CRISE SOBRE RODAS
Câmara de Várzea Grande articula CPI para investigar sucateamento e irregularidades no Transporte Coletivo
O sistema de transporte coletivo de Várzea Grande enfrenta uma iminente investigação legislativa após a consolidação do número necessário de assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal da Cidade Industrial. A iniciativa parlamentar visa apurar denúncias formais de descumprimento contratual e precarização dos serviços oferecidos à população.
A União Transporte, principal concessionária operadora do serviço no município, figura como o alvo central das investigações. A empresa, de propriedade do empresário Rômulo Botelho, irmão do deputado estadual José Eduardo Botelho (MDB), atua sob a gestão da Associação dos Transportadores Urbanos (MTU), entidade que congrega as cinco concessionárias do setor na Região Metropolitana.
A instauração do procedimento fiscalizatório ocorrerá formalmente na próxima terça-feira, dia 27 de maio, durante a Sessão Ordinária no Plenário da Casa de Leis. Nesta data, o requerimento será lido publicamente, ato que precede o sorteio técnico para a definição dos vereadores que assumirão as funções estratégicas de presidente e relator do bloco de inquérito.

O estopim para a mobilização do Poder Legislativo fundamenta-se em um robusto histórico de falhas operacionais graves, caracterizado pela circulação de uma frota visivelmente inferior à meta estipulada no contrato de concessão vigente.
Somam-se a isso relatórios técnicos que apontam para a obsolescência dos veículos, severas deficiências nos mecanismos de acessibilidade universal e descumprimento crônico dos itinerários estabelecidos.
A decisão de criar a comissão parlamentar foi chancelada por um grupo suprapartidário composto por dez vereadores: Adilsinho, Bruno Rios, Caio Cordeiro, Carlinhos Figueiredo, Charles da Educação, Cleyton Nassarden, Jânio Calistro, Joaquim Antunes, Lucas Chapéu do Sol e Rosy Prado.
A convergência desses parlamentares reflete o desgaste político e social gerado pela insatisfação generalizada da comunidade com a infraestrutura urbana local.
Os parlamentares recorreram à prerrogativa constitucional da CPI devido à insuficiência das medidas administrativas anteriores e à necessidade de detalhar o fluxo financeiro e operacional da concessão. A suspeita de favorecimento e a falta de transparência na fiscalização dos contratos anteriores motivaram os representantes a buscar instrumentos jurídicos de maior poder coercitivo e de auditoria profunda.
O cenário de degradação atinge de forma direta e severa a Cidade Industrial, o maior polo socioeconômico de Várzea Grande, e espalha-se pelas periferias conectadas à capital. Os usuários do sistema enfrentam rotineiramente veículos obsoletos desprovidos de climatização sob temperaturas extremas, infiltrações estruturais durante o período chuvoso e abrigos públicos depredados e desprotegidos contra as intempéries climáticas.

O agravamento da crise estrutural decorre, segundo analistas e lideranças comunitárias, do distanciamento geográfico e gerencial de parte dos grupos empresariais que controlam o setor, uma vez que diversas dessas organizações possuem matrizes fora do Estado de Mato Grosso.
Essa configuração societária dificulta o alinhamento das metas operacionais com as demandas reais e cotidianas da população várzea-grandense.
Os desdobramentos atuais conectam-se a fiscalizações prévias realizadas pelo Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE/MT) e pelo Ministério Público Estadual (MPE). O órgão ministerial, inclusive, interveio recentemente por meio de uma mesa técnica, estabelecendo um cronograma emergencial de obrigações estruturais para permitir a continuidade temporária e condicionada da prestação dos serviços pela empresa concessionária.
A expectativa da sociedade civil e dos movimentos sociais concentra-se na democratização das decisões regulatórias, com a exigência de audiências públicas frequentes e auditoria cidadã nos custos tarifários. Até que os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) produzam efeitos práticos na gestão municipal, a rotina dos trabalhadores locais permanecerá sob o estigma dos atrasos crônicos, do desconforto térmico e do improviso logístico.
Política
Disputa pelo comando da Câmara de Cuiabá expõe guerra política e pressões institucionais
A antecipação da disputa pela presidência da Câmara Municipal de Cuiabá transformou o Legislativo da capital de todos os mato-grossenses em um dos principais focos de tensão política do Estado. O debate em torno da possível mudança no regimento interno da Casa, que atualmente impede a reeleição do presidente dentro do mesmo mandato legislativo, ampliou as articulações nos bastidores, dividiu vereadores e colocou a presidente Paula Calil (PL) no centro de uma intensa batalha pelo controle político da instituição.
Historicamente, a política sempre esteve associada à disputa pelo poder. Pensadores clássicos da ciência política ajudaram a construir essa compreensão ao longo dos séculos.
Para Max Weber, a atividade política está intrinsicamente ligada à busca pelo poder, seja como instrumento para alcançar objetivos coletivos ou pessoais, seja pelo prestígio proporcionado pelo comando institucional.
Nicolau Maquiavel, por sua vez, definiu a política como a arte de conquistar, administrar e preservar o poder diante das forças rivais.
Já Thomas Hobbes defendia que o controle político centralizado seria fundamental para evitar o caos social e garantir estabilidade institucional.
Dentro desse contexto teórico e político, a atual presidente da Câmara Municipal de Cuiabá afirma que não possui “sede de poder”, mas reconhece publicamente que deseja disputar novamente o comando da Mesa Diretora. Paula Calil sustenta que o debate sobre a alteração do regimento interno não surgiu de um projeto pessoal de permanência no cargo, mas de uma construção política formada por vereadores e servidores que defendem a continuidade administrativa da atual gestão.

