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Carbono Não É Promessa. Também Não É Milagre.

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Autor: Stéphano Benevides do Carmo*

O que o produtor rural realmente precisa saber sobre o mercado que já movimenta bilhões no mundo

Poucos temas despertaram tanto interesse no agronegócio brasileiro nos últimos anos quanto o mercado de carbono. Em um curto espaço de tempo, o assunto passou a ocupar espaço em congressos, feiras, reuniões de negócios e nas principais publicações especializadas. Para alguns, representa uma nova fronteira de riqueza para o produtor rural. Para outros, continua sendo apenas uma promessa cercada de incertezas.

A verdade, como quase sempre acontece, está entre esses dois extremos.

O mercado de carbono existe. Está em expansão, movimenta bilhões de dólares em todo o mundo e influencia decisões estratégicas de governos, bancos, fundos de investimento, multinacionais e grandes empresas do agronegócio. Ao mesmo tempo, ainda convivem com regulamentações em construção, metodologias complexas e um excesso de expectativas que nem sempre correspondem à realidade encontrada dentro das propriedades rurais brasileiras.

Por isso, antes de perguntar quanto vale um crédito de carbono, talvez seja mais importante responder outra questão: A propriedade rural está realmente preparada para participar desse mercado? Essa é, na minha avaliação, a pergunta que deveria orientar o debate. Quem ainda acredita que o mercado de carbono pertence apenas ao futuro talvez desconheça o que já acontece na economia global.

Em 2024, a Microsoft anunciou a aquisição de oito milhões de créditos de carbono provenientes de projetos florestais desenvolvidos pelo BTG Pactual Timberland Investment Group (TIG), em uma das maiores operações privadas já divulgadas nesse segmento.

No setor financeiro, o Itaú Unibanco tornou-se um dos participantes da Carbonplace, plataforma internacional criada para conectar compradores e vendedores de créditos de carbono, ao lado de algumas das maiores instituições financeiras do mundo.

No agronegócio brasileiro, empresas como a AMAGGI investem em projetos ligados à agricultura regenerativa e ao carbono no solo, enquanto grupos como a JBS desenvolvem iniciativas para medir e reduzir as emissões de suas cadeias produtivas, antecipando exigências que já fazem parte do comércio internacional.

Esses exemplos demonstram que as grandes corporações deixaram de discutir se o mercado de carbono vai existir. Elas já estão investindo para ocupar posições estratégicas em uma economia que valoriza ativos ambientais, rastreabilidade e redução de emissões.

No Brasil, a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024, representa um dos principais marcos da política climática nacional.

Entretanto, é importante compreender que o mercado regulado brasileiro ainda está em fase de implementação.

O Governo Federal trabalha na regulamentação técnica do sistema, definindo metodologias, critérios de monitoramento, registros oficiais e mecanismos de governança que deverão oferecer segurança jurídica às futuras negociações.

Na prática, convivemos hoje com duas realidades distintas.

O mercado voluntário já movimenta recursos entre empresas interessadas em compensar emissões ou cumprir compromissos ambientais.

O mercado regulado, por sua vez, ainda está sendo estruturado e deverá entrar em funcionamento de forma gradual.

Compreender essa diferença é fundamental para evitar expectativas irreais.

Maior produtor nacional de grãos e um dos estados com maior patrimônio ambiental do país, Mato Grosso também começa a ocupar posição estratégica nessa nova economia. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA-MT) passou a tratar o mercado de carbono como um instrumento de desenvolvimento econômico associado à conservação ambiental. A estruturação de iniciativas relacionadas ao REDD+ jurisdicional, a busca por investimentos climáticos e o fortalecimento do monitoramento ambiental demonstram que o Estado procura transformar seus ativos naturais em vantagem competitiva.

Essa mudança representa uma evolução importante da política ambiental. Durante décadas, a atuação do poder público esteve concentrada no licenciamento, na fiscalização e no controle ambiental. Essas funções continuam essenciais, mas passam a conviver com instrumentos econômicos capazes de reconhecer e valorizar quem produz de forma sustentável.

Se Mato Grosso procura criar um ambiente favorável aos investimentos, o IBAMA reforça um princípio igualmente importante: a integridade ambiental.

