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A Constituição e o direito de falar em Deus nos espaços públicos

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Autor: Ives Gandra da Silva Martins*

Recentemente, uma promotora de Justiça do Ministério Público do Rio de Janeiro, durante um evento de ex-conselheiros tutelares em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, revoltou-se contra a atitude de um dos participantes que, logo após a apresentação teatral de um grupo de crianças, foi ao microfone e leu um poema mencionando “Deus”. A representante do MP, de modo bastante incisivo, entre outras considerações, declarou que isso não poderia acontecer, alegando que o Estado é laico.

Ora, como toda a Constituição foi promulgada sob a proteção de Deus, a promotora só está no Ministério Público graças a uma Constituição Federal que expressa em seu preâmbulo: “sob a proteção de Deus, promulgamos esta Constituição”.

Sendo assim, ela não estaria no Ministério Público se os artigos 127 a 130 não tivessem sido promulgados sob a proteção de Deus. E se a Carta Magna foi promulgada sob a proteção de Deus, foi porque a maioria esmagadora dos constituintes assim o desejou por meio de votação para a aprovação do preâmbulo.

É evidente, portanto, que se pode falar de Deus onde quer que seja, como e da maneira que se quiser. Inclusive defendo que existe um direito positivo religioso na nossa Constituição.

Neste sentido, a Constituição trata da imunidade dos templos; do ensino religioso nas escolas (no artigo 210, § 1º); oferece a opção de prestação alternativa para quem não aceita a guerra por razões religiosas; garante escolas confessionais; possibilita que recursos públicos lhes sejam destinados (artigo 213) e, ao garantir o direito à objeção de consciência, torna evidente a presença de diversos dispositivos sobre o tema.

Por outro lado, em nenhum momento foi inserida na Constituição Federal a palavra “laico”. O que existe, no artigo 19, é a separação entre entidades públicas e entidades religiosas — o que é natural, visto que as entidades religiosas são regidas pelo direito próprio de sua religião, enquanto as entidades públicas, pelo ordenamento jurídico do País.

Sendo assim, dizer que não se pode falar de Deus porque o Estado é laico, ateu ou agnóstico é distorcer o texto constitucional. À evidência, esta exegese fere o que está na Constituição.

Portanto, com todo o respeito que sempre tenho pelo Ministério Público, por seus integrantes e por ela mesma, não posso aceitar a afirmação de que não se pode falar de Deus em um evento daquela natureza. Para sustentar tal posição, seria preciso revogar a Constituição, onde consta: “Nós, constituintes, promulgamos a Constituição sob a proteção de Deus”.

Ao agir assim, a promotora acaba por propor o seguinte: “Nós promulgamos esta Constituição sem a proteção de Deus”, o que não é o que está escrito.

O que me impressiona é o seguinte: todo mundo faz o que quer neste País: rouba e se justifica; comete corrupção e se justifica; tem-se o direito de mentir e a liberdade de atacar as religiões. Em peças teatrais, por exemplo, o intento de desmoralizar quem acredita em Deus não é incomum. Porém, se alguém fala em Deus, isso passa a ser inaceitável.

Vale dizer: a liberdade de expressão é ampla para atacar a religião, pois todo mundo fala o que quer e, principalmente, ataca aqueles que acreditam em Deus. A mesma liberdade de expressão, entretanto, não é válida para falar de religião, porque falar em Deus ofende.

Em suma, pretender silenciar a menção a Deus em espaços públicos sob o pretexto da laicidade não é apenas uma contradição lógica, mas um manifesto excesso hermenêutico que desrespeita a própria história e a matriz conceitual do nosso texto constitucional.

Creio que falar em Deus incomoda, talvez, porque muitos dos que o atacam não conseguem viver seus princípios fundamentais, tais como o amor ao próximo, o bem-viver e o serviço ao outro. Em verdade, é importante perceber que estamos apenas de passagem por aqui e que temos um outro destino na vida eterna. Somos, pois, insignificantes passageiros da Nave Terra em busca de um destino maior.

*Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de S. Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio-SP, ex-presidente da Academia Paulis ta de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

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Artigos

A mosca na sopa

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Autora: Kamila Garcia*

Outro dia assisti a um documentário sobre Raul Seixas. Perguntado sobre seu retorno ao mercado fonográfico, sua resposta veio rápida e carregada de significado: “Continuo sendo a mosca na sopa“. A frase atravessou décadas e parece escrita para os dias atuais. Vivemos em uma época em que a diferença incomoda. Em um mundo que exalta a individualidade nos discursos, mas recompensa a conformidade na prática, ser a “mosca na sopa” tornou-se quase um ato de resistência.

As redes sociais transformaram a aprovação em necessidade cotidiana. Curtidas e comentários funcionam como um termômetro emocional. Muitos já não se perguntam se uma ideia faz sentido, mas se será aceita. O medo da rejeição produz uma silenciosa padronização dos pensamentos. Aos poucos, deixamos de expressar o que realmente acreditamos para repetir aquilo que garante pertencimento.

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud demonstra como o pertencimento pode levar as pessoas a abrir mão de parte de sua individualidade para se identificarem com um ideal comum. O coletivo oferece proteção, mas pode enfraquecer a autonomia. Quando isso acontece, opiniões deixam de ser construídas para serem apenas reproduzidas. A reflexão cede espaço à repetição.

É nesse ponto que Raul Seixas permanece atual. Sua obra era filosofia popular, crítica social e provocação existencial. Suas canções não ofereciam respostas prontas; lançavam perguntas. E perguntas são desconfortáveis porque exigem consciência. Em “O Trem das Sete“, Raul lembra que viver conscientemente é assumir a responsabilidade pela própria jornada, em vez de apenas seguir os trilhos definidos pelos outros. Já em “Abre-te Sésamo”, questiona as desigualdades e a obsessão pelo poder, sugerindo que continuamos fascinados pelos tesouros, sem refletir sobre como foram acumulados.

A metáfora mais brilhante está em “Sapato 36”, que fala sobre a dor de tentar caber em algo que não foi feito para nós. Quem calça 37 e insiste no 36 sofre. O mesmo acontece com quem tenta corresponder às expectativas alheias. Quantas pessoas passam anos sustentando versões artificiais de si mesmas apenas para serem aceitas? Quantas escolhas são feitas para agradar aos outros, enquanto os desejos mais autênticos permanecem silenciados?

A busca pela aceitação torna-se um problema quando a necessidade de pertencer supera a necessidade de ser. A identidade se enfraquece; vive-se para corresponder, não para existir.

Liberdade exige coragem. Coragem para discordar, rever opiniões e sustentar uma identidade própria em meio à pressão da padronização. Quando Raul cantava, em “Tente Outra Vez”, sobre a coragem de sustentar o que se pensa e faz, falava de coerência. Pensar, sentir e agir em sintonia é uma das formas mais profundas de liberdade.

Ser mosca na sopa não é provocar por vaidade, mas preservar a capacidade de pensar por conta própria, sem terceirizar a consciência. A verdadeira revolução está em impedir que o mundo nos transforme em cópias.

O zumbido da mosca desafia, incomoda e expõe aquilo que muitos prefeririam ignorar. Talvez seja justamente essa a sua função. Em tempos de consensos apressados e silêncios convenientes, a maior ousadia continua sendo pensar por si mesmo. E, como Raul nos ensinou, permanecer sendo a mosca na sopa.

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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