Artigo
63 anos não se constroem por acaso: a liderança por trás da longevidade empresarial
Autora: Ulana Bruehmueller* –
O brasileiro tem uma reconhecida vontade de empreender. Muitas empresas nascem pequenas, de um sonho, de uma oportunidade ou da necessidade de construir um futuro melhor. Começam com poucos recursos, muito trabalho e a esperança de crescer ano após ano.
Mas começar uma empresa é apenas o primeiro desafio. Fazê-la permanecer, atravessar gerações e continuar relevante é uma conquista muito maior.
No Brasil, poucas empresas alcançam mais de seis décadas de atividade. Ao longo do caminho, enfrentam obstáculos que vão do acesso ao crédito aos elevados custos de insumos, energia e produção, além da carga tributária, da insegurança jurídica e de uma logística ainda cara e ineficiente.
É nesse contexto que celebramos os 63 anos da Refrigerantes Marajá.
Mais do que uma data no calendário, este aniversário nos convida a uma reflexão: o que faz uma organização atravessar tantas transformações e permanecer relevante ao longo das gerações?
A qualidade dos produtos e a confiança dos consumidores são fundamentais. Mas longevidade também se constrói com liderança forte, propósito definido, valores consistentes e pessoas alinhadas em torno de uma mesma direção.
Ao longo de mais de seis décadas, a Marajá precisou se transformar inúmeras vezes. Cresceu, ampliou mercados, modernizou sua estrutura industrial, incorporou tecnologias, profissionalizou processos, fortaleceu sua governança e desenvolveu novas marcas e produtos.
Ao mesmo tempo, avançou em uma agenda de ESG cada vez mais consistente, compreendendo que responsabilidade ambiental e social, ética e boa governança não devem existir apenas no discurso. Precisam estar incorporadas à maneira como uma organização toma decisões e pensa no seu futuro.
Essa capacidade de evoluir sem perder a essência talvez seja uma das principais explicações para a longevidade de uma empresa.
E nenhuma transformação acontece sem pessoas.
Ao longo da minha carreira, aprendi que podemos definir estratégias, estabelecer metas, investir em tecnologia e modernizar processos, mas são as pessoas que transformam o planejamento em resultado. Por isso, o alinhamento da liderança e o comprometimento do time são fatores concretos de competitividade.
Estratégias mudam. Mercados mudam. Tecnologias evoluem. Gerações chegam com novas expectativas. Os valores, entretanto, permanecem como uma bússola, permitindo que a empresa se transforme sem perder sua identidade.
Tenho muito orgulho de ter dedicado mais de 30 anos da minha vida profissional à Marajá e de ter crescido junto com esta empresa. Foram décadas de desafios, crises, decisões, expansão, transformação e, acima de tudo, aprendizado.
Por isso, celebrar estes 63 anos é também agradecer.
Aos fundadores que tiveram a disposição de empreender. Aos acionistas, diretores e líderes que assumiram a responsabilidade de conduzir a empresa ao longo do tempo. Aos profissionais que passaram por aqui e deixaram sua contribuição. E aos que hoje continuam escrevendo esta história e preparando a Marajá para o futuro.
Depois de tantos anos na indústria, compreendo que uma das maiores responsabilidades de uma liderança não é apenas entregar os resultados do presente. É criar condições para que a organização continue crescendo e gerando valor para as próximas gerações.
Longevidade empresarial não é simplesmente resistir ao tempo. É atravessar gerações evoluindo sempre. Continuar olhando para frente e assumindo responsabilidade pelo futuro!
*Ulana Maria Bruehmueller é CEO da Refrigerantes Marajá
Artigos
Ferir quem cuida é ferir a saúde de todos
Autora: Bruna Santiago* –
Existe uma violência que, por muito tempo, foi tratada quase como parte da rotina de quem trabalha na saúde. É o xingamento durante o plantão, a ameaça porque o atendimento demorou, a intimidação, a invasão de uma sala e, nos casos mais graves, a agressão física.
Quem trabalha em hospital, UPA, policlínica ou unidade básica sabe exatamente do que estou falando.
