Artigo
CELEBRAÇÕES ESPECIAIS DE AGOSTO 2026
Autor: Juacy da Silva* –
“Não podemos mais tolerar injustiças estruturais pelas quais quem tem mais, tem sempre mais, e vice-versa, quem tem menos, empobrece cada vez mais“.
É o que escreveu o Papa Leão XIV na introdução inédita do seu novo livro A força do Evangelho. A fé cristã em 10 palavras, publicado em 20 de novembro de 2025, em língua italiana, pela Libreria Editrice Vaticana (LEV).
“Os povos indígenas são os verdadeiros guardiões do planeta, da ecologia integral e, também do conhecimento ancestral, defensores do patrimônio cultural, guardiões da biodiversidade e seres essenciais (grupos humanos) para o nosso futuro comum e compartilhado“. António Guterres, secretário-geral da ONU 09/08/2025.
O mês de Agosto nos convida a reflexões mais profundas sobre diversos temas/assuntos importantes, tanto para a nossa história quanto para a ecologia integral e, inclusive alguns momentos significativos da vida internacional.
Além do DIA DOS PAIS, celebrado neste 2º domingo, 09 de Agosto, este é, também, um momento para refletirmos sobre a importância e o papel da paternidade na vida familiar e no desenvolvimento das futuras gerações e não apenas um dia a ser explorado pelo comércio, estimulando o consumismo e o desperdício, fatores extremamente negativos para a sustentabilidade e uma melhor qualidade de vida.
Voltando ao início desta reflexão, em sua mensagem para o Dia Internacional dos Povos Indígenas em 2025, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, enfatiza que a tecnologia deve apoiar a preservação cultural e o conhecimento indígena. O tema em 2025 foi “Povos Indígenas e Inteligência Artificial: Defendendo Direitos, Moldando Futuros.” E o tema do Dia Internacional dos Povos Indígenas neste ano de 2026 é “Homenagem às parteiras indígenas: salvaguardar a vida e o bem-estar dos povos tradicionais”, valorizando o saber tradicional, a ancestralidade, a saúde comunitária, a dignidade humana e a importância da transmissão de saberes populares. para as futuras gerações.
A população indígena, os povos originários, no mundo em 2026 é de 476 milhões de pessoas e representam cerca de 6% da população mundial e 15% das pessoas em situação de pobreza no mundo, um dos grandes desafios humanos, sociais, econômicos, políticos e ecológicos de nosso tempo em inúmeros países, inclusive no Brasil.
Se estivessem agrupados em um único território os povos indígenas seriam o terceiro país mais populoso do Mundo, atrás apenas da Índia e da China, bem `a frente dos EUA, atualmente o 3º pais mais populoso do planeta.
Em 10 de Agosto é, também, momento de refletirmos e celebrarmos o Dia Internacional do Biodiesel e o impacto deste biocombustível no desenvolvimento de novas tecnologias ambientais e no combate ao uso de combustíveis fósseis, de longe, os maiores emissores de gases de efeito estufa na atmosfera, responsáveis maior pelo aquecimento global e pela crise climática, cujas consequências tem sido sentidas cada vez mais em todos os países, inclusive no Brasil.
Apesar de diversas tentativas para a criação de combustível a partir de plantas desde meados da década de 1930, em diversos países, na verdade a produção industrial em larga escala e o uso deste importante biocombustível ocorreu no Brasil. O Brasil é reconhecido como pioneiro nesta importante área, por ter criado o primeiro processo industrial moderno e a primeira patente mundial para a produção comercial de biodiesel, desenvolvido pelo engenheiro químico cearense Expedito Parente em 1977.
Os cinco maiores produtores de biodiesel do mundo são Indonésia, os Estados Unidos, o Brasil, a União Europeia (tratada como bloco regulatório principal) e a China. Cabe destacar que em 2025 o nosso país produziu 9,8 bilhões de litros, com projeções de um aumento considerável em futuro próximo, podendo passar a ser o segundo maior produtor deste combustível no mundo.
Atualmente, o Brasil já mistura 32% de etanol, produzido a partir da cana de açúcar na gasolina e 15% de biodiesel no óleo diesel, reduzindo os níveis de poluição desses combustíveis fósseis, sendo que nesta área o Brasil continua como pioneiro mundial.
