual pré-candidato a vice-governador na chapa de Otaviano Pivetta. A ostensiva operação policial atingiu também a procuradora Fabíola Paulino Garcia, irmã do parlamentar, o desembargador Ricardo Gomes de Almeida, nomeado para o Tribunal de Justiça em final de 2025 após atuar como advogado na causa, secretários estaduais de Estado e operadores financeiros encarregados da intermediação dos valores.
QUANDO
As ações de busca e apreensão ocorreram nesta quinta-feira, 6 de agosto de 2026, culminando uma apuração que reconstituiu minuciosamente atos administrativos ocorridos entre 2009 e 2024. O cronograma decisivo iniciou-se em outubro de 2023, quando a empresa Oi S.A. cedeu seus direitos creditícios por R$ 80 milhões; acelerou-se em abril de 2024, data na qual o Executivo estadual chancelou o acordo bilionário e efetuou o crédito suplementar; e desdobrou-se nas movimentações bancárias subsequentes monitoradas pelo Coaf e pela Polícia Federal.

ONDE
Os mandados judiciais foram cumpridos simultaneamente em endereços estratégicos da capital cuiabana, incluindo gabinetes oficiais e sedes corporativas de alto padrão. Agentes federais em viaturas ostensivas ocuparam a sede da Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso (PGE-MT), vistoriando a sala de Fabíola Garcia, além de realizarem apreensões de documentos e mídias digitais em dois escritórios do desembargador Ricardo Gomes de Almeida localizados no Centro Empresarial Maruanã, situado na Avenida do CPA, e em prédio comercial na Avenida São Sebastião.
COMO
A engenharia do suposto desvio operou-se por meio de uma complexa arquitetura financeira baseada em fundos de investimento em cascata e empresas de fachada interpostas. Após a assinatura do Termo de Autocomposição, o direito creditício milionário foi sucessivamente cedido a múltiplos veículos de investimento privados no mesmo mês de abril de 2024, estratégia desenhada para fracionar as parcelas, dissimular a real titularidade dos beneficiários finais e ocultar a liquidação do montante originado do erário estadual.
POR QUE
A motivação central das condutas sob investigação residia no direcionamento proposital de verbas públicas para o enriquecimento ilícito de agentes estatais e particulares aliados. A apuração demonstra que a administração pública converteu uma execução fiscal na qual o Estado era vencedor garantido com trânsito em julgado desde 2018 em uma transação administrativa onerosa, forjando um cenário de risco jurídico artificial tão somente para fundamentar o escoamento dos R$ 308,1 milhões aos cofres de terceiros.

QUANTO
As cifras investigadas refletem uma discrepância astronômica entre a avaliação originária do débito e os valores transacionados ao longo do tempo. A disputa envolvia inicialmente uma dívida tributária do ICMS estimada em R$ 690 milhões; contudo, em 2023, o direito ao crédito foi vendido pela concessionária de telefonia por R$ 80 milhões a um escritório privado.
Este, por sua vez, demandou R$ 583,4 milhões ao Estado e consolidou o acordo definitivo na quantia de R$ 308.123.595,50, pagos com urgência atípica sem a devida previsão orçamentária prévia.
QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS
O desdobramento da Operação Heritage produz abalos sísmicos na estabilidade política de Mato Grosso e reconfigura o quadro eleitoral ao atingir frontalmente a chapa governista à reeleição. Além das previsíveis sanções penais e da indisponibilidade de bens dos implicados, a ação desmantela o fluxo financeiro ilícito, põe sob suspeita a idoneidade de decisões administrativas da PGE-MT e suscita a instauração de procedimentos disciplinares junto ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e ao Ministério Público.
QUAIS AS FONTES
As evidências do inquérito fundam-se em relatórios da Polícia Federal, auditorias de inteligência financeira, dados da Ação Popular em curso e relatórios de auditoria orçamentária. Em contrapartida institucional, a defesa do ex-governador Mauro Mendes declarou oficialmente que o político confia plenamente no trabalho investigativo da Polícia Federal, coloca-se à inteira disposição das autoridades e aguarda com serenidade os esclarecimentos dos fatos, demonstrando convicção na comprovação da lisura de sua conduta.
O QUE ACONTECE AGORA
A partir de agora, o procedimento investigatório entra em fase de análise pericial de todo o material apreendido nos computadores, celulares e documentos recolhidos durante as buscas. Cabe à Justiça Federal avaliar a manutenção do sigilo dos autos, eventual oferecimento de denúncia formal pelo Ministério Público Federal e a aplicação de medidas cautelares adicionais, enquanto os implicados terão prazos regimentais para apresentar suas defesas prévias diante das instâncias judiciais competentes.
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