Artigo
Nas trevas das novas tecnologias, que brilhe a arte!
Autor: Tchelo Andrade* –
Na escuridão do passado, nossos antepassados eram perseguidos por predadores gigantes. Hoje estamos em uma nova era de igual pavor, porém ela é pouco perceptível. Se antes não podíamos ver as megafaunas gigantescas na escuridão desolada do mundo primitivo, agora a luz de um mundo “hypertecnológico” prejudica nossa visão para os monstros que nos cercam, porque são incapazes de iluminar todo cenário – muito embora, as megacorporações que nos vendem essas tecnologias jurem ser o suficiente.
Um mundo tecnológico e digitalizado certamente tem suas vantagens, mas as novas tecnologias têm afastado os seres humanos uns dos outros. Esse desligamento cria um vazio, preenchido pela escuridão que nos inibe de sonhar e se importar, resultando em solidão, desigualdade social, destruição dos recursos naturais, bets e banalização da violência.
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou a solidão como uma epidemia global! Considerando que a solidão é uma ameaça direta à existência humana, pessoas em todo o mundo estariam cerceadas por ela. A pesquisa “Inteligência Artificial na Vida Real”, da Talk Inc., também trouxe à tona um dado considerável: 1 em cada 10 brasileiros recorre a chats de inteligência artificial para desabafar, buscar conselhos ou conversar.
Em entrevista ao site “RFI Convida”, o neurocientista Miguel Nicolelis traz uma fala bastante sintetizadora sobre como a vida digital está diminuindo nossa empatia e a sociabilização:
“Colocamos abstrações, como as lógicas dos mercados, o culto ao consumo desenfreado, o culto ao dinheiro, no centro de nosso universo…“.
E não para por aí. Muitos casos de “escravização digital” surgiram nos últimos anos. Neste tipo de prática, os criminosos utilizam as redes técnicas de engenharia social para identificar e manipular crianças e adolescentes, principalmente meninas.
Um dos casos que gerou grande repercussão foi de uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul que foi forçada a tirar a vida do seu animal de estimação e a sua própria, ao vivo, em transmissão pelo “Discord”. A operação deflagrada pela Polícia Civil identificou a célula criminosa responsável pelo crime, revelando que os membros eram jovens de 14 a 19 anos.
Mais do que nunca é preciso encontrar formas de reaproximar a humanidade daquilo que a faz ser humana: sonhar e se importar com o outro. Somos, antes de mais nada, seres de empatia e de imaginação.
A arte em suas diversas manifestações age sobre nós com um único intuito: estimular a percepção do “eu” e do “outro”. Afinal, os humanos são a única espécie capaz de se conceber dessa maneira.
Não se trata apenas de consumir “arte”. Nesse enfrentamento direto à violência, o importante é também “fazer”. Daí a relevância dos Pontos de Cultura e de políticas públicas que evidenciem o trabalho já feito no Brasil e os potencializem.
Nos diversos pontos e pontões de cultura espalhados pelo território, a sociedade tem acesso a peças de teatro, oficinas, música, dança, cinema e muitas outras formas de bem-estar social. São ações que, em sua simplicidade, fazem algo extremamente positivo aos indivíduos nos tempos atuais, porque os afastam dos seus celulares, colocam-os para interagir com outras pessoas e fortalece a imaginação e o sentimento de pertencimento.
A proibição de celulares nas salas de aula foi o primeiro passo. O segundo já está acontecendo: é a sanção da Lei nº 15.481, de 31 de julho de 2026 que alterou a Política Nacional de Cultura Viva para estabelecer critérios para parcerias e intercâmbios entre Pontos e Pontões de Cultura e estabelecimentos de educação básica. O próximo passo não pode ser outro senão o de aguçar nossa esperança, vinda do verbo “esperançar”, como diria Paulo Freire.
A missão que deve ser estabelecida para a humanidade é ser humana, frear o desespero e a dependência das tecnologias. O mundo tecnológico até nos contempla com a ideia de luz, mas não podemos esquecer que se trata de uma luz artificial que jamais será superior ao fulgor da nossa essência.
A história nos prova que, na maior parte da nossa existência, éramos seres de comunhão e que a imaginação sempre foi a ferramenta ideal para prosperar em comunidade. Não é por acaso que as pinturas rupestres na Serra da Capivara e a “Odisseia” de Homero façam sentido para nós ainda hoje. O futuro do ser humano não pode ser outro que não “ser humano”.
*Tchelo Andrade é roteirista, ilustrador, game designer, educador patrimonial, produtor cultural e autor de “Os Desígnios do Artífice”, livro que une ação, fantasia e terror para refletir sobre a violência urbana
Artigos
Cultura além do concreto e a estratégia que não morre no ar-condicionado
Autora: Lúcia Menezes Cotes* –
Uma armadilha comum para executivos de Recursos Humanos é desenhar uma cultura perfeitamente alinhada aos objetivos do negócio, tecnicamente consistente e compatível com a estrutura da empresa, mas falhar no exercício de levá-la até a base operacional. Quando a cultura permanece restrita aos escritórios corporativos e às reuniões de diretoria, perde força e se transforma em um conceito distante da realidade prática da operação.
Afinal, cultura organizacional não é o que está escrito no estatuto social ou apresentado em campanhas internas. Ela se manifesta nas atitudes, nos hábitos e nas escolhas feitas diariamente pelas pessoas. É especialmente nos momentos de pressão, urgência ou dilema que a cultura se revela de forma mais clara. Porque cultura não se sustenta em discurso — ela se consolida nas decisões tomadas todos os dias, principalmente quando o caminho correto exige mais esforço do que a alternativa mais simples.
