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A crise estrutural da Justiça Brasileira

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Autor: Eduardo Berbigier*

Há muitos anos, o sistema judiciário brasileiro se encontra em um ponto de estrangulamento permanente. A morosidade processual, que frequentemente se estende por mais de uma década para decisões definitivas, tanto para indivíduos quanto para empresas, é um sintoma alarmante de um mal-estar estrutural.

Códigos foram e continuam sendo reformados; vieram a certificação digital e a digitalização dos processos; os métodos alternativos de resolução de conflitos, como a mediação e a conciliação, as sustentações orais por meio de vídeo e inúmeras outras iniciativas. Ainda assim, os fóruns e varas judiciais continuam transbordando de processos aguardando solução. Vale ressaltar também que estamos prestes a criar uma justiça especializada em questões relacionadas à reforma tributária em andamento.

Seria culpa de falha operacional, ineficiência de pessoal, excesso de burocracia, má gestão, deficiência tecnológica, carência de profissionais qualificados, ou uma combinação de todos esses fatores? A quem e a quais interesses essa situação atende?

A questão central que emerge dessa realidade é: Existe uma solução definitiva e eficiente para esse entrave? E, mais importante, como implementá-la?

A sobrecarga do Judiciário não é um fenômeno recente, mas sua persistência e agravamento demandam uma análise profunda e ações concretas. A lentidão na entrega da justiça não é apenas uma inconveniência; ela mina a confiança no sistema, prejudica o desenvolvimento econômico e, em última instância, resulta em insegurança jurídica. Em muitos casos, a demora na decisão final torna o próprio direito reconhecido inócuo.

As causas são multifacetadas e complexas. A burocracia excessiva, herança de procedimentos arcaicos, impõe um ritmo aquém do necessário em um mundo cada vez mais dinâmico. A insuficiência de pessoal qualificado em diversas áreas, aliada a uma má gestão de recursos, tanto humanos quanto materiais, agrava o quadro. A falta de investimento em modernização tecnológica perpetua um modelo operacional defasado.

Ademais, o volume crescente de litígios no país, muitas vezes impulsionado por questões sociais e econômicas complexas, pressiona ainda mais um sistema já fragilizado. A necessidade de profissionais qualificados também se faz sentir, desde a formação continuada até a alocação estratégica de magistrados e servidores.

A busca por uma solução definitiva para esse gargalo exige uma visão holística e integrada. Não se trata de uma medida isolada, mas de um conjunto de reformas estruturais que abordem as diversas frentes do problema.

A implementação dessas soluções exige vontade política firme, determinação e compromisso do governo, de seus líderes e de outros atores políticos (como a comunidade jurídica) na tomada de decisões que visem solucionar o problema da morosidade do sistema judiciário brasileiro.

Essa necessidade urgente de ação, contudo, esbarra na inércia e na aparente falta de prioridade do Governo Federal em relação à pauta da eficiência e da celeridade judiciária. A mera menção à “vontade política” no discurso não se traduz em um plano de governo consistente, em alocações orçamentárias adequadas ou na liderança articulada de uma reforma sistêmica.

Ao invés de promover investimentos maciços em tecnologia, gestão e na racionalização de processos, o executivo federal opta por medidas paliativas ou, pior, permite o agravamento da situação, deixando de atuar como o principal motor para a desburocratização e a modernização que o país clama. A passividade do governo frente a um problema que afeta diretamente a segurança jurídica e a atração de investimentos estrangeiros revela uma visão míope, que coloca interesses políticos imediatos acima das necessidades estruturais da nação.

A morosidade do Judiciário, portanto, não é apenas uma falha interna, mas também um reflexo direto da omissão e da insuficiência da gestão federal em coordenar e financiar as transformações indispensáveis. A falha em prover um sistema de justiça célere e eficaz configura uma grave violação do direito fundamental à prestação jurisdicional em tempo razoável, consagrado constitucionalmente. Se o governo federal é incapaz de liderar a solução para um problema de tal magnitude e impacto social e econômico, compromete a própria legitimidade do Estado perante o cidadão, que se vê desprotegido e vitimado pela lentidão. É imperativo que o executivo assuma sua responsabilidade constitucional, deixando a retórica de lado e engajando-se ativamente na construção de um Judiciário verdadeiramente ágil e funcional, sob pena de perpetuar um estado de insegurança jurídica que paralisa o desenvolvimento e a dignidade brasileira.

Em essência, é preciso haver a disposição e vontade política para agir em prol dessa causa. Não faltam entidades e associações jurídicas para trabalhar em benefício de um Judiciário que entregue aos cidadãos seus direitos de modo adequado e em tempo razoável. Só assim, garantimos que suas prerrogativas sejam protegidas contra abusos do Estado e promovemos o bem-estar e a dignidade humana em nossa sociedade.