Sou enfermeira. Vivi a realidade dos plantões e, ao longo dos últimos anos, conheci unidades de saúde em diferentes regiões de Mato Grosso, conversei com profissionais e ouvi relatos de situações que nunca deveriam ser consideradas normais.
A frustração de quem espera atendimento precisa ser ouvida. A população tem todo o direito de cobrar quando faltam profissionais, medicamentos, exames e leitos ou quando o serviço demora além do razoável. O que não podemos admitir é que problemas do sistema sejam descarregados sobre o trabalhador que está na linha de frente tentando manter o atendimento funcionando.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), mostrou que, em Mato Grosso, 23,1% dos profissionais pesquisados afirmaram sofrer violência no ambiente de trabalho e outros 11,1% disseram que isso ocorria “às vezes”. Entre as modalidades relatadas, a violência psicológica predominava.
Embora o levantamento retrate uma realidade pesquisada anos atrás, episódios recentes mostram que o problema permanece. Somente em 2026, o Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT) voltou a cobrar providências depois de agressões envolvendo profissionais em unidades de Várzea Grande e Cuiabá.
Até quando vamos esperar o próximo caso?
Uma agressão não termina quando acaba o plantão. Algumas marcas são visíveis, outras acompanham o profissional por muito mais tempo: medo de voltar ao trabalho, ansiedade, insegurança, perda da satisfação profissional e sensação de abandono.
Estudos também vêm demonstrando que a violência ocupacional está associada a consequências para a saúde mental e para a própria atividade profissional. Pesquisa publicada em 2026, envolvendo profissionais de Enfermagem, identificou relatos de violência no trabalho em quase metade dos participantes, com predominância das agressões verbais e repercussões como estresse e perda da satisfação profissional.
Não podemos exigir cuidado humanizado de profissionais que trabalham permanentemente com medo.
E existe outro aspecto que precisa ser compreendido: quando um trabalhador da saúde sofre violência, a consequência não fica restrita a ele. Ela chega ao paciente.
Pesquisas brasileiras já identificaram relação entre a violência sofrida por profissionais e aspectos do cuidado, como apoio, respeito, tempo dedicado ao paciente e comportamentos relacionados à segurança. Quando um enfermeiro entra no plantão com medo, todos perdem. Quando uma técnica de Enfermagem adoece e precisa se afastar, uma equipe que muitas vezes já trabalha no limite fica ainda mais sobrecarregada. Quando profissionais deixam determinados serviços por insegurança, a população também sofre as consequências.
Cria-se um ciclo perverso: o paciente enfrenta as deficiências da rede, transforma sua indignação em agressão contra quem está na ponta, o profissional adoece ou se afasta e o sistema fica ainda mais fragilizado.
Quebrar esse ciclo exige mais do que notas de repúdio. É necessário melhorar a segurança das unidades, estabelecer protocolos para situações de ameaça e agressão, garantir o registro das ocorrências, oferecer apoio psicológico e jurídico às vítimas e responsabilizar quem ultrapassa os limites da cobrança legítima e pratica violência.
Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar fatores que frequentemente alimentam situações de conflito: superlotação, demora excessiva, falta de profissionais e de informações para pacientes e familiares. Nada disso justifica uma agressão, mas melhorar as condições de atendimento também faz parte da prevenção.
O país começa a avançar na discussão sobre uma proteção legal maior aos trabalhadores da saúde, mas nenhuma legislação, isoladamente, resolverá o problema. É necessária uma mudança institucional e também cultural.
Durante minha experiência na Enfermagem e no Coren-MT, aprendi que proteger quem trabalha na saúde não significa colocar profissionais e pacientes em lados opostos.
Estamos do mesmo lado.
O paciente merece entrar em uma unidade e encontrar um atendimento digno. O profissional merece entrar no mesmo lugar sabendo que poderá exercer seu trabalho com respeito e segurança.
Uma saúde verdadeiramente humana precisa cuidar dos dois.
Porque ferir quem cuida é ferir a saúde de todos.
*Bruna Santiago é a presidente licenciada do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT)
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