Em 12 de Agosto celebramos também o DIA NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS, que a nível mundial é celebrado em 10 de Dezembro, desde 1948, quando de sua criação pela Assembleia Geral da ONU, esta data foi criada pela Lei Federal nº 12.641, em 15 de maio de 2012, para homenagear a líder sindical e defensora dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, Margarida Maria Alves, assassinada neste mesmo dia no ano de 1983.
Margarida Maria Alves foi a primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, onde liderou diversas batalhas jurídicas e sindicais por direitos trabalhistas, melhores condições de trabalho no campo e reforma agrária. Esta sua luta incomodava os grandes latifundiários do Nordeste em geral e da Paraíba em particular e, por isso, acabou sendo assassinada a tiros na porta de sua humilde casa em 12 de agosto de 1983, a mando de usineiros locais.
A autoria da Lei que criou o Dia Nacional dos Direitos Humanos foi a Deputada Rose de Freitas (Projeto de Lei 281/2004) aprovado em 12 de Agosto e sancionado pela então Presidente Dilma Rousseff em 15 de Maio de 2012, transformando-se na Lei 12.641.
Em 14 de Agosto, é o momento de celebrarmos e refletirmos sobre o DIA INTERAMERICANO DA QUALIDADE DO AR, instituído em 2002 pela Associação Interamericana de Engenharia Sanitária e Ambiental (AIDIS), celebrado anualmente na segunda sexta feira do mês de Agosto em todos os países da América Latina e Caribe.
Cabe destacar também a existência do Dia Internacional do Ar Limpo para um Céu Azul, criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 2019 a ser celebrado anualmente em 07 de Setembro de cada ano.
A questão da qualidade do ar, diante dos níveis crescentes da poluição do mesmo em todos os países, principalmente pela queima de combustíveis fósseis e outros poluentes oriundos dos sistemas produtivos irracionais e degradadores é um dos problemas mais sérios de saúde pública no mundo inteiro, inclusive no Brasil e na América Latina e Caribe.
Anualmente, diante dos níveis crescente de poluição do ar, constata-se cerca de 7 milhões a 7,9 milhões de mortes prematuras por ano no mundo. O relatório oficial “State of Global Air – 2025”, publicado pelo Health Effects Institute, aponta 7,9 milhões de óbitos anuais atribuídos à má qualidade do ar, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) mantém a estimativa clássica de 7 milhões. De qualquer forma, independente desses indicadores algo intolerável em pleno século XXI.
Na América Latina e no Caribe, estimam-se cerca de 367.000 mortes por ano devido a doenças associadas aos problemas de poluição do ar, inclusive as provocadas, cada vez mais frequentes queimadas urbanas e rurais conforme dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras organizações internacionais e nacionais.
Essas são razões, enfim, motivos, mais do que suficientes para retomarmos as reflexões e ações sobre os impactos que a degradação, poluição ambiental, a destruição do meio ambiente provocam na economia e, principalmente na saúde pública, afetando principalmente nas camadas pobres, excluídas e injustiçadas em todos os países, inclusive no Brasil. Daí o alerta do Papa Francisco ao enfatizar que “o grito da terra é também o grito dos pobres e excluídos”.
Outro momento importante e significativo no Calendário do Mês de Agosto e o DIA NACIONAL DA HABITAÇÃO, celebrado, no Brasil em 21 de agosto, foi instituído em 1964 para marcar a criação do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e do Banco Nacional da Habitação (BNH). A data homenageia o marco legal e o início das políticas federais de crédito imobiliário no país.
Apesar deste marco legal, ao longo de mais desses 62 anos, o déficit habitacional, tendo como referência não apenas a população que não tem um teto digno para morar, vai muito além dos 6,6 milhões de famílias e atinge mais de 100 milhões de pessoas que, além de não possuírem um teto digno, também “residem” em áreas de ocupação precária, sem regularização fundiária, sem infraestrutura adequada e segurança física das moradias, sem água, sem esgoto, sem coleta de lixo, sem limpeza pública, sem pavimentação, sem arborização, sem transporte público de qualidade.
Junte-se a isto também a precariedade das relações de trabalho, o desemprego, subemprego, falta de unidades de saúde e de educação pública de qualidade.
