DEBATE SOBRE A PERMANÊNCIA NO "PODER"
Disputa pelo comando da Câmara de Cuiabá expõe guerra política e pressões institucionais
A antecipação da disputa pela presidência da Câmara Municipal de Cuiabá transformou o Legislativo da capital de todos os mato-grossenses em um dos principais focos de tensão política do Estado. O debate em torno da possível mudança no regimento interno da Casa, que atualmente impede a reeleição do presidente dentro do mesmo mandato legislativo, ampliou as articulações nos bastidores, dividiu vereadores e colocou a presidente Paula Calil (PL) no centro de uma intensa batalha pelo controle político da instituição.
Historicamente, a política sempre esteve associada à disputa pelo poder. Pensadores clássicos da ciência política ajudaram a construir essa compreensão ao longo dos séculos.
Para Max Weber, a atividade política está intrinsicamente ligada à busca pelo poder, seja como instrumento para alcançar objetivos coletivos ou pessoais, seja pelo prestígio proporcionado pelo comando institucional.
Nicolau Maquiavel, por sua vez, definiu a política como a arte de conquistar, administrar e preservar o poder diante das forças rivais.
Já Thomas Hobbes defendia que o controle político centralizado seria fundamental para evitar o caos social e garantir estabilidade institucional.
Dentro desse contexto teórico e político, a atual presidente da Câmara Municipal de Cuiabá afirma que não possui “sede de poder”, mas reconhece publicamente que deseja disputar novamente o comando da Mesa Diretora. Paula Calil sustenta que o debate sobre a alteração do regimento interno não surgiu de um projeto pessoal de permanência no cargo, mas de uma construção política formada por vereadores e servidores que defendem a continuidade administrativa da atual gestão.

A discussão ganhou ainda mais repercussão após declarações públicas da própria presidente confirmando sua disposição de permanecer no comando do Legislativo cuiabano. Segundo Paula Calil, a eventual mudança regimental dependerá exclusivamente da vontade soberana dos vereadores e não existe, até o momento, qualquer definição oficial sobre prazo ou votação da proposta.
Mesmo assim, o tema já domina os corredores da Câmara Municipal e intensifica os movimentos políticos de diferentes grupos parlamentares.
Nos bastidores, vereadores classificam a disputa como uma das mais delicadas e estratégicas dos últimos anos dentro do Parlamento Municipal. Até poucas semanas atrás, os nomes mais cotados para a sucessão eram os dos vereadores Ildes Taques do Podemos, e Dilemário Alencar (UB). Entretanto, a entrada definitiva de Paula Calil no processo político alterou completamente o cenário e ampliou o debate sobre legalidade, legitimidade e conveniência de modificar as regras internas durante o próprio período eleitoral da Mesa Diretora.
O ambiente político ficou ainda mais tensionado após manifestações de apoio do prefeito cuiabano Abilio Brunini (PL) à permanência de Paula Calil na presidência da Câmara Municipal. A movimentação foi interpretada por setores da oposição e até por parlamentares da base governista como uma possível interferência do Executivo Municipal sobre a independência institucional do Legislativo.
O episódio aprofundou divergências internas e ampliou o desgaste político em torno da proposta de alteração regimental.
Ao defender a possibilidade de disputar novamente a presidência da Casa e Leis, Paula Calil passou a utilizar um discurso fortemente associado à representatividade feminina e à participação democrática. Em entrevistas recentes, a vereadora afirmou estar “lutando como mulher” para garantir igualdade de condições na disputa interna da Câmara de Cuiabá. Segundo ela, impedir sua candidatura por meio da regra atual significaria limitar o direito democrático de participação dentro do próprio Parlamento Municipal.
A presidente da Casa de Leis também reagiu às críticas de adversários que classificam a proposta como casuística e direcionada exclusivamente à sua permanência no cargo. Paula Calil argumenta que, caso tivesse assumido a presidência já propondo imediatamente a mudança do regimento, poderia ser acusada de agir motivada apenas por interesses pessoais.
De acordo com a parlamentar, o debate só ganhou força porque houve um movimento político interno favorável à continuidade administrativa de sua gestão.
Outro fator que elevou a temperatura política foi a repercussão sobre mudanças administrativas realizadas recentemente dentro da Câmara Municipal. Questionada sobre possíveis exonerações ligadas ao ambiente eleitoral interno, Paula Calil negou qualquer relação entre decisões administrativas e pressões políticas. Ela afirmou que reorganizações fazem parte da rotina de qualquer gestão pública e rejeitou acusações de utilização da estrutura institucional para fortalecimento político pessoal.
Enquanto as articulações avançam, a disputa pela Mesa Diretora ultrapassa os limites de uma eleição interna e passa a representar um confronto mais amplo envolvendo influência política, controle institucional e fortalecimento de grupos de poder dentro da base governista. Para aprovar a alteração regimental, serão necessários votos favoráveis de dois terços dos vereadores, exigindo uma ampla construção política.
