ARTIGO
Um novo olhar
Autor: Francisney Liberato
Quando lançamos um novo olhar para o cenário existente, é possível reconstruir a nossa visão e nossa mentalidade sobre o mundo.
Em recente conversa com um amigo de longa data, dialogamos sobre diversos assuntos da vida de cada um. Ele me contou uma história cujo princípio já tenho aplicado em minha vida há muitos anos.
Ele me disse que no início do seu curso de doutorado, em um grande centro urbano brasileiro, depois de um longo dia de estudos, dinâmicas e trabalhos, ele retornou para casa a fim de descansar, porque o dia fora exaustivo e bastante atarefado.
No trajeto para a sua residência, ele estava muito triste, sobrecarregado, decepcionado, com pensamentos negativos, choramingando, estava na defensiva com uma mentalidade em que floresciam justificativas para que ele não mantivesse o foco nos estudos, chorava por dentro e aos poucos externalizava as lágrimas.
Sabe aquele momento em que devido às circunstâncias nos afundamos de tal maneira que quando “abrimos os olhos” nos vemos no “fundo do poço”? Estando nessa situação, a tendência é que as coisas só piorem, a tristeza chega, a depressão nos aprisiona e a decadência do ser humano é evidente.
Nesse cenário, ele encontrou alguém que questionou o porquê de sua tristeza, daquele pensamento derrotista. Ele se pôs a justificar o motivo que o levara a tomar tal decisão, ou seja, a desistência do doutorado.
Esse interlocutor começou a discorrer sobre a sua história. A narrativa daquela mulher era de uma situação difícil, pobre, miserável, sem perspectiva de nada, morando em um lugar distante e que a probabilidade era ficar nesse desastre social e familiar. Contudo, contrariando a lógica das coisas e, apesar de todas as intempéries deste mundo, ela conseguiu concluir o seu doutorado.
O meu amigo, caindo em si, percebeu que a sua situação era complicada, mas a saga de sua interlocutora era terrivelmente pior do que aquela em que ele se encontrava. Em poucos segundos, o seu pensamento foi reorganizado, ele tirou o foco do problema e injetou energia para olhar a vida com possibilidade de solução. Ele não mais chorava, agora sorria frente ao novo cenário que se compunha.
Como somos nós? Preferimos focar no problema ou na solução? Preferimos olhar para o mundo de forma melhor, com os olhos de beleza, ou um mundo ruim e pouco atraente? Preferimos viver motivados ou desiludidos ante o pensamento do fracasso? Preferimos ficar com uma mentalidade de coitadismo ou de alguém que tem a capacidade para “arregaçar as mangas” e desafiar as dificuldades deste mundo?”
Essa história fala muito sobre quem nós somos verdadeiramente, se preferimos olhar para o nosso “umbigo” e nos concentrar em nossos problemas ou se preferimos buscar a solução e um mundo melhor.
Já apliquei essa mesma lógica em minha vida, por diversas vezes, e posso afirmar que vale a pena fazer uma reflexão sobre isso, uma vez que com pouco tempo é possível reequilibrar a nossa emoção e o nosso ponto de vista para apresentar uma situação melhor e mais feliz.
Todas as vezes que olharmos ao nosso redor, eu tenho a convicção de que encontraremos pessoas melhores ou piores que nós e, quando olharmos pessoas em uma situação menos favorável que a nossa, é possível que isso impacte a nossa vida e comecemos a olhar a nossa existência de uma forma positiva e diferenciada.
Ao olhar para as pessoas que estão em pior situação que a nossa, não é com o intuito de nos colocar num “pedestal” e achar que estamos melhores que o outro. É no sentido de remodelar a nossa mentalidade para que saiamos daquele “fundo do poço” e olhemos o brilho do sol que renasce em nossas vidas todos os dias em nossa vida.
Não somos melhores do que ninguém, porém o novo modo de olhar nos possibilita reconstruir a nossa história, a fim de que tenhamos uma vida de alegria e de muito sucesso, e assim, ter paz interior. Devemos sempre nos lembrar da nossa capacidade de conseguir conquistar e reconquistar o mundo ao nosso redor.
E com esse novo pensamento, o meu amigo conseguiu concluir o seu curso de doutorado, e melhor: dentro do prazo estipulado.
Francisney Liberato Batista Siqueira é Auditor Público Externo do Tribunal de Contas de Mato Grosso e Chefe de gabinete de Conselheiro do TCE-MT. Escritor, Palestrante, Professor, Coach e Mentor. Mestre em Educação pela University of Florida. Doutor em Filosofia Universal Ph.I. Honoris Causa. Bacharel em Administração, Bacharel em Ciências Contábeis (CRC-MT) e Bacharel em Direito (OAB-MT).
