Artigo
Câncer de mama: informação traz cura
Autora: Cristina Guimarães Inocêncio* –
O Outubro Rosa chegou e, mais uma vez, estamos aqui para reforçar uma missão que se repete todos os anos, desde o início da década de 1990, quando a campanha começou: ampliar o acesso à informação sobre o câncer de mama. Os números mostram que a incidência da doença vem aumentando no mundo.
Estudo publicado pela The Lancet Oncology projeta que os novos casos passem de 2,3 milhões, em 2023, para mais de 3,5 milhões, em 2050. Ao mesmo tempo, avanços na informação, no diagnóstico precoce e no tratamento têm contribuído para a redução da mortalidade em diferentes partes do mundo.
No Brasil, os desafios são inúmeros. As projeções mais atualizadas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimam até 78 mil novos casos por ano no país no triênio 2026-2028, ante cerca de 73 mil no triênio anterior. Embora as taxas de mortalidade ainda sejam elevadas, elas vêm apresentando redução. Ao mesmo tempo, testemunhamos diariamente em nossos consultórios o aumento da ocorrência da doença entre mulheres mais jovens, um cenário que pode envolver diferentes fatores, entre eles os genéticos e os relacionados ao estilo de vida.
Da informação ao acesso ao tratamento, ainda temos desafios importantes em nosso país. Muitos de nós, profissionais da área da saúde, militamos permanentemente pela melhoria da saúde da mulher e pelo acesso a consultas, exames e tratamentos. Mas essa também é uma responsabilidade individual. É preciso que cada mulher reconheça a importância de cuidar de si e priorize sua saúde. As dificuldades existem, mas não nos desmotivam. Seguimos fazendo a nossa parte e incentivando cada mulher a fazer a dela.
Os mutirões de atendimento do Outubro Rosa são conhecidos em todos os estados brasileiros. São iniciativas provenientes dos mais diferentes segmentos, tendo em comum a priorização do cuidado com as mulheres. Em nossa clínica, a Oncomed, costumamos promover mutirões, além de participar de ações de parceiros. Oferecemos consultas e exames gratuitamente, em nossa sede, e zelamos pela continuidade no amparo à paciente, quando um câncer de mama é detectado.
Esse tipo de trabalho é muito importante, mas ainda insuficiente diante da dimensão do desafio. Por isso, também nos dedicamos a atuar em outra frente, ainda mais relevante: a divulgação de informações. Temos a convicção de que o acesso a informações corretas pode salvar vidas. As estatísticas reforçam essa importância: quando descoberto no início, o câncer de mama tem até 92% de chance de cura. E a detecção precoce passa, necessariamente, pela atitude de buscar atendimento – medida pessoal que depende do conhecimento, mesmo que mínimo, sobre o assunto.
Por isso, a cada mês de outubro (e não somente), estamos aqui, ressaltando a importância das consultas anuais com o ginecologista, do autoexame mensal e da atenção aos sinais e sintomas: caroços nas mamas ou axilas, mudanças na pele e no mamilo e presença de secreções, entre outros. Conhecer o próprio corpo é uma importante ferramenta de autocuidado e pode ajudar a identificar alterações que merecem avaliação médica. O conhecimento também contribui para evitar equívocos no próprio setor de saúde, impedindo que situações sejam avaliadas como mastites ou furúnculos quando, na verdade, podem se tratar de um câncer de mama.
Sim, a informação tem o poder trazer cura e salvar vidas. Assim como a saúde, ela é essencial.
*Cristina Guimarães Inocêncio é oncologista clínica e Sócio-fundadora da Oncomed-MT. É também presidente do Grupo de Apoio ao Paciente Oncológico (Gapcan).
Artigos
Por que o plano de saúde pesa tanto no Brasil
Autor: Mark Ramsook* –
A discussão sobre o futuro dos benefícios de saúde costuma começar pelo aumento dos custos. Novos tratamentos e uma demanda crescente por cuidado vêm pressionando empresas globalmente. Mas olhar apenas para quanto custa oferecer um plano deixa escapar uma questão importante: o papel que esse benefício desempenha não é o mesmo em todos os países. O Brasil é um caso particularmente interessante.
O país combina um sistema público universal com uma saúde suplementar fortemente ligada ao emprego. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os planos de assistência médica somavam 52,9 milhões de vínculos em março de 2026. Desse total, 38,7 milhões estavam em planos coletivos empresariais, cerca de 73%.
Essa configuração dá ao benefício empresarial uma relevância particular na jornada de saúde e fica ainda mais evidente quando o Brasil é comparado a outros mercados. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) considera incomum a configuração do seguro privado de saúde brasileiro. Embora o SUS esteja disponível a toda a população, quem possui plano privado tende a concentrar nele o uso dos serviços de saúde.
Em países como Reino Unido, Irlanda, Nova Zelândia, Itália e Portugal, a dinâmica é diferente. Segundo a OCDE, pessoas com seguro privado continuam recorrendo de forma geral aos sistemas públicos e utilizam a cobertura privada em situações específicas, como para obter acesso mais rápido a determinados diagnósticos ou especialistas. No Reino Unido, estimativas preliminares do Office for National Statistics (ONS) indicam que o seguro voluntário respondeu por 2,8% dos gastos totais com saúde em 2025, enquanto o financiamento governamental representou 81,3%.
Não há um modelo que possa ser simplesmente transportado de um país para outro. Sistemas de saúde refletem escolhas econômicas, regulatórias e sociais. A comparação, porém, ajuda a dimensionar o papel assumido pelas empresas brasileiras.
Essa configuração também muda a forma como o benefício precisa ser administrado. Quando a cobertura oferecida pelo empregador ocupa um espaço relevante na jornada de saúde, decisões sobre desenho do plano, rede de atendimento e acesso ao cuidado ganham maior importância. Conhecer apenas o custo agregado da carteira não basta. É preciso entender onde as despesas estão concentradas, quais grupos demandam maior atenção e como condições crônicas estão sendo acompanhadas.
Prevenção e uso de dados ganham valor nesse contexto. Um plano abrangente no papel também pode perder valor para o profissional se o acesso ao cuidado for difícil ou fragmentado. A qualidade do benefício depende de como a cobertura funciona quando o trabalhador efetivamente precisa utilizá-la.
A comparação internacional não oferece uma fórmula pronta, mas ajuda a enxergar uma característica brasileira que muitas vezes passa despercebida. Por aqui, administrar saúde corporativa significa gerir um benefício que ocupa um espaço particularmente relevante na vida dos profissionais. Compreender essa dimensão é fundamental para responder às necessidades da população coberta e preservar a sustentabilidade dos programas no longo prazo.
*Mark Ramsook é Diretor Global de Serviços da Howden Employee Benefits
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