Na verdade, o Dia Nacional da Habitação, comemorado em 21 de agosto, não possui um tema oficial único fixado por lei para cada ano. No entanto, em 2026, o debate sobre a questão habitacional está fortemente alinhado ao tema da Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cujo foco central é “Fraternidade e Moradia”, com o lema “Ele veio morar entre nós“ (Jó 1,14)
Desde o seu surgimento como uma luta de resistência popular contra uma tentativa de despejo de milhares de famílias na Favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, luta esta estimulada e apoiada pela Igreja, em 1977, surgindo desta luta a Pastoral da Moradia e Favela, como um marco referencial e histórico da luta por moradia popular digna no Brasil, ao lado de outros movimentos populares.
A Pastoral de Favelas, articulada à luta pela moradia popular digna, tem atuado de forma marcante no Morro do Vidigal desde 1977. A atuação nasceu em resposta direta a uma forte ameaça de remoção forçada (despejo) dos moradores da comunidade durante o período da ditadura militar, que pretendia transferi-los para Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Desde 1977: a Arquidiocese do Rio de Janeiro e a Pastoral da Moradia e Favela (PMF) tem mobilizado apoio jurídico, social, político e comunitário, junto `as pessoas e instituições públicas e privadas para fortalecer a luta popular por moradia digna. Essa união com a Igreja Católica consolidou a força comunitária do local, culminando anos depois na famosa visita do Papa João Paulo II à comunidade em 1980 (que batizou a região como a “Favela do Papa”).
Como desdobramento de duas Campanhas da Fraternidade pela CNBB sobre Moradia Popular Digna, a primeira em em 1993 com o Tema Fraternidade e Moradia e o Lema “Onde Moras” e neste ano de 2026, a Igreja Católica voltou-se, novamente ao mesmo tema “Fraternidade e Moradia (popular digna) e o Lema “Ele (Cristo) veio morar entre nós”, em diversas Arquidioceses, Dioceses e Paróquias tem sido possível organizar a Pastoral da Moradia e Favela, como instrumento de luta por moradia popular digna, em articulação com diversos outros movimentos e organizações que lutam pela Direito `a Cidade, como consta do Estatuto das Cidades e a Constituição Federal e também, Moradia Popular Digna como um dos direitos fundamentais das pessoas, principalmente dos pobres e excluídos, enfim, Moradia popular Digna como a “porta de entrada” para inúmeros, diversos outros direitos humanos em nosso país.
Este continua sendo um grande desafio, principalmente para a Igreja que há séculos e décadas tem feito a OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES, a Defesa da Casa Comum (Ecologia Integral), principalmente pelo fato de que ainda a grande, imensa maioria dos territórios eclesiais, em todas as regiões, principalmente nas regiões metropolitanas, como diversas nas regiões Centro Oeste, Norte e Nordeste, onde a presença da população pobre e sem moradia popular digna é enorme, onde milhões de famílias não contam com esta importante pastoral para ajudar a articular e apoiar esta luta.
Acreditamos que, diante da aprovação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para o período de 2026 a 2032, pela CNBB, as Pastorais da Moradia e Favela e da Ecologia Integral poderão ou deverão ser implantadas e fortalecidas em nosso país, contribuindo significativamente para mudanças sociotransformadoras.
Também neste mês de Agosto, no dia 25, celebramos o DIA DO SOLDADO, os guardiães da segurança e defesa de nossa soberania territorial e nacional, juntamente com as demais forças vivas da Nação.
Da mesma forma em Agosto “celebramos/relembramos” um dos eventos mais traumáticos ocorridos em nossa história política “recente”, cujas marcas ainda persistem na “eterna” crise política, institucional de nosso País. Refiro-me `a renúncia intempestiva do então Presidente Jânio Quadros, com apenas menos de seis meses após ter tomado posse.
A renúncia de Jânio Quadros no dia 25 de Agosto de 1961, abriu uma crise política, institucional e militar que, por pouco, não lançou o Brasil em uma guerra civil, tendo como motivação o golpismo de alguns setores das Forças Armadas, aliados com setores econômicos e políticos conservadores, retrógrados e poderosos que tentaram impedir a posse do vice Presidente, João Goulart, LIGITIMAMENTE ELEITO e que estava na China atendendo compromissos oficiais representando o nosso país.
Esta crise foi debelada, graças a muito diálogo e a ação firme do então Governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola e de alguns setores legalistas e firmes das Forças Armadas, incluindo a castração dos poderes do vice presidente, que tomou posse firmando um compromisso de aceitar a imposição do parlamentarismo como forma de limitar-lhe o poder presidencial.