O Instituto deixa claro que um crédito de carbono somente possui valor quando representa uma redução ou remoção de emissões efetivamente comprovada.

Isso significa atender critérios rigorosos de adicionalidade, permanência, monitoramento, mensuração, auditoria independente e rastreabilidade. Em outras palavras, o mercado não remunera simplesmente a existência de uma floresta.

Ele remunera resultados ambientais comprovados. Essa distinção protege tanto os compradores quanto os produtores e fortalece a credibilidade do mercado brasileiro.

Talvez a pergunta mais frequente seja:

Tenho uma propriedade regularizada e uma Reserva Legal preservada. Posso vender créditos de carbono?“.

Na maioria das situações, a resposta é não automaticamente. A existência de vegetação nativa, por si só, não gera créditos comercializáveis. É necessário demonstrar, por meio de metodologias reconhecidas internacionalmente, que aquela propriedade produz benefícios ambientais adicionais, permanentes e verificáveis.

Essa talvez seja a maior diferença entre patrimônio ambiental e ativo ambiental. Nem toda floresta preservada gera créditos de carbono. Mas toda propriedade bem administrada amplia suas possibilidades de participar desse mercado.

Quando analisamos as posições das instituições públicas e das principais entidades representativas do setor produtivo, encontramos uma convergência bastante interessante.

Nenhuma delas apresenta o mercado de carbono como uma solução rápida para aumentar a renda do produtor rural. Ao contrário. Todas defendem que a geração de valor ambiental é consequência de uma propriedade tecnicamente eficiente, ambientalmente regularizada e bem administrada.

A Aprosoja Mato Grosso orienta seus associados, por meio do Programa Soja Legal, a manterem o Cadastro Ambiental Rural atualizado, organizarem a documentação da propriedade e fortalecerem a rastreabilidade e a conformidade ambiental.

O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) contribui produzindo estudos econômicos que permitem avaliar custos, produtividade, competitividade e tendências de mercado, reforçando que decisões relacionadas ao carbono devem ser tomadas com base em dados e análise econômica.

Já o Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) demonstra, por meio de pesquisas científicas, que práticas amplamente adotadas na cotonicultura, como o Sistema Plantio Direto, favorecem o aumento da matéria orgânica do solo, reduzem o consumo de combustível e ampliam o potencial de sequestro de carbono.

A mensagem do Instituto é clara.

Antes de discutir créditos de carbono, é preciso produzir melhor. Essa visão também é compartilhada pelo Sistema Famato, que concentra seus esforços na assistência técnica, na capacitação e na gestão das propriedades rurais, entendendo que sustentabilidade, produtividade e competitividade caminham juntas.

Quando reunimos todas essas posições, a conclusão é evidente. O crédito de carbono não representa uma nova atividade agrícola. Ele é consequência de uma propriedade que reúne governança, regularidade ambiental, tecnologia, rastreabilidade e capacidade de demonstrar resultados.

Talvez o debate mais sensível sobre o mercado de carbono não esteja nas metodologias de certificação nem na tecnologia utilizada para medir emissões.

A questão central é outra: quem deve remunerar o produtor rural pelos serviços ambientais que sua propriedade presta à sociedade?

Milhões de hectares permanecem preservados em propriedades privadas brasileiras, seja por obrigação legal, seja por decisão de seus proprietários. Essas áreas contribuem para a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos, a estabilidade do clima e o armazenamento de carbono.

É natural, portanto, que muitos produtores questionem se esses benefícios ambientais, que geram valor para toda a sociedade, também não deveriam ser reconhecidos economicamente.

Essa discussão está diretamente relacionada ao conceito de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), previsto na legislação brasileira, e tende a ganhar importância à medida que governos, empresas e investidores buscam mecanismos para incentivar a conservação ambiental.

Entretanto, é fundamental separar conceitos. Receber por serviços ambientais não é a mesma coisa que gerar créditos de carbono. Os créditos exigem metodologias específicas, comprovação de adicionalidade, monitoramento permanente, auditorias independentes e certificações reconhecidas
internacionalmente.

