Artigo
Crescer para cuidar: o desafio de sustentar a saúde pública com qualidade
Autor: Dr. Marcelo Sandrin* –
Por trás de cada atendimento, existe uma estrutura complexa que vai muito além do que os olhos conseguem ver. No Hospital Beneficente Santa Helena, essa realidade se traduz diariamente em números, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com a vida. Estamos há 60 anos nesta jornada.
Instituição filantrópica e referência em gestação de alto risco para todo o Estado de Mato Grosso, o hospital mantém as portas abertas 24 horas por dia para atendimentos em obstetrícia, acolhendo pacientes de todas as regiões. Com 140 leitos destinados ao SUS, a unidade atua em diversas especialidades, como obstetrícia, cirurgia geral digestiva, vascular, urologia, ortopedia e alta complexidade em cardiologia.
A estrutura inclui ainda 10 leitos de UTI adulto, 18 leitos de UTI neonatal, 4 leitos de cuidados intermediários neonatais e 3 leitos de Unidade Canguru, sendo esses uma referência estadual no cuidado humanizado ao recém-nascido.
Os números evidenciam a dimensão dessa atuação. Somente em 2025, foram registradas mais de 11 mil internações, sendo cerca de 8 mil na área de obstetrícia. Do total de atendimentos, 60% são de pacientes de Cuiabá e 40% de outros municípios, o que reforça o papel regional e estratégico do hospital dentro da rede pública de saúde.
Para sustentar essa operação, o Santa Helena conta com aproximadamente 480 profissionais diretos, entre enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, assistentes sociais, equipes administrativas e diversas outras áreas essenciais. São profissionais que garantem não apenas o funcionamento da instituição, mas o cumprimento rigoroso das exigências legais, assistenciais e contratuais.
Além disso, o hospital investe continuamente em qualificação da assistência, educação permanente, protocolos de segurança do paciente, controle de infecção hospitalar e treinamentos técnicos. Um esforço constante para assegurar qualidade, segurança e dignidade no atendimento aos usuários do SUS.
No entanto, por trás desse crescimento e da ampliação da capacidade assistencial, existe um desafio cada vez mais evidente: o equilíbrio financeiro. Atualmente, cerca de 90% da receita do hospital está vinculada ao contrato com a Secretaria Municipal de Saúde, responsável pela gestão da unidade.
Esse recurso precisa cobrir uma estrutura complexa, que envolve folha de pagamento, honorários médicos, insumos, exames e a disponibilidade de especialistas que, muitas vezes, não são contemplados diretamente pela rede SUS, mas são indispensáveis para o atendimento integral, como hematologistas, neurocirurgiões, urologistas, cirurgiões vasculares, ortopedistas e especialistas pediátricos. Pode-se dizer que crescer e oferecer um atendimento de qualidade demandam recursos.
Os números evidenciam o tamanho do descompasso. Desde 2016, quando os valores de procedimentos como o parto normal (R$ 267,60) e a cesariana (R$ 395,68) foram fixados, os custos da saúde cresceram de forma acelerada. Apenas nos últimos anos, o VCMH (Variação de Custos Médico-Hospitalares) acumulou altas expressivas, que representam um aumento acumulado superior a 250% desde 2016. Já o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a variação de custos da economia em geral, acumula algo em torno de 80% a 100% neste período.
Na prática, isso significa que os custos hospitalares mais do que dobraram ao longo dos últimos anos, enquanto os valores pagos pelos procedimentos seguem exatamente os mesmos. É como se hoje fosse exigido do hospital entregar mais, com uma estrutura muito mais cara, recebendo praticamente metade do valor real necessário para sustentar esse atendimento. O resultado é um cenário de desequilíbrio entre despesas e receitas, que pressiona diretamente a sustentabilidade financeira da instituição.
O Hospital Beneficente Santa Helena tem crescido e ampliado sua capacidade, qualificado sua assistência e fortalecido seu papel dentro da rede pública de saúde. Mas esse crescimento traz consigo um desafio urgente, que é garantir que a evolução da estrutura seja acompanhada por um modelo de financiamento compatível com a realidade.
Discutir essa conta que não fecha não é apenas uma pauta administrativa, mas uma necessidade estrutural para assegurar que continuemos cumprindo nosso papel social com qualidade, segurança e responsabilidade. Sustentar a saúde pública exige mais do que vocação, exige condições reais para continuar cuidando de quem mais precisa.
O avanço da instituição e o compromisso com a qualidade assistencial seguem firmes, no entanto, a continuidade desse trabalho depende de condições que acompanhem essa evolução. Hoje, já se observa um risco concreto de limitação na capacidade de atendimento ao longo do tempo, um cenário que impacta diretamente a população que depende do SUS.
*Dr. Marcelo Sandrin, Diretor do Hospital Santa Helena
Artigos
Menopausa também é saúde mental — e falar de desejo, humor e autoestima é essencial
Autora: Ana Paula Couto* –
Romper o silêncio sobre a menopausa é essencial para o bem-estar físico e emocional das mulheres.
