ASFALTO "CASCA DE OVO"
Após denúncia do TCE, Taques amplia representação sobre obra da MT-170
Nova petição apresentada ao Ministério Público inclui contratos da rodovia em investigação já aberta sobre relações empresariais, pagamentos públicos e possíveis conflitos de interesse envolvendo o Parque Novo Mato Grosso.
A obra da MT-170, rodovia estadualizada pelo Governo de Mato Grosso que liga municípios da região noroeste do Estado, como Castanheira, Juruena, Aripuanã, Cotriguaçu, Colniza e Juína, passou a integrar a representação criminal e de improbidade administrativa apresentada pelo advogado e ex-governador Pedro Taques ao Ministério Público Estadual após inspeção do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) identificar graves problemas estruturais no pavimento entregue em 2024.
A petição envolve contrato que recebeu R$ 127,3 milhões em pagamentos públicos entre 2023 e 2025 e sustenta que os mesmos grupos econômicos, relações empresariais e conexões políticas já apontados na investigação sobre o Parque Novo Mato Grosso também aparecem na execução da rodovia estadual.
O novo documento foi protocolado nesta terça-feira (27) junto à Procuradoria-Geral de Justiça como aditamento à representação original apresentada em maio deste ano sobre contratos de R$ 208 milhões relacionados às obras do Autódromo Internacional do Parque Novo Mato Grosso. Na peça anterior, os advogados apontaram possíveis conflitos de interesse, direcionamento licitatório, aditivos sucessivos e vínculos societários envolvendo agentes públicos, dirigentes empresariais e pessoas do entorno político e econômico do ex-governador Mauro Mendes.

O aditamento apresentado agora pede ampliação das diligências investigatórias já em curso para incluir contratos, pagamentos, vínculos societários e possíveis conflitos de interesse relacionados à obra da MT-170. Segundo a representação, os mesmos protagonistas e o mesmo padrão de relações descritos na investigação sobre o Parque Novo Mato Grosso aparecem também no Instrumento Contratual nº 370/2014/SINFRA, referente à implantação e pavimentação de 50,7 quilômetros da rodovia.
A nova petição foi apresentada após vistoria realizada pelo presidente do TCE-MT, conselheiro Sérgio Ricardo, que classificou a situação da estrada como um caso de colapso estrutural. Durante inspeção na região, o conselheiro afirmou que a rodovia “esfarelou” menos de um ano após a entrega e que o pavimento precisaria ser completamente refeito.
Segundo o documento, a construtora responsável assumiu o controle do consórcio executor da obra em fevereiro de 2023, por meio de termo aditivo firmado pela Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra), e a partir de então o contrato foi retomado após anos de paralisação. A representação sustenta que o consórcio recebeu R$ 127,3 milhões em pagamentos públicos entre 2023 e 2025.
Entre os principais pontos apontados na petição está a venda da empresa MID Mineração Ltda., em julho de 2024, por José Aparecido dos Santos, o Cidinho Santos, para a construtora investigada, em operação estimada em R$ 5,75 milhões. Segundo os advogados, o negócio ocorreu enquanto a empresa executava contratos públicos e recebia os maiores pagamentos relacionados à obra da rodovia.
O material apresentado ao MPE integra trabalho de advocacia investigativa desenvolvido pelo escritório AFG & Taques, modalidade reconhecida pelo Estatuto da Advocacia e da OAB (Lei nº 8.906/94), especialmente nos artigos 6º e 7º, além do Provimento nº 188/2018 da OAB. O levantamento reúne análise de contratos públicos, documentos societários, registros oficiais, dados de transparência e informações técnicas relacionadas às obras investigadas.
Para o ex-governador e advogado, o novo aditamento amplia uma investigação já existente e busca aprofundar a análise sobre contratos públicos, pagamentos e relações empresariais vinculadas às obras estaduais.
“Estamos falando de uma obra que consumiu mais de R$ 127 milhões de dinheiro público e entrou em colapso em menos de um ano. O que o aditamento demonstra é que os mesmos vínculos empresariais e políticos já apontados na investigação do Parque Novo Mato Grosso também aparecem nessa obra“.
A rede de relações por trás das obras
A representação também afirma que o então secretário de Infraestrutura, Marcelo de Oliveira e Silva, responsável pela assinatura do aditivo que alterou a composição do consórcio da obra, integrava o Conselho de Administração da concessionária Rota do Oeste ao lado de Cidinho Santos. Conforme o documento, não foram localizados registros formais de declaração de conflito de interesse relacionados ao caso.
Outro eixo do documento trata das condições estruturais da rodovia. O aditamento reúne registros fotográficos, relatos de moradores, manifestações de vereadores da região e documentos da própria Sinfra apontando deterioração severa da pavimentação em menos de um ano após a entrega dos primeiros 81 quilômetros da estrada.
A petição cita ainda declarações públicas da ex-secretária adjunta de Obras Rodoviárias da Sinfra, Nívia Calzolari, que afirmou ter identificado patologias no pavimento ainda durante a execução da obra. O documento detalha que os pagamentos e medições teriam continuado mesmo diante dos questionamentos técnicos apresentados à época.
Em abril deste ano, a própria Sinfra determinou a paralisação das obras ao reconhecer “graves não conformidades”, “patologias severas no pavimento” e indícios de comprometimento estrutural na MT-170.
O que pede a representação
Entre os pedidos apresentados ao Ministério Público estão:
· ampliação das investigações sobre o contrato da MT-170;
· análise das medições e pagamentos realizados entre 2023 e 2026;
· investigação sobre a venda da MID Mineração;
· requisição de movimentações bancárias e societárias;
· depoimento da ex-secretária Nívia Calzolari;
· auditoria técnica independente sobre a obra;
· perícia nos materiais utilizados na pavimentação;
· e eventual adoção de medidas cautelares para proteção do erário público.
Destaques
Operação revela sistema de “Fintechs” usado pelo PCC para dominar o mercado de combustíveis
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em parceria analítica e operacional com a Receita Federal, deflagrou uma robusta ação de campo na manhã desta quinta-feira (28). A mobilização institucional visa desarticular as ramificações financeiras e logísticas de uma das maiores facções criminosas do país. Sob a coordenação do Ministério Público, as equipes cumprem dezenas de mandados judiciais para interromper um ciclo contínuo de fraudes estruturadas.
As vistorias e os recolhimentos de provas ocorrem simultaneamente em cinco estados da Federação: São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A amplitude geográfica do cumprimento das ordens judiciais reflete a vasta capilaridade do grupo investigado, que expandiu as suas bases operacionais para além das fronteiras paulistas. Essa dispersão territorial exigiu uma cooperação interestadual inédita entre as forças de segurança.
A ofensiva busca golpear e desmantelar a infiltração direta da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no estratégico setor de distribuição e comércio de combustíveis. De acordo com as investigações, a atividade mercantil formal vinha sendo utilizada como uma espécie de fachada legalista. O propósito central das autoridades é interromper o fluxo logístico e econômico que alimenta as atividades ilícitas da referida facção.

