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O maior desafio da liderança mora dentro de quem lidera

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Autora: Vanessa Carvalho*

Nunca se falou tanto sobre liderança. Empresas investem em inteligência artificial, produtividade e transformação digital. Ao mesmo tempo, aumentam os casos de burnout, a dificuldade de reter talentos, os conflitos entre gerações e a pressão sobre executivos e gestores. É um paradoxo. Quanto mais ferramentas temos para apoiar as decisões, maior parece ser o peso de decidir.

Ao longo de mais de duas décadas atuando na liderança de equipes, na gestão de crises, em investigações corporativas e na formação de executivos, percebi que os maiores riscos para uma organização nem sempre vêm das mudanças do mercado. Muitas vezes, começam dentro da mente de quem lidera.

Foi essa constatação que me motivou a escrever Líderes bons também tomam decisões ruins – e você não está imune a isso. O livro parte de uma realidade pouco discutida: profissionais competentes, éticos e experientes também erram. Na maioria das vezes, esses erros não acontecem por falta de conhecimento técnico, mas porque as decisões são tomadas sob pressão, medo, excesso de confiança, cansaço ou, simplesmente, no piloto automático.

Existe uma expectativa de que o líder sempre sabe o que fazer. Quem entrega bons resultados passa a carregar a imagem de alguém que nunca falha. O problema é que esse reconhecimento pode se transformar em um peso quando surgem situações para as quais não existe resposta pronta.

Crises aparecem sem aviso. Podem surgir em momentos de instabilidade econômica, em conflitos internos, denúncias, acidentes ou mudanças repentinas no mercado. Nessas horas, a qualidade da decisão depende menos da técnica e mais da capacidade do líder de compreender o que acontece dentro de si para responder melhor diante do inesperado. Por isso, considero o autoconhecimento uma das competências mais importantes da liderança contemporânea.

Liderar pessoas sem aprender a administrar os próprios pensamentos e emoções é um caminho arriscado. Impaciência, vaidade, rigidez, excesso de controle ou dificuldade para ouvir opiniões diferentes deixam de ser apenas características pessoais e passam a influenciar decisões, enfraquecer equipes e comprometer resultados.

As organizações já perceberam esse desafio. Desenvolver líderes preparados para atuar em ambientes complexos continua sendo uma das maiores preocupações das empresas. Ao mesmo tempo, cresce o estresse entre gestores e aumenta a dificuldade de formar novas lideranças, o que mostra que desenvolver competências técnicas já não é suficiente.

Também precisamos abandonar a ideia de que vulnerabilidade é sinal de fraqueza. O líder que reconhece seus limites ganha mais clareza sobre seus processos de decisão e reduz a influência de impulsos que costumam aparecer justamente nos momentos mais críticos.

Não existem líderes perfeitos. Existem líderes dispostos a aprender continuamente, rever comportamentos e transformar erros em aprendizado.

A pergunta mais importante que um gestor precisa fazer hoje é “o que está influenciando minha decisão?”. Em um ambiente de mudanças aceleradas, decidir melhor é o maior diferencial competitivo.

*Vanessa Carvalho é sócia-fundadora da CCL Projetos Transformacionais, especialista em Liderança e Gestão de Crises, mestre em Administração e autora do livro Líderes bons também tomam decisões ruins – e você não está imune a isso.

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Artigos

O que o cinema ensina a uma geração moldada pelo clique?

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Autora: Poliana Maluf*

Existe uma transformação silenciosa na forma como as crianças se relacionam com o tempo. Acostumadas ao ritmo frenético das telas de bolso, onde qualquer fração de segundo de tédio é interrompida pelo deslizar de um dedo, a nova geração enfrenta uma crise invisível de atenção. Em um ecossistema digital projetado para a recompensa imediata e a fragmentação constante, a capacidade de sustentar o foco em uma única história tornou-se uma habilidade rara. É precisamente nesse cenário de aceleração que a sala de cinema deixa de ser apenas um espaço de entretenimento para se converter em um ato de resistência pedagógica e afetiva.

Diferente dos vídeos curtos que entregam estímulos prontos e superficiais a cada três segundos, o cinema exige o exercício da permanência. Ao sentar diante de uma grande tela, a criança é convidada a aceitar o tempo da narrativa: o silêncio que antecede o conflito, a pausa que constrói a atmosfera e o desenvolvimento gradual dos personagens. A escuridão da sala e a ausência de botões para pular cenas não funcionam como restrições, mas como uma moldura de proteção. Ali, o cérebro infantil descobre que o encanto não mora na velocidade da troca de imagens, mas na profundidade do enredo.

Essa desaceleração forçada produz efeitos profundos no repertório cognitivo e emocional dos pequenos. Ao sustentar a atenção durante noventa minutos, a criança aprende a lidar com a expectativa e a tolerar a ausência da recompensa instantânea. O cinema ensina que os melhores desfechos dependem da construção, que os conflitos exigem maturação e que a complexidade das relações humanas não cabe em recortes de quinze segundos. Trata-se de um treino direto de paciência narrativa, elemento fundamental para o desenvolvimento da empatia, do raciocínio crítico e da leitura de mundo.

Mais do que isso, essa imersão contínua abre espaço para o pensamento próprio. Quando o olhar não é atropelado por uma avalanche ininterrupta de estímulos, a mente da criança ganha brechas para questionar o que vê, fazer pontes com a sua vida e construir significados que pertencem só a ela.

Cultivar o hábito de levar as crianças ao cinema não é uma tentativa nostálgica de combater a tecnologia, mas um compromisso consciente com a saúde do olhar infantil. Ensinar uma criança a sustentar o tempo de um filme é devolver a ela o direito à contemplação, à imaginação profunda e à escuta atenta. Em um mundo que exige pressa, o cinema ensina a infância a desacelerar e a descobrir a beleza de permanecer até o final.

*Poliana Maluf é produtora audiovisual, estrategista criativa brasileira radicada em Los Angeles e autora de “Poppy e a Tela Gigante”, livro infantil que une sua experiência no universo cinematográfico à vontade de criar histórias que despertem a imaginação das crianças.

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