O desfecho da discussão deverá definir não apenas o futuro da presidência da Câmara de Cuiabá, mas também o equilíbrio de forças dentro da política mato-grossense nos próximos anos.
Política
PL em Mato Grosso endurece discurso, abre análise sobre infidelidade e prevê “depuração” entre filiados
Nesta quarta-feira (2), durante entrevista concedida na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (AL/MT), o presidente estadual do Partido Liberal (PL), Ananias Filho, elevou o tom contra integrantes da legenda que declararam apoio a candidatos de outras siglas nas eleições. O dirigente afirmou que o partido deverá passar por um processo de “depuração” e indicou que casos considerados incompatíveis com as diretrizes da sigla poderão ser submetidos a análise interna.
Embora não tenha citado nominalmente o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) ao formular as críticas, Ananias Filho se referiu ao movimento de lideranças do PL que passaram a apoiar projetos políticos vinculados a outras legendas. Segundo o presidente estadual, a situação envolve filiados que, mesmo permanecendo formalmente no partido, decidiram manifestar apoio a candidaturas diferentes daquelas oficialmente defendidas pela sigla.
Entre os nomes mencionados durante a entrevista estão a Prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, e os prefeitos Cláudio Ferreira de Rondonópolis, e Sérgio Machnic de Primavera do Leste. De acordo com Ananias Filho, os integrantes do PL já declararam apoio ao projeto político de Otaviano Pivetta, apontado como candidato ao Governo de Mato Grosso pelo Republicanos, em posição divergente da candidatura defendida pelo Partido Liberal, representada por Wellington Fagundes.
O presidente estadual afirmou que não considera ilegítimo que um filiado tenha posicionamentos políticos próprios ou discorde das decisões tomadas pela legenda. No entanto, criticou aqueles que, após utilizarem a estrutura partidária para conquistar mandatos eletivos, passam a apoiar outros projetos políticos sem promover o desligamento formal do partido.

Para o comandante estadual do Partido Liberal (PL), Ananias Filho, a coerência política exige uma definição clara diante de divergências consideradas irreconciliáveis.
“Eu só acho ruim a pessoa não ter hombridade de chegar no partido e falar: ‘Olha, eu vou me afastar do partido, eu vou me desfiliar do partido e vou apoiar outro candidato’”, declarou o dirigente.
A manifestação reforçou o endurecimento do discurso da direção estadual do PL diante de lideranças que permanecem nos quadros partidários, mas adotam posições eleitorais contrárias às orientações defendidas pela sigla.
Ananias Filho acrescentou que integrantes que receberam apoio partidário e utilizaram a estrutura da legenda durante campanhas eleitorais deveriam, em sua avaliação, demonstrar lealdade ao partido ao decidirem seguir outro caminho político.
Segundo ele, os recursos empregados pelas legendas possuem natureza pública, embora sejam destinados aos partidos conforme as regras do sistema eleitoral, o que, em sua visão, aumenta a responsabilidade dos beneficiados.
“Quem usa o partido pode até discordar do rumo que o partido está dando. Mas ele que usou toda a estrutura do partido, recebeu recurso público, que é público, mas que é destinado, por delegação, aos partidos, deveria ter hombridade”, afirmou.
A declaração sintetiza a posição da direção estadual, que pretende examinar a conduta de filiados envolvidos em situações classificadas internamente como possíveis casos de Infidelidade Partidária.
O Partido Liberal enfrenta, em Mato Grosso, um movimento de afastamento político de lideranças relevantes que decidiram apoiar Otaviano Pivetta, mesmo diante da possibilidade de medidas disciplinares. O cenário expõe uma disputa interna sobre os limites da autonomia das lideranças locais e a obrigação de alinhamento às decisões eleitorais adotadas oficialmente pela estrutura partidária estadual.
Com a instauração dos procedimentos internos, as possíveis expulsões e outras medidas disciplinares passarão por análise jurídica e partidária. O processo deverá avaliar, individualmente, as circunstâncias de cada caso e a eventual existência de elementos que justifiquem punições, de acordo com as normas internas da legenda e os instrumentos jurídicos aplicáveis à situação.
Apesar do tom mais rígido adotado durante a entrevista, Ananias Filho declarou à imprensa que considera natural a saída ou o afastamento político de integrantes em determinados momentos.
Ao resumir sua avaliação sobre a debandada de lideranças, utilizou uma comparação direta:
“Isso é igual unha encravada, todo ano tem”.
A frase evidenciou que, para o presidente estadual do PL, o processo de reorganização interna faz parte da dinâmica recorrente da política e deverá prosseguir com a anunciada “depuração” dos quadros partidários.
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