Você acorda e não se reconhece mais no espelho. Você começa a não compreender quem é aquela pessoa que agora habita o seu corpo. Há alguém vivendo em você, da pele para dentro, com uma mente povoada de estranhos pensamentos e você não faz sequer ideia de quem seja. Boa notícia, ou não: talvez essa seja você adentrando à menopausa, ou melhor, sendo jogada nela.
Foi assim que me senti quando, aos 49 anos, me vi tendo crises de ansiedades, com tremor e formigamento nas mãos, sem saber do que se tratava. Pelo que deduzi mais tarde, a perimenopausa já estava me acompanhando havia um tempo, mas, como ninguém tocava no assunto e a vida não me deixava parar com as suas infindáveis demandas, eu seguia sem notar que algo de muito importante estava acontecendo dentro de mim. Como pode algo de tamanha importância não ser notado? Como não parei antes e olhei com cuidado para mim mesma? Talvez porque simplesmente ensinem às mulheres a serem imparáveis, implacáveis, imbatíveis e, sendo assim, terem dores invisíveis. É tanto prefixo de negação que acabamos por não nos notar!
Quando tive que parar de fato, melhor dizendo, quando fui parada pelas crises de pânico, que eu sequer acreditava ser ansiedade — pois achava tratar-se de algum problema neurológico —, foi que a ficha começou a cair. Não percebi de imediato que a estranheza que me rondava, a insegurança que passou a morar em mim e a sensação de não pertencimento a mim mesma faziam parte de um combo trazido pela menopausa.
O peso do silêncio e o tabu do envelhecimento feminino
As conversas com as mulheres que viviam o mesmo período que eu também não ajudaram, por incrível que pareça. Estavam na mesma luta interna, muitas não se sentiam confortáveis em tocar nesse assunto e tampouco nos seus “trocentos” sintomas. Algumas sequer assumiam estar nesse momento da vida, pois ele é a prova cabal do envelhecimento feminino, da perda do viço da pele, do tesão, do desejo e da autoestima. Eu me sentia a chata sofredora quando tocava no tema. Aquele assunto! E vem ela com aquele papo de novo? Me sentia na narrativa de Harry Potter bem às avessas, muito às avessas, aquele assunto que não deve ser nomeado e eu, quase um Voldemort por trazê-lo à tona. Por muitas vezes me calei, me ressenti (porque a gente passa a sofrer por tudo) e fingi estar bem, afinal, ninguém quer ser considerada chata.
Cuidar de si é um ato de resistência
A saga de encontrar a solução começou com um cardiologista após um desmaio. Exausta, com uma insônia atroz, que me levou a um burnout, uma bela noite levantei durante a noite e caí dura no chão. Buscar alguns médicos (homens) como um psiquiatra e meu antigo ginecologista, naquele momento, não me ajudou. Ouvi deles que menopausa era uma fase natural da mulher e que tudo melhoraria com o tempo. Não quero dizer que todos os profissionais da saúde do sexo masculino são assim, mas não tive a sorte de ouvir algo que me acolhesse, muito pelo contrário. Eu precisava me sentir melhor. Queria uma solução imediata e não esperar anos para essa tal fase ir embora. E ela não vai. É para todo o sempre.
Entre tantas decisões, sem saber para onde correr, a mais acertada foi buscar novas perspectivas. Assumi que precisava ser cuidada, que estava ruindo e que necessitava de ajuda. Decidi me cercar de profissionais do sexo feminino. Busquei por psicóloga, psiquiatra, cardiologista e ginecologista. Foi o meu caminho, a forma que me senti escutada.
Aos poucos comecei a me informar, a me entender e a me acolher. Aceitei algumas propostas como a reposição hormonal, algo que realmente mudou a minha vida. Fui me reorganizando, me sentindo melhor, parecia estar voltando a ser quem eu era. Já conseguia sorrir. Deixei alguns medicamentos, passei a tomar alguns suplementos, mantive a terapia, a yoga e a musculação. Enfim, percebi, de uma forma mais forte, que somente eu sou responsável pela minha felicidade e pelo meu bem-estar. Sendo assim, o cuidado comigo mesma é algo de minha inteira responsabilidade.
Foi fácil? Não. Precisa ser assim? Não. Fique esperta! Olhe-se, atende-se às mudanças do seu corpo porque ele fala, só que muitas vezes não o escutamos. Passe a ver a sua rotina de cuidados, que agora é necessária, como algo bom e não como um fardo.
Priorize-se! Porque, afinal, uma mulher que passa pela menopausa com desejo não quer guerra e nem precisa provar nada para ninguém. Ela tem uma estrada percorrida e sabe que, com saúde, humor e a autoestima elevada ela, agora sim, cheia de si, é imparável, implacável e imbatível.
*Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Em 2025, lançou “Amor de Alecrim”, continuação da obra, com a personagem aos 50 anos.
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