A discussão ganhou ainda mais repercussão após declarações públicas da própria presidente confirmando sua disposição de permanecer no comando do Legislativo cuiabano. Segundo Paula Calil, a eventual mudança regimental dependerá exclusivamente da vontade soberana dos vereadores e não existe, até o momento, qualquer definição oficial sobre prazo ou votação da proposta.
Mesmo assim, o tema já domina os corredores da Câmara Municipal e intensifica os movimentos políticos de diferentes grupos parlamentares.
Nos bastidores, vereadores classificam a disputa como uma das mais delicadas e estratégicas dos últimos anos dentro do Parlamento Municipal. Até poucas semanas atrás, os nomes mais cotados para a sucessão eram os dos vereadores Ildes Taques do Podemos, e Dilemário Alencar (UB). Entretanto, a entrada definitiva de Paula Calil no processo político alterou completamente o cenário e ampliou o debate sobre legalidade, legitimidade e conveniência de modificar as regras internas durante o próprio período eleitoral da Mesa Diretora.
O ambiente político ficou ainda mais tensionado após manifestações de apoio do prefeito cuiabano Abilio Brunini (PL) à permanência de Paula Calil na presidência da Câmara Municipal. A movimentação foi interpretada por setores da oposição e até por parlamentares da base governista como uma possível interferência do Executivo Municipal sobre a independência institucional do Legislativo.
O episódio aprofundou divergências internas e ampliou o desgaste político em torno da proposta de alteração regimental.
Ao defender a possibilidade de disputar novamente a presidência da Casa e Leis, Paula Calil passou a utilizar um discurso fortemente associado à representatividade feminina e à participação democrática. Em entrevistas recentes, a vereadora afirmou estar “lutando como mulher” para garantir igualdade de condições na disputa interna da Câmara de Cuiabá. Segundo ela, impedir sua candidatura por meio da regra atual significaria limitar o direito democrático de participação dentro do próprio Parlamento Municipal.
A presidente da Casa de Leis também reagiu às críticas de adversários que classificam a proposta como casuística e direcionada exclusivamente à sua permanência no cargo. Paula Calil argumenta que, caso tivesse assumido a presidência já propondo imediatamente a mudança do regimento, poderia ser acusada de agir motivada apenas por interesses pessoais.
De acordo com a parlamentar, o debate só ganhou força porque houve um movimento político interno favorável à continuidade administrativa de sua gestão.
Outro fator que elevou a temperatura política foi a repercussão sobre mudanças administrativas realizadas recentemente dentro da Câmara Municipal. Questionada sobre possíveis exonerações ligadas ao ambiente eleitoral interno, Paula Calil negou qualquer relação entre decisões administrativas e pressões políticas. Ela afirmou que reorganizações fazem parte da rotina de qualquer gestão pública e rejeitou acusações de utilização da estrutura institucional para fortalecimento político pessoal.
Enquanto as articulações avançam, a disputa pela Mesa Diretora ultrapassa os limites de uma eleição interna e passa a representar um confronto mais amplo envolvendo influência política, controle institucional e fortalecimento de grupos de poder dentro da base governista. Para aprovar a alteração regimental, serão necessários votos favoráveis de dois terços dos vereadores, exigindo uma ampla construção política.
O desfecho da discussão deverá definir não apenas o futuro da presidência da Câmara de Cuiabá, mas também o equilíbrio de forças dentro da política mato-grossense nos próximos anos.
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