OPINIÃO
Adriana Saluceste: – Inovação: não deixe para mudar amanhã o que você pode transformar hoje
Inovação: não deixe para mudar amanhã o que você pode transformar hoje
Autora: Adriana Saluceste –
Crises sempre geram perdas, prejuízos e instabilidade, mas também trazem consigo muita reflexão e lições que acabam promovendo avanços e inovações. Principalmente em situações nas quais a ruptura é tão intensa que não resta outra alternativa a não ser se transformar para continuar existindo. E é exatamente isso que estamos vendo acontecer nos últimos meses, em virtude da pandemia de Covid-19. O isolamento social e a paralisação de atividades econômicas contribuíram para acelerar um movimento que já estava em curso, mas que ainda era ignorado por uma grande parcela de negócios e empresas: a transformação digital.
Com o avanço da tecnologia, a ampliação do acesso a recursos digitais e a mudança de comportamento da nova geração de consumidores, muitas empresas já estavam inseridas em uma cultura digital. Para essas organizações, ficou mais fácil reagir e promover uma retomada rápida nos negócios. Mas, para aqueles que estão fazendo agora o que já deveriam ter feito ontem, essa reação está sendo mais lenta.
Algumas tendências tecnológicas que já vinham se desenhando ganharam mais força e adesão. Assinaturas digitais, reconhecimento facial, verificação por geolocalização e soluções baseadas em cloud são alguns exemplos de como as empresas e pessoas estão conseguindo trabalhar e realizar negócios, ainda que a distância. O home office chegou de vez e veio para ficar. O e-commerce ganhou nova dimensão. São mudanças que foram aceleradas durante a pandemia e que continuarão em evolução, contribuindo para produzir efeitos significativos sobre a forma como se trabalha, produz, aprende, cuida da saúde e até se diverte.
E toda essa transformação não é temporária, com prazo para acabar junto com a pandemia. O mundo já se tornou digital e não faz sentido, daqui a pouco, darmos um passo atrás e voltarmos a fazer tudo como fazíamos antes da Covid-19. Vamos voltar para o convívio social, retomar nossas relações, mas com a tecnologia e as ferramentas certas facilitando muito mais a nossa vida. E a facilidade é só uma parte desse ganho. Para alguns, a transformação digital vai trazer escalabilidade, para outros, mais segurança em seus negócios, ou ganho de tempo e aumento de produtividade; e alguns setores vão conseguir vislumbrar oportunidades antes ignoradas ou até inexistentes.
O mercado pós-pandemia vai exigir ainda mais eficiência e inovação. Depois de avançar tanto, não é possível – e nem desejado – recuar. A oportunidade está dada para aqueles que captarem mais rapidamente todas as tendências de transformação que estão em curso. E quando se trata de inovação, é bom que todos tenham aprendido uma das lições dessa pandemia: não deixe para mudar amanhã o que você pode transformar hoje.
Adriana Saluceste é diretora de Tecnologia e Operações da Tecnobank.
Artigos
Transplante de microbiota fecal e mais um importante avanço da medicina
Autor: Fernando Bray* –
Parece papo de ficção científica: transplantar fezes de uma pessoa saudável para tratar uma doença. Porém, esse procedimento, chamado de Transplante de Microbiota Fecal (TMF) ou, simplesmente, transplante fecal, já é realidade na medicina — e vem ajudando pacientes que não respondiam a nenhum outro tratamento a recuperar a saúde intestinal e a qualidade de vida.
Para entender como funciona e para quem é indicado esse tipo de tratamento, é preciso explicar como funciona o nosso intestino. Ele abriga trilhões de micro-organismos, entre bactérias, vírus, fungos e outros seres microscópicos que formam a chamada microbiota intestinal, além de arqueas e substâncias produzidas por esse ecossistema, como ácidos graxos de cadeia curta e metabólitos que conversam diretamente com o nosso sistema imunológico.
Quando essa comunidade microbiana está equilibrada, ela ajuda a digerir alimentos, produzir vitaminas, regular a imunidade e até proteger contra infecções.
Mas, certas condições, como o uso repetido de antibióticos, podem destruir esse equilíbrio, abrindo espaço para bactérias agressivas dominarem o intestino.
O transplante de microbiota fecal consiste em transferir fezes de um doador saudável, previamente tirado e testado, para o intestino de um paciente, com o objetivo de restaurar essa comunidade microbiana benéfica. Mais do que uma “reposição de bactérias”, o procedimento pode ser traduzido também como uma verdadeira transferência de informação para o sistema imunológico.
Atualmente, a indicação para o TMF com aprovação formal e comprovação científica sólida é o tratamento da infecção recorrente ou refratária por Clostridioides difficile (C. difficile), uma bactéria que pode causar diarreia grave e recorrente, especialmente após o uso prolongado de antibióticos.
Estudos mostram taxas de cura entre 65% e 80% já na primeira infusão, chegando a até 95% com tratamentos repetidos — números muito superiores aos obtidos apenas com antibióticos nesses casos difíceis.
Outras aplicações do transplante têm sido pesquisadas, ainda sem aprovação para uso rotineiro, como na Doença de Crohn e retocolite ulcerativa, síndrome do intestino irritável e constipação crônica, além de doenças metabólicas, como obesidade, diabetes tipo 2 e resistência à insulina; doenças autoimunes; e condições neurológicas, como Parkinson e esclerose múltipla, e até o espectro autista. Para essas condições, vale reforçar, o transplante fecal ainda é experimental. Os resultados são promissores em alguns estudos, mas insuficientes para recomendação de rotina fora de protocolos de pesquisa.
O processo passa por etapas bem definidas, pensadas para garantir segurança e eficácia, desde a seleção rigorosa do doador, com investigação de doenças crônicas, infecciosas e intestinais, histórico de viagens, uso de medicamentos, tatuagens recentes e outros fatores de risco, o preparo do material fecal em laboratório, seguindo protocolos específicos, até chegar na administração ao paciente, por uma das vias possíveis: endoscopia digestiva alta, sonda nasoentérica, cápsulas orais (congeladas ou liofilizadas), colonoscopia ou enema, a depender da doença e da região do intestino que precisa ser tratada.
Essa flexibilidade de vias é, justamente, uma das razões pelas quais o transplante fecal tem sido adaptado para diferentes indicações clínicas.
Agora, como qualquer procedimento médico, o transplante fecal exige critérios rigorosos de segurança. O principal risco é a transmissão de patógenos presentes nas fezes do doador, incluindo bactérias multirresistentes, vírus ou outros micro-organismos indesejados. Por isso, a triagem do doador é extensa e inclui exames de sangue e fezes, questionários de saúde detalhados e reavaliações periódicas. Há um grande rigor e esse é um dos motivos que torna encontrar um doador uma tarefa complexa.
Com um profissional especializado e a busca certa de doadores, o transplante de microbiota acompanha a evolução da medicina e se transforma em recurso diferenciado na qualidade de vida do paciente. A saúde do intestino influencia muito mais do que a digestão, ela está ligada à imunidade, ao metabolismo e até ao bem-estar geral. Quem convive com infecções intestinais recorrentes, doença inflamatória intestinal, constipação persistente ou outros sintomas digestivos que atrapalham sua rotina, o primeiro passo é buscar uma avaliação especializada.
*Fernando Bray é médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde
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