Autor dos Livros:
“Mude sua vida em 50 dias”, “Como falar em público com eficiência”, “A arte de ser feliz”, “Singularidade”, “Autocontrole” e “Fenomenal”.
Artigos
Ferir quem cuida é ferir a saúde de todos
Autora: Bruna Santiago* –
Existe uma violência que, por muito tempo, foi tratada quase como parte da rotina de quem trabalha na saúde. É o xingamento durante o plantão, a ameaça porque o atendimento demorou, a intimidação, a invasão de uma sala e, nos casos mais graves, a agressão física.
Quem trabalha em hospital, UPA, policlínica ou unidade básica sabe exatamente do que estou falando.
Sou enfermeira. Vivi a realidade dos plantões e, ao longo dos últimos anos, conheci unidades de saúde em diferentes regiões de Mato Grosso, conversei com profissionais e ouvi relatos de situações que nunca deveriam ser consideradas normais.
A frustração de quem espera atendimento precisa ser ouvida. A população tem todo o direito de cobrar quando faltam profissionais, medicamentos, exames e leitos ou quando o serviço demora além do razoável. O que não podemos admitir é que problemas do sistema sejam descarregados sobre o trabalhador que está na linha de frente tentando manter o atendimento funcionando.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), mostrou que, em Mato Grosso, 23,1% dos profissionais pesquisados afirmaram sofrer violência no ambiente de trabalho e outros 11,1% disseram que isso ocorria “às vezes”. Entre as modalidades relatadas, a violência psicológica predominava.
Embora o levantamento retrate uma realidade pesquisada anos atrás, episódios recentes mostram que o problema permanece. Somente em 2026, o Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT) voltou a cobrar providências depois de agressões envolvendo profissionais em unidades de Várzea Grande e Cuiabá.
Até quando vamos esperar o próximo caso?
Uma agressão não termina quando acaba o plantão. Algumas marcas são visíveis, outras acompanham o profissional por muito mais tempo: medo de voltar ao trabalho, ansiedade, insegurança, perda da satisfação profissional e sensação de abandono.
Estudos também vêm demonstrando que a violência ocupacional está associada a consequências para a saúde mental e para a própria atividade profissional. Pesquisa publicada em 2026, envolvendo profissionais de Enfermagem, identificou relatos de violência no trabalho em quase metade dos participantes, com predominância das agressões verbais e repercussões como estresse e perda da satisfação profissional.
Não podemos exigir cuidado humanizado de profissionais que trabalham permanentemente com medo.
E existe outro aspecto que precisa ser compreendido: quando um trabalhador da saúde sofre violência, a consequência não fica restrita a ele. Ela chega ao paciente.
Pesquisas brasileiras já identificaram relação entre a violência sofrida por profissionais e aspectos do cuidado, como apoio, respeito, tempo dedicado ao paciente e comportamentos relacionados à segurança. Quando um enfermeiro entra no plantão com medo, todos perdem. Quando uma técnica de Enfermagem adoece e precisa se afastar, uma equipe que muitas vezes já trabalha no limite fica ainda mais sobrecarregada. Quando profissionais deixam determinados serviços por insegurança, a população também sofre as consequências.
Cria-se um ciclo perverso: o paciente enfrenta as deficiências da rede, transforma sua indignação em agressão contra quem está na ponta, o profissional adoece ou se afasta e o sistema fica ainda mais fragilizado.
Quebrar esse ciclo exige mais do que notas de repúdio. É necessário melhorar a segurança das unidades, estabelecer protocolos para situações de ameaça e agressão, garantir o registro das ocorrências, oferecer apoio psicológico e jurídico às vítimas e responsabilizar quem ultrapassa os limites da cobrança legítima e pratica violência.
Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar fatores que frequentemente alimentam situações de conflito: superlotação, demora excessiva, falta de profissionais e de informações para pacientes e familiares. Nada disso justifica uma agressão, mas melhorar as condições de atendimento também faz parte da prevenção.
O país começa a avançar na discussão sobre uma proteção legal maior aos trabalhadores da saúde, mas nenhuma legislação, isoladamente, resolverá o problema. É necessária uma mudança institucional e também cultural.
Durante minha experiência na Enfermagem e no Coren-MT, aprendi que proteger quem trabalha na saúde não significa colocar profissionais e pacientes em lados opostos.
Estamos do mesmo lado.
O paciente merece entrar em uma unidade e encontrar um atendimento digno. O profissional merece entrar no mesmo lugar sabendo que poderá exercer seu trabalho com respeito e segurança.
Uma saúde verdadeiramente humana precisa cuidar dos dois.
Porque ferir quem cuida é ferir a saúde de todos.
*Bruna Santiago é a presidente licenciada do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT)
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