Já os programas de Pagamento por Serviços Ambientais podem remunerar benefícios ambientais mais amplos, como conservação da água, proteção da biodiversidade, recuperação de áreas degradadas e manutenção de ecossistemas.

Essa diferença precisa ser compreendida para evitar frustrações e interpretações equivocadas. O debate sobre quem deve remunerar a conservação ambiental continuará crescendo nos próximos anos.

Mas ele somente produzirá resultados duradouros se estiver apoiado em segurança jurídica, critérios técnicos claros e mecanismos transparentes de remuneração.

Enquanto o mercado amadurece, cresce também o número de empresas oferecendo contratos de longo prazo aos produtores rurais. Alguns preveem cessão dos direitos sobre créditos de carbono por períodos de trinta, quarenta ou até cinquenta anos.

Antes de qualquer assinatura, é indispensável compreender exatamente o que está sendo negociado.

Quem será o proprietário dos créditos?
Quem pagará os custos de certificação?
Existe comprador definido ou apenas expectativa de comercialização?
Quais obrigações permanecerão com o proprietário durante toda a vigência do contrato?

Responder a essas perguntas talvez seja mais importante do que discutir o preço futuro do carbono. Ao longo de mais de três décadas acompanhando a evolução da gestão ambiental brasileira, observei uma mudança profunda na relação entre produção e conservação.

Durante muito tempo, a política ambiental esteve concentrada quase exclusivamente no licenciamento, na fiscalização e no combate às irregularidades.

Essas funções continuam indispensáveis.

Mas uma nova lógica começa a ganhar espaço. Produzir conservando passa a gerar valor econômico. A propriedade rural deixa de ser avaliada apenas pela fertilidade do solo, pela produtividade ou pela localização.

Gradualmente, fatores como governança, rastreabilidade, regularização ambiental, tecnologia e capacidade de demonstrar serviços ambientais passam a integrar a percepção de valor dos investidores, das instituições financeiras e dos mercados consumidores.

Nesse contexto, o crédito de carbono não deve ser visto como um fim em si mesmo. Ele representa apenas um dos instrumentos dessa nova economia.

O mercado de carbono não é uma promessa. Mas também não é um milagre.

Grandes empresas já negociam milhões de créditos, bancos estruturam plataformas financeiras específicas e investidores destinam recursos crescentes a projetos ambientais. O Brasil consolida seu marco regulatório, enquanto estados como Mato Grosso buscam transformar seus ativos naturais em oportunidades de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, órgãos ambientais, instituições de pesquisa e entidades representativas do agronegócio convergem em uma orientação comum: antes de pensar em vender carbono, é preciso produzir com eficiência, investir em tecnologia, manter a regularidade ambiental e construir credibilidade.

Talvez essa seja a principal lição desse novo mercado. Mais do que discutir o preço da tonelada de carbono, o Brasil precisa decidir como valorizar, de forma justa e transparente, quem produz alimentos, conserva recursos naturais e presta serviços ambientais que beneficiam toda a sociedade.

O futuro do mercado de carbono não será definido apenas pelas bolsas de negociação ou pelos contratos internacionais. Ele dependerá da capacidade de construir confiança entre produtores, investidores, governos e consumidores.

Porque, no fim, o ativo mais valioso de uma propriedade rural não será apenas sua floresta ou sua capacidade de gerar créditos.

Será sua credibilidade.

*Stéphano Benevides do Carmo, atua há mais de três décadas na gestão pública. É Diretor da Classe A Agro e participou de projetos relacionados ao desenvolvimento regional, regularização fundiária, gestão ambiental, infraestrutura e atração de investimentos em Mato Grosso. Atualmente dedica-se à análise estratégica do agronegócio, inteligência territorial e novas oportunidades ligadas à economia ambiental.

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O momento e seus movimentos

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Autora: Valéria del Cueto*

Estou querendo sair da toca e recarregar as baterias. A primeira e melhor opção é rumar para os lados da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso.

Acontece que “querer muito” não afasta os senões que se acumulam nesta possibilidade para a temporada inverno/primavera 2026.

