Artigo
A Beleza da Alma
Autora: Kamila Garcia* –
A ideia de “beleza da alma” tem raízes profundas na história da humanidade, atravessando diferentes épocas e filosofias. Na Grécia Antiga, Platão foi um dos primeiros a conectar a beleza interior à virtude, argumentando que a verdadeira beleza transcende o físico e reside na pureza do caráter e na busca pelo bem. Para ele, a alma bela era aquela alinhada com a justiça, a verdade e a sabedoria.
Com o advento do cristianismo, a beleza da alma foi associada ao amor divino e à bondade moral. Os teólogos medievais, como Santo Agostinho, destacaram que a alma bela é aquela que reflete os atributos de Deus, como o amor, a compaixão e a pureza espiritual. Já nas filosofias orientais, como no budismo e no hinduísmo, a beleza interior está ligada ao desapego, à harmonia e ao autoconhecimento, princípios que permitem alcançar a iluminação.
Na contemporaneidade, o conceito de beleza da alma evoluiu para incluir a autenticidade, a empatia e a capacidade de se conectar com os outros de forma profunda e sincera. Psicólogos e filósofos modernos reforçam que a verdadeira beleza vem do equilíbrio entre emoções, pensamentos e ações, e de um senso de propósito que transcende as aparências.
Durante sua jornada cármica e evolutiva, cada ser humano se dedica a lapidar sentimentos, aprimorar relacionamentos e aprofundar o entendimento da alma. Esse processo transforma cada experiência de amor em um legado único, repleto de paz e união.
Todos os dias somos convidados a exercer a bondade de forma genuína e espontânea. Em essência, o ser humano é bom, mesmo diante dos desafios da vida. Não há quem esteja completamente isento de contratempos, dores ou aborrecimentos. Todos enfrentamos momentos de reclamação, exasperação ou discussão. Ainda assim, a bondade e o potencial de amar permanecem inerentes à essência humana.
O amor é a maior expressão da beleza da alma. Ele transcende explicações, sendo um sentimento profundo, sentido por quem verdadeiramente o vivencia. A beleza da alma está no olhar que percebe o que há de mais oculto em cada ser: um gesto bondoso, um cuidado tímido, um sorriso discreto, um carinho ou até mesmo um simples agradecimento.
Essa beleza não é captada pelos olhos nem ouvida pelos ouvidos. Ela é multissensorial, dialogando diretamente com o coração e com as emoções, trazendo paz, felicidade e contentamento. O amor torna cada pessoa única em suas relações, moldando a forma como ela percebe o mundo e se conecta com os outros. A verdadeira beleza da alma emerge quando sentimentos, pensamentos e ações encontram harmonia, permitindo que cada indivíduo ofereça o melhor de si em atenção, atitudes e tempo dedicado.
A beleza da alma se revela em cada gesto de respeito, consciência sobre as relações humanas e cuidado com pensamentos, palavras e ações. O amor é o bálsamo que cura uma alma ferida pelo passar do tempo, permitindo o renascimento de novas esperanças e propósitos.
É com amor que cuidamos uns dos outros, curando mágoas, sofrimentos e memórias dolorosas. Quem ama de verdade perdoa o passado, renovando suas forças com luz, coragem e resiliência para seguir em frente, rumo à felicidade.
A beleza da alma também está na força de quem escolhe sorrir, mesmo diante de adversidades. É uma luz multicolorida que toma a forma necessária para cada momento, criando um elo inquebrantável de amor.
Por fim, a beleza da alma reflete-se nos olhos de quem ama. Ela pertence àqueles que decidem espalhar amor pelo mundo, vivendo com o sublime amor de Deus e plantando, a cada dia, novas sementes de esperança e união.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Atualmente, ela equilibra sua rotina entre o trabalho e estudos em Psicanálise e Psicologia Positiva, além de se dedicar às terapias holísticas. Como coach, Kamila utiliza seus conhecimentos para compartilhar insights sobre espiritualidade, ajudando seus clientes a alcançar um maior bem-estar e autoconhecimento.
Artigos
Ferir quem cuida é ferir a saúde de todos
Autora: Bruna Santiago* –
Existe uma violência que, por muito tempo, foi tratada quase como parte da rotina de quem trabalha na saúde. É o xingamento durante o plantão, a ameaça porque o atendimento demorou, a intimidação, a invasão de uma sala e, nos casos mais graves, a agressão física.
