OPINIÃO
Acedriana Vicente Vogel: – O poder das palavras
O poder das palavras
Autora: Acedriana Vicente Vogel –
Quem de nós já não tentou ajudar uma criança da família, em casa, e não avançou um centímetro, diante da célebre frase: “mas a professora disse que é assim!”? Benditas palavras da professora. Será que essa professora tem a real dimensão da potência da sua palavra? Compreende de fato o “poder” para o bem ou para o mal que emana da sua fala? Que, dependendo da situação, será bem-DITA ou mal-DITA?
Equalizo a potência das palavras proferidas à das sementes lançadas, que podem crescer mesmo quando o agricultor dorme. Portanto, quando bem-DITAS, têm a potência de fertilizar; todavia, quando mal-DITAS, podem aniquilar. Entretanto, há como desenterrar sementes, replantar. Já desdizer é algo mais complexo e profundo. Nunca teremos a certeza que, de fato, apagamos o mal entendido.
Pensar antes de falar tem muito sentido e nos evita muitas situações complicadas. Montaigne defende que as palavras pertencem metade a quem fala e metade a quem ouve. Logo, não temos poder sobre o entendimento das mesmas, em relação a quem nos ouve, quer por imperícia nossa ou do receptor. O que podemos afirmar é que as palavras não são levadas pelo vento, ficam presas em nossa mente e em nosso coração – sejam elas bem ou mal ditas.
Talvez seja pela importância que a palavra tem entre nós que o registro bíblico da criação se fez por meio dela. Deus poderia ter criado todas as coisas, por meio de um sopro, de um pensamento… mas não: foi proferindo palavra por palavra. E mais: o verbo se fez carne e habitou entre nós, seu filho único. A palavra é o cerne da criação.
Diz-se que a boca fala daquilo que o coração está cheio. Humanizamos pela palavra e, por meio dela, defendemos o direito do ser humano na sua integralidade, a fim de que o espaço da dignidade não seja extorquido de nenhum cidadão. Em uma de suas composições, Renato Russo registrou, de forma contundente: “palavras cortam mais do que as facas. Elas não perfuram a pele, rasgam a alma”.
A escola deve ser, por excelência, um templo de qualificação humana, pois, ao garantir o direito de aprender, constrói sentido ético e estético para a palavra, expandindo-a na comunicação. Afinal, todo ato pedagógico é um ato de comunicação. E a comunicação está mais nas entrelinhas que nas linhas. Sua ressonância é mais subjetiva que objetiva.
Acedriana Vicente Vogel é diretora pedagógica do Sistema Positivo de Ensino
Artigos
Ferir quem cuida é ferir a saúde de todos
Autora: Bruna Santiago* –
Existe uma violência que, por muito tempo, foi tratada quase como parte da rotina de quem trabalha na saúde. É o xingamento durante o plantão, a ameaça porque o atendimento demorou, a intimidação, a invasão de uma sala e, nos casos mais graves, a agressão física.
Quem trabalha em hospital, UPA, policlínica ou unidade básica sabe exatamente do que estou falando.
Sou enfermeira. Vivi a realidade dos plantões e, ao longo dos últimos anos, conheci unidades de saúde em diferentes regiões de Mato Grosso, conversei com profissionais e ouvi relatos de situações que nunca deveriam ser consideradas normais.
A frustração de quem espera atendimento precisa ser ouvida. A população tem todo o direito de cobrar quando faltam profissionais, medicamentos, exames e leitos ou quando o serviço demora além do razoável. O que não podemos admitir é que problemas do sistema sejam descarregados sobre o trabalhador que está na linha de frente tentando manter o atendimento funcionando.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), mostrou que, em Mato Grosso, 23,1% dos profissionais pesquisados afirmaram sofrer violência no ambiente de trabalho e outros 11,1% disseram que isso ocorria “às vezes”. Entre as modalidades relatadas, a violência psicológica predominava.
Embora o levantamento retrate uma realidade pesquisada anos atrás, episódios recentes mostram que o problema permanece. Somente em 2026, o Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT) voltou a cobrar providências depois de agressões envolvendo profissionais em unidades de Várzea Grande e Cuiabá.
Até quando vamos esperar o próximo caso?
Uma agressão não termina quando acaba o plantão. Algumas marcas são visíveis, outras acompanham o profissional por muito mais tempo: medo de voltar ao trabalho, ansiedade, insegurança, perda da satisfação profissional e sensação de abandono.
Estudos também vêm demonstrando que a violência ocupacional está associada a consequências para a saúde mental e para a própria atividade profissional. Pesquisa publicada em 2026, envolvendo profissionais de Enfermagem, identificou relatos de violência no trabalho em quase metade dos participantes, com predominância das agressões verbais e repercussões como estresse e perda da satisfação profissional.
Não podemos exigir cuidado humanizado de profissionais que trabalham permanentemente com medo.
E existe outro aspecto que precisa ser compreendido: quando um trabalhador da saúde sofre violência, a consequência não fica restrita a ele. Ela chega ao paciente.
Pesquisas brasileiras já identificaram relação entre a violência sofrida por profissionais e aspectos do cuidado, como apoio, respeito, tempo dedicado ao paciente e comportamentos relacionados à segurança. Quando um enfermeiro entra no plantão com medo, todos perdem. Quando uma técnica de Enfermagem adoece e precisa se afastar, uma equipe que muitas vezes já trabalha no limite fica ainda mais sobrecarregada. Quando profissionais deixam determinados serviços por insegurança, a população também sofre as consequências.
Cria-se um ciclo perverso: o paciente enfrenta as deficiências da rede, transforma sua indignação em agressão contra quem está na ponta, o profissional adoece ou se afasta e o sistema fica ainda mais fragilizado.
Quebrar esse ciclo exige mais do que notas de repúdio. É necessário melhorar a segurança das unidades, estabelecer protocolos para situações de ameaça e agressão, garantir o registro das ocorrências, oferecer apoio psicológico e jurídico às vítimas e responsabilizar quem ultrapassa os limites da cobrança legítima e pratica violência.
Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar fatores que frequentemente alimentam situações de conflito: superlotação, demora excessiva, falta de profissionais e de informações para pacientes e familiares. Nada disso justifica uma agressão, mas melhorar as condições de atendimento também faz parte da prevenção.
O país começa a avançar na discussão sobre uma proteção legal maior aos trabalhadores da saúde, mas nenhuma legislação, isoladamente, resolverá o problema. É necessária uma mudança institucional e também cultural.
Durante minha experiência na Enfermagem e no Coren-MT, aprendi que proteger quem trabalha na saúde não significa colocar profissionais e pacientes em lados opostos.
Estamos do mesmo lado.
O paciente merece entrar em uma unidade e encontrar um atendimento digno. O profissional merece entrar no mesmo lugar sabendo que poderá exercer seu trabalho com respeito e segurança.
Uma saúde verdadeiramente humana precisa cuidar dos dois.
Porque ferir quem cuida é ferir a saúde de todos.
*Bruna Santiago é a presidente licenciada do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT)
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