Uma cultura organizacional que existe apenas no papel ou em discursos executivos bem ensaiados dificilmente sustenta a complexidade de operações de grande escala e, consequentemente, não gera resultados consistentes no longo prazo. Outro fenômeno recorrente — e particularmente sensível no setor de infraestrutura — é a distância cultural entre os centros administrativos e as frentes operacionais.
De um lado, estão as unidades corporativas compostas por profissionais altamente especializados e habituados à linguagem estratégica do ambiente empresarial. Do outro, estão milhares de colaboradores responsáveis pela execução diária das operações espalhadas pelo país. São profissionais que carregam conhecimento técnico e prático indispensável para o funcionamento do negócio, mas que muitas vezes possuem vivências, repertórios e formas de comunicação bastante diferentes das lideranças corporativas.
Acreditar que uma cultura organizacional terá sucesso apenas por ser bem estruturada no campo teórico é um erro recorrente. A realidade das operações mostra que uma cultura que não é traduzida para a linguagem de quem a executa deixa de ser prática e se transforma apenas em um manual esquecido ou em mensagens que não geram identificação real.
É frequente vermos diretrizes que nascem em salas de reunião carregadas de termos como accountability, compliance, agile e mindset. Para o corpo executivo, esses conceitos são familiares. No entanto, quando a mensagem percorre os diferentes níveis hierárquicos e chega ao colaborador que está na ponta da operação, o significado pode se perder se a comunicação não for adaptada à sua realidade.
O impacto na segurança, na eficiência e nos resultados é direto. Quando o trabalhador não compreende o propósito de uma norma de segurança ou de um processo de qualidade, a adesão dificilmente acontece de forma genuína. Muitas vezes, o comportamento passa a existir apenas enquanto há supervisão. O resultado é uma cultura frágil, que perde força diante do primeiro desafio operacional ou da pressão por prazo.
Por isso, o grande desafio do RH em empresas de infraestrutura, logística e indústria é garantir capilaridade. A cultura precisa ultrapassar os limites dos escritórios corporativos e fazer parte da rotina concreta das operações, dos canteiros e das decisões tomadas diariamente pelas equipes que sustentam o negócio.
Quando a comunicação acontece de forma distante da realidade operacional, cria-se uma barreira invisível de exclusão. O colaborador deixa de se reconhecer naquela mensagem e passa a enxergar a cultura como algo pertencente apenas à liderança. A partir daí, surgem comportamentos paralelos, improvisos e, muitas vezes, uma resistência silenciosa ao que vem da gestão. O impacto dessa desconexão atinge diretamente os resultados, a padronização dos processos e o engajamento das equipes.
Para que a cultura organizacional deixe de ser apenas um conjunto de quadros decorativos, o RH precisa assumir um papel de tradução estratégica. Isso significa conectar a visão da diretoria à realidade prática de cada unidade operacional. Exige transformar conceitos abstratos em comportamentos concretos, observáveis e aplicáveis no dia a dia.
Em um canteiro de obras, por exemplo, integridade significa fazer o certo mesmo diante da pressão por prazo. Inovação pode significar encontrar uma forma mais segura, eficiente e inteligente de executar uma atividade. É nesse nível de compreensão prática que a cultura deixa de ser discurso e passa a gerar comportamento.
Contudo, essa tradução só ganha força por meio da liderança de proximidade. Se os líderes não forem preparados para transmitir os valores da empresa na linguagem cotidiana de suas equipes, a estratégia dificilmente ultrapassará os níveis gerenciais. Da mesma forma, essa conexão exige escuta genuína. Comunicação não é apenas o que o RH comunica, mas aquilo que o colaborador realmente compreende e incorpora na rotina.
Paralelamente, o RH moderno precisa ampliar o uso das plataformas de comunicação para além do óbvio. Murais estáticos já não são suficientes para alcançar quem está na operação. É necessário investir em ferramentas acessíveis, dinâmicas e compatíveis com a realidade de diferentes turnos, funções e níveis de escolaridade. O desafio está menos na quantidade de comunicação e mais na capacidade de tornar a mensagem presente, compreensível e relevante.
Em empresas que caminham rumo aos 100 anos, cultura organizacional não é apenas um atributo institucional — é um ativo estratégico de continuidade. Estruturas mudam, mercados evoluem, tecnologias avançam e lideranças se renovam. O que garante coerência ao longo do tempo é a capacidade de preservar princípios essenciais enquanto a organização continua evoluindo.
Em organizações de infraestrutura, onde a distância entre o planejamento estratégico e a execução operacional pode ser imensa, a cultura é o elo que conecta propósito e prática. Quando os valores da empresa deixam de existir apenas nos discursos institucionais e passam a fazer sentido na realidade das equipes, a cultura ganha legitimidade.
E culturas legítimas não apenas fortalecem resultados. Elas sustentam segurança, confiança, reputação e a capacidade de atravessar gerações. Para empresas que se aproximam de um século de trajetória, esse talvez seja o maior desafio — e também o maior legado.
*Lúcia Menezes Cotes é diretora de Gestão de Pessoas da Passarelli
-
Artigos6 dias atrásSem grupos políticos
-
Artigos6 dias atrásDIA MUNICIPAL DO PLANTIO DE ÁRVORES EM CUIABÁ
-
Política6 dias atrásO que agentes públicos não podem fazer durante a campanha eleitoral?
-
Artigos5 dias atrásRequer tempo
-
Artigos5 dias atrásNinguém mais quer trabalhar
-
Artigos3 dias atrásAutoliderança: o que você faz quando ninguém cobra
-
ESPORTES5 dias atrásFábio brilha nos pênaltis, e Fluminense supera o Rivadavia
-
Política4 dias atrásJustiça Eleitoral mantém, por ora, candidatura de Pivetta e preserva acesso a recursos de campanha



