Artigo
Entre o 6 e o 9: quando a política atravessa relações
Autora: Beatriz Breves* –
A polarização política no Brasil é inegável. O país se vê dividido entre esquerda e direita, e essa cisão tem atravessado relações de forma profunda. Amizades antigas acabaram, famílias se desentenderam, casais se separaram. A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam e provocam um verdadeiro “curto-circuito” nas relações.
Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que, ao escutar o outro, se perca o próprio rumo. Soma-se a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, o que torna o diálogo mais árduo. Logo, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, reage; em vez de perguntar, julga.
Ainda assim, quando falamos de pessoas de boa índole, temos algo em comum: embora as ideias divirjam, muitos dos ideais se aproximam. Há um desejo compartilhado por justiça, dignidade, liberdade e acesso a direitos básicos como saúde, segurança e educação.
É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, frente a frente, podem olhar para o mesmo símbolo e enxergar coisas diferentes: uma vê um 6, a outra um 9. Ambas estão certas dentro de seus pontos de vista. Assim também ocorre com as ideias: diferentes interpretações podem emergir a partir de um mesmo ideal.
Quando aproximamos essas visões, surge o número 69. Nesse encontro, não há disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementar. Ou seja, duas perspectivas coexistindo e compondo algo maior quando colocadas, lado a lado, harmoniosamente.
Talvez seja justamente essa a habilidade que falte ao Brasil, e a todos nós: a capacidade de transformar o embate em encontro. De lembrar que discordar não significa desarmonia. De aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho. De trocar certezas rígidas por curiosidade genuína.
Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos complexos, com uma diversidade de sentimentos que, se não bem administrados, podem gerar disputas e desavenças. Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, de fato, o número é 96. Longe de ser um problema, é justamente entre integração e divergência que aparecem novos caminhos.
O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. Afinal, é isso que ainda nos mantém em diálogo.
*Beatriz Breves é psicóloga, psicanalista e escritora, autora do livro Eu Fractal – conheça-te a ti mesmo
Artigos
Bolsa Família: emancipação, economia e a desconstrução do preconceito
Autor: André Naves* –
No debate público brasileiro, poucos temas despertam tantas paixões – e, infelizmente, tanta desinformação – quanto o Bolsa Família. Frequentemente reduzido ao rótulo superficial de “assistencialismo”, o programa é, na realidade, uma das tecnologias sociais mais sofisticadas do mundo para o enfrentamento da pobreza intergeracional. Ele não atua apenas no alívio imediato da fome; funciona como um estruturador de direitos fundamentais e um poderoso motor para as economias locais.
Compreender o Bolsa Família exige afastar o preconceito e fixar o olhar nos dados e na realidade constitucional. Longe de ser um sistema desordenado de distribuição de renda, o ingresso no programa obedece a critérios técnicos rigorosos através do Cadastro Único (CadÚnico). Funciona como um verdadeiro “raio-X” da vulnerabilidade social do país. Estar cadastrado, contudo, não é garantia de recebimento: a seleção é impessoal, automatizada mensalmente pelo governo federal e prioriza as famílias de menor renda com maior número de crianças e adolescentes.
O grande trunfo do programa – e um de seus pontos menos compreendidos – reside nas condicionalidades. O Estado não realiza uma mera transferência financeira; ele firma um contrato social. Para manter o benefício, as famílias precisam cumprir contrapartidas rígidas na saúde (como vacinação em dia e pré-natal) e na educação (frequência escolar mínima).
Essas regras não são burocracia. São mecanismos de proteção à infância e de ruptura do ciclo da miséria. Se uma criança falta à escola, o sistema emite um alerta precoce para que o poder público identifique a causa, seja ela o trabalho infantil ou a violência doméstica.
Outra crítica recorrente e infundada é a de que o programa “aprisiona” seus beneficiários. A atual arquitetura do Bolsa Família foi desenhada justamente para incentivar a formalização do trabalho por meio da chamada Regra de Proteção. Ao conquistar um emprego com carteira assinada, o cidadão não perde o benefício imediatamente: ele pode permanecer no programa por até dois anos recebendo 50% do valor. Essa rampa de transição suave garante a segurança econômica necessária para que o trabalhador aceite novas oportunidades e busque a autonomia sem o fantasma da fome imediata.
Em tempos de pós-verdade, combater mitos com dados científicos é uma questão de responsabilidade ética. Três grandes falácias caem por terra quando analisadas pelo retrovisor da ciência econômica:
O suposto “efeito preguiça”: pesquisas do Banco Mundial e do Ipea demonstram que a imensa maioria dos beneficiários adultos trabalha, mas na extrema precariedade da informalidade. O benefício é complemento, não substituto do salário.
O mito da natalidade: dados do Censo do IBGE provam que a taxa de natalidade segue caindo no Brasil, inclusive nas regiões de maior cobertura do programa. O valor pago por filho é insuficiente para cobrir os custos reais de criação, desidratando a tese de “ter filhos para ganhar mais”.
O destino do recurso: estudos de padrão de consumo mostram que o dinheiro é gasto majoritariamente em alimentação, remédios e material escolar. O impacto disso na economia é multiplicador: cada R$ 1,00 investido no programa gera um crescimento superior a R$ 1,70 no PIB, pois o recurso é injetado diretamente no comércio local.
O Bolsa Família não é uma política de submissão, mas de emancipação. Em uma sociedade estruturalmente desigual como a nossa, falar em meritocracia sem uma base material mínima é uma ilusão cruel. Ao garantir nutrição e escola para as novas gerações, estamos investindo no capital humano e na estabilidade do país. Enxergar o programa como investimento, e não como gasto, é o primeiro passo para consolidar um futuro verdadeiramente justo.
*André Naves é Defensor Público Federal especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural, escritor e professor. Saiba mais em www.andrenaves.com ou em suas redes sociais @andrenaves.def.
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