Quem trabalha em hospital, UPA, policlínica ou unidade básica sabe exatamente do que estou falando.
Sou enfermeira. Vivi a realidade dos plantões e, ao longo dos últimos anos, conheci unidades de saúde em diferentes regiões de Mato Grosso, conversei com profissionais e ouvi relatos de situações que nunca deveriam ser consideradas normais.
A frustração de quem espera atendimento precisa ser ouvida. A população tem todo o direito de cobrar quando faltam profissionais, medicamentos, exames e leitos ou quando o serviço demora além do razoável. O que não podemos admitir é que problemas do sistema sejam descarregados sobre o trabalhador que está na linha de frente tentando manter o atendimento funcionando.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), mostrou que, em Mato Grosso, 23,1% dos profissionais pesquisados afirmaram sofrer violência no ambiente de trabalho e outros 11,1% disseram que isso ocorria “às vezes”. Entre as modalidades relatadas, a violência psicológica predominava.
Embora o levantamento retrate uma realidade pesquisada anos atrás, episódios recentes mostram que o problema permanece. Somente em 2026, o Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT) voltou a cobrar providências depois de agressões envolvendo profissionais em unidades de Várzea Grande e Cuiabá.
Até quando vamos esperar o próximo caso?
Uma agressão não termina quando acaba o plantão. Algumas marcas são visíveis, outras acompanham o profissional por muito mais tempo: medo de voltar ao trabalho, ansiedade, insegurança, perda da satisfação profissional e sensação de abandono.
Estudos também vêm demonstrando que a violência ocupacional está associada a consequências para a saúde mental e para a própria atividade profissional. Pesquisa publicada em 2026, envolvendo profissionais de Enfermagem, identificou relatos de violência no trabalho em quase metade dos participantes, com predominância das agressões verbais e repercussões como estresse e perda da satisfação profissional.
Não podemos exigir cuidado humanizado de profissionais que trabalham permanentemente com medo.
E existe outro aspecto que precisa ser compreendido: quando um trabalhador da saúde sofre violência, a consequência não fica restrita a ele. Ela chega ao paciente.
Pesquisas brasileiras já identificaram relação entre a violência sofrida por profissionais e aspectos do cuidado, como apoio, respeito, tempo dedicado ao paciente e comportamentos relacionados à segurança. Quando um enfermeiro entra no plantão com medo, todos perdem. Quando uma técnica de Enfermagem adoece e precisa se afastar, uma equipe que muitas vezes já trabalha no limite fica ainda mais sobrecarregada. Quando profissionais deixam determinados serviços por insegurança, a população também sofre as consequências.
Cria-se um ciclo perverso: o paciente enfrenta as deficiências da rede, transforma sua indignação em agressão contra quem está na ponta, o profissional adoece ou se afasta e o sistema fica ainda mais fragilizado.
Quebrar esse ciclo exige mais do que notas de repúdio. É necessário melhorar a segurança das unidades, estabelecer protocolos para situações de ameaça e agressão, garantir o registro das ocorrências, oferecer apoio psicológico e jurídico às vítimas e responsabilizar quem ultrapassa os limites da cobrança legítima e pratica violência.
Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar fatores que frequentemente alimentam situações de conflito: superlotação, demora excessiva, falta de profissionais e de informações para pacientes e familiares. Nada disso justifica uma agressão, mas melhorar as condições de atendimento também faz parte da prevenção.
O país começa a avançar na discussão sobre uma proteção legal maior aos trabalhadores da saúde, mas nenhuma legislação, isoladamente, resolverá o problema. É necessária uma mudança institucional e também cultural.
Durante minha experiência na Enfermagem e no Coren-MT, aprendi que proteger quem trabalha na saúde não significa colocar profissionais e pacientes em lados opostos.
Estamos do mesmo lado.
O paciente merece entrar em uma unidade e encontrar um atendimento digno. O profissional merece entrar no mesmo lugar sabendo que poderá exercer seu trabalho com respeito e segurança.
Uma saúde verdadeiramente humana precisa cuidar dos dois.
Porque ferir quem cuida é ferir a saúde de todos.
*Bruna Santiago é a presidente licenciada do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT)
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