O maior senão é, sem dúvida, climático. Morei décadas em Cuiabá e não sou uma desavisada em relação ao calorão dos próximos meses.

Tenho uma lembrança vívida da parede de quentura que enfrentam os desavisados e desacostumados passageiros ao desembarcarem do avião no Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande. É uma sensação inesquecível.

Melhorou com o tempo, com a chegada dos fingers que ligam a porta da aeronave diretamente ao prédio do aeroporto. O que apenas fez que o “soco” não aconteça mais nas escadas do avião, com o calor refletido no asfalto do pátio de manobras e, sim, mais tarde um pouco, depois de pegar as malas, ao se abrirem as portas automáticas do Aeroporto Marechal Rondon para a área do estacionamento.

Quer saber? Quem mora em Mato Grosso pode não notar, mas a temperatura e a baixa umidade do ar estão aumentando! Sinto porque as ausências me desacostumam ao clima local e, a cada volta, acho que ele está ainda mais crítico, mais bruto.

Agora, pensa com o El Niño mais poderoso de todos os tempos, o que vai acontecer!

Esse não é o único motivo que está pesando contra as saudades que sinto de Chapada, do Pantanal e, principalmente, de amigos queridos que adoro encontrar sempre que posso.

Acontece que acho que não mereço atravessar os dias da campanha política em Mato Grosso.

Em alguns momentos, certas qualidades podem trazer sérios prejuízos e, quando não há um objetivo que compense, é melhor não arriscarmos nosso patrimônio moral numa guerra que não é mais nossa.

Esse é, para mim, o caso da política de Mato Grosso e da tal qualidade que pode custar muito caro. Falo da memória, da história mato-grossense. Essa que, parece, está muito em falta por aí. Por isso, estou adiando minha ida até o mês de novembro, como fiz no ano passado. O tempo será mais ameno, com a chegada das chuvas e o final do período eleitoral.

Se desembarcar antes do final das eleições, pelo menos do primeiro turno, sei que não vou conseguir seguir à risca meu objetivo.

Ele está resumido num dos ditados de Luizinho Soares. Aquele político que, se não é lembrado por sua vida pública, por seu trabalho em benefício da população mato-grossense, sempre estará nos meus pensamentos norteando objetivos por frases que levo pela vida. O mote da vez é: “quanto menos conversa, nenhuma“.

Até onde puder, nesses tempos de embates eleitorais, pretendo me dedicar a não gastar energias onde não há espaço para a argumentação. O universo eleitoral de Mato Grosso é minúsculo e restrito, perto da dimensão da disputa nacional e, diante disso, pouco significativo no contexto brasileiro.

Então, estar preocupada com as disputas regionais, o que certamente acontecerá caso resolva enfrentar o El Niño em uma de suas piores versões por aí, diminuirá o raio de ação relacionado aos embates que estão por vir.

Já dei minha cota de colaboração aos caminhos de Mato Grosso em outros tempos, quando havia melhores condições para argumentar e algum sentido em alertar. Hoje, o que vejo é a radicalização e o firme propósito, não de dialogar, mas de confrontar.

Aí, volto alguns parágrafos, para a parte que menciona o fator memória, aquela que, parece, nem todos têm de sobra.

Sou do tempo em que contra os fatos (eles estão aí para quem quiser comprovar) não existiam argumentos. Os alertas foram repetidos e, em muitos setores, não surtiram efeitos.

O que temos é mais do mesmo e só em tempos de eleições: Pantanal, meio ambiente, agricultura familiar, preservação,
infraestrutura, a melhoria do serviço público, da educação, saúde, segurança…

Tudo com prazo de validade, até a colocação do voto na urna!

Depois, tudo volta ao normal, onde a Lei de Gérson, que diz que gosta de levar vantagem em tudo, volta a imperar e encher os bolsos dos de sempre. Resumindo o momento e definindo os movimentos, pretendo me dedicar aos indecisos.

Como eu, são eles que ainda aceitam dialogar e, talvez, se dispunham a ouvir argumentos. É com eles que pretendo conviver nos próximos meses. Longe da temperatura quase insuportável de Mato Grosso e junto ao calor dos debates produtivos que definirão o futuro do Brasil.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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