O gatilho para a eclosão da operação foi a descoberta de um sofisticado ecossistema corporativo composto por seis fintechs que funcionavam como verdadeiros bancos paralelos. O Ministério Público de São Paulo identificou que essas plataformas digitais realizavam compensações financeiras internas trianguladas. O esquema interligava distribuidoras, postos de serviços e fundos de investimentos fictícios administrados ocultamente pelos integrantes do grupo.
A engenharia financeira foi meticulosamente desenhada para ocultar a origem de capitais, viabilizar a sonegação fiscal em larga escala e praticar a lavagem de dinheiro em níveis industriais. Paralelamente ao estrago financeiro, os suspeitos realizavam a adulteração sistemática de combustíveis por meio do desvio de nafta petroquímica. Esse solvente era direcionado a terminais e postos, lesando o consumidor e gerando lucros astronômicos e desleais.
Denominada Fluxo Oculto, a ação constitui o desdobramento direto e a nova fase da Operação Carbono Oculto, que já havia apontado o avanço do crime organizado sobre o mercado de ativos energéticos. Os relatórios de inteligência financeira anteriores demonstraram que a transição para o ambiente digital das instituições de pagamento era o passo seguinte da organização. A atual fase consolida as provas coletadas nos últimos meses de monitoramento.
Para viabilizar o cumprimento simultâneo das determinações, magistrados expediram 55 mandados de busca e apreensão direcionados às sedes das empresas e aos endereços dos investigados. As ordens visam recolher dispositivos eletrônicos, documentos contábeis, mídias digitais e quantias em espécie que possam robustecer o arcabouço probatório do inquérito.

Os alvos foram mapeados detalhadamente após meses de quebras de sigilo bancário e fiscal.
A complexa operação logística e tática foi executada por meio do apoio crucial e integrado dos Gaecos locais de cada unidade federativa envolvida na resolução do caso. Os Ministérios Públicos do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Paraná atuaram em perfeita sintonia com a base paulista, mobilizando promotores e policiais. A Receita Federal forneceu auditores fiscais especializados no rastreamento de fraudes estruturadas e aduaneiras.
A urgência da intervenção estatal justificou-se pela necessidade premente de estancar o grave prejuízo bilionário imposto aos cofres públicos pela evasão fiscal sistemática. Além do dano erário, a adulteração de combustíveis com o uso irregular de solventes trazia riscos severos ao patrimônio dos motoristas e à ordem econômica. A manutenção do esquema permitia que a facção asfixiasse concorrentes honestos por meio de preços artificialmente baixos.
As autoridades conseguiram estruturar o caso após a análise técnica e minuciosa de dados telemáticos e transações bancárias atípicas reportadas pelos órgãos de controle financeiro. A constatação de que empresas fantasmas recebiam aportes milionários sem justificativa operacional consolidou a suspeita de lavagem de ativos. O cruzamento dessas informações com o monitoramento físico de refinarias permitiu o mapeamento completo do caminho da nafta.
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