Como vemos, em todos os meses existem momentos significativos, principalmente ecológicos, sociais, políticos para refletirmos, coletivamente, e reforçarmos nossas ações sociotransformadora, rumo `a construção de um país decente, transparente, democrático, justo, inclusivo, moderno, sem violência, sem desigualdades, cujos frutos do desenvolvimento sejam repartidos para toas as pessoas e camadas/classes sociais e não sejam acumulados, como atualmente acontece, em poucas mãos, nas elites dominantes e oportunistas, entreguistas, verdadeiras sanguessugas das riquezas nacionais.
Tendo em vista a proximidade das eleições gerais de 2026, este é o momento, o tempo de a população, principalmente os pobres e excluídos dizerem de forma clara que desejamos e precisamos de mudanças estruturais mais profundas, sem o que estaremos perdendo o “bonde da história”.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
E-mail [email protected]
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Artigos
A mosca na sopa
Autora: Kamila Garcia* –
Outro dia assisti a um documentário sobre Raul Seixas. Perguntado sobre seu retorno ao mercado fonográfico, sua resposta veio rápida e carregada de significado: “Continuo sendo a mosca na sopa“. A frase atravessou décadas e parece escrita para os dias atuais. Vivemos em uma época em que a diferença incomoda. Em um mundo que exalta a individualidade nos discursos, mas recompensa a conformidade na prática, ser a “mosca na sopa” tornou-se quase um ato de resistência.
As redes sociais transformaram a aprovação em necessidade cotidiana. Curtidas e comentários funcionam como um termômetro emocional. Muitos já não se perguntam se uma ideia faz sentido, mas se será aceita. O medo da rejeição produz uma silenciosa padronização dos pensamentos. Aos poucos, deixamos de expressar o que realmente acreditamos para repetir aquilo que garante pertencimento.
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud demonstra como o pertencimento pode levar as pessoas a abrir mão de parte de sua individualidade para se identificarem com um ideal comum. O coletivo oferece proteção, mas pode enfraquecer a autonomia. Quando isso acontece, opiniões deixam de ser construídas para serem apenas reproduzidas. A reflexão cede espaço à repetição.
É nesse ponto que Raul Seixas permanece atual. Sua obra era filosofia popular, crítica social e provocação existencial. Suas canções não ofereciam respostas prontas; lançavam perguntas. E perguntas são desconfortáveis porque exigem consciência. Em “O Trem das Sete“, Raul lembra que viver conscientemente é assumir a responsabilidade pela própria jornada, em vez de apenas seguir os trilhos definidos pelos outros. Já em “Abre-te Sésamo”, questiona as desigualdades e a obsessão pelo poder, sugerindo que continuamos fascinados pelos tesouros, sem refletir sobre como foram acumulados.
A metáfora mais brilhante está em “Sapato 36”, que fala sobre a dor de tentar caber em algo que não foi feito para nós. Quem calça 37 e insiste no 36 sofre. O mesmo acontece com quem tenta corresponder às expectativas alheias. Quantas pessoas passam anos sustentando versões artificiais de si mesmas apenas para serem aceitas? Quantas escolhas são feitas para agradar aos outros, enquanto os desejos mais autênticos permanecem silenciados?
A busca pela aceitação torna-se um problema quando a necessidade de pertencer supera a necessidade de ser. A identidade se enfraquece; vive-se para corresponder, não para existir.
Liberdade exige coragem. Coragem para discordar, rever opiniões e sustentar uma identidade própria em meio à pressão da padronização. Quando Raul cantava, em “Tente Outra Vez”, sobre a coragem de sustentar o que se pensa e faz, falava de coerência. Pensar, sentir e agir em sintonia é uma das formas mais profundas de liberdade.
Ser mosca na sopa não é provocar por vaidade, mas preservar a capacidade de pensar por conta própria, sem terceirizar a consciência. A verdadeira revolução está em impedir que o mundo nos transforme em cópias.
O zumbido da mosca desafia, incomoda e expõe aquilo que muitos prefeririam ignorar. Talvez seja justamente essa a sua função. Em tempos de consensos apressados e silêncios convenientes, a maior ousadia continua sendo pensar por si mesmo. E, como Raul nos ensinou, permanecer sendo a mosca na sopa.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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