*Eduardo Berbigier é advogado tributarista, especialista em Agronegócio, membro dos Comitês Juridico e Tributário da Sociedade Rural Brasileira e CEO do Berbigier Sociedade de Advogados.

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Canetas para emagrecimento podem ajudar a reduzir o risco de câncer?

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Autora: Mariana Ramos*

As chamadas “canetas para emagrecimento” vêm transformando o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Mas os benefícios desses medicamentos podem ir além da perda de peso. Estudos recentes sugerem que eles também podem estar associados à redução do risco de alguns tipos de câncer relacionados à obesidade, uma hipótese que tem despertado crescente interesse entre pesquisadores de todo o mundo.

Inicialmente desenvolvidos para o controle do diabetes tipo 2, fármacos como a semaglutida e a tirzepatida ganharam destaque mundial pela capacidade de promover perda de peso significativa e melhorar diversos indicadores metabólicos.

Agora, uma nova frente de pesquisas vem ganhando destaque: a possibilidade de que esses medicamentos também contribuam para reduzir o risco de alguns tipos de câncer relacionados à obesidade.

A relação entre obesidade e câncer já é amplamente conhecida pela medicina. O excesso de gordura corporal está associado a um estado de inflamação crônica de baixo grau, alterações hormonais e resistência à insulina, fatores que podem favorecer o desenvolvimento de diferentes tipos de tumores.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade está relacionada ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer, incluindo câncer de mama pós-menopausa, intestino, fígado, rim, pâncreas e endométrio.

Nesse contexto, pesquisadores passaram a investigar se os medicamentos capazes de promover perda de peso expressiva também poderiam contribuir para reduzir esse risco.

Estudos observacionais publicados nos últimos anos apontaram que pacientes tratados com agonistas do receptor de GLP-1, grupo ao qual pertence a semaglutida, apresentaram menor incidência de alguns cânceres associados à obesidade quando comparados a indivíduos com características semelhantes que não utilizaram essas medicações. Em uma análise apresentada no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) em 2025, envolvendo mais de 170 mil adultos com obesidade e diabetes, pessoas que utilizaram essas medicações apresentaram menor risco de desenvolver cânceres relacionados à obesidade quando comparadas àquelas que utilizavam outros medicamentos para o diabetes.

Além da perda de peso, os pesquisadores avaliam a hipótese de que esses medicamentos possam exercer efeitos biológicos adicionais, como a redução de processos inflamatórios, melhora da sensibilidade à insulina e modulação de mecanismos metabólicos que influenciam o crescimento celular.

Entretanto, é importante destacar que ainda não existem evidências suficientes para afirmar que esses medicamentos previnem câncer de forma direta. A maior parte dos dados disponíveis é baseada em estudos observacionais, que demonstram associações, mas não estabelecem necessariamente uma relação de causa e efeito.

Especialistas ressaltam que serão necessários estudos clínicos de longo prazo para confirmar se a redução do risco observada está relacionada exclusivamente à perda de peso ou se existe algum mecanismo protetor específico proporcionado pelos medicamentos.

Outra área que desperta interesse científico é o possível impacto dessas terapias em pacientes já diagnosticados com câncer. Pesquisas preliminares investigam se a melhora do perfil metabólico e a redução da inflamação poderiam influenciar positivamente a resposta a determinados tratamentos oncológicos. No entanto, essa hipótese ainda está em fase inicial de investigação e não faz parte das recomendações clínicas atuais.

O que já se sabe com segurança é que combater a obesidade representa uma das estratégias mais importantes para a prevenção de doenças crônicas. Além de reduzir o risco cardiovascular, melhorar o controle glicêmico e aumentar a qualidade de vida, a perda de peso também está associada à diminuição de fatores que contribuem para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer.

Por isso, o surgimento de tratamentos cada vez mais eficazes para a obesidade representa um avanço relevante para a saúde pública. À medida que a obesidade é reconhecida como uma doença crônica complexa e um importante fator de risco para diversas enfermidades, incluindo o câncer, torna-se ainda mais evidente a importância de ampliar o acesso a tratamentos eficazes e baseados em evidências.

Mais do que uma questão estética, o controle do peso corporal deve ser compreendido como parte fundamental da prevenção de doenças e da promoção da longevidade.

A ciência continua investigando os possíveis benefícios adicionais dessas medicações. Os resultados iniciais são promissores, mas ainda exigem cautela, acompanhamento e validação por novos estudos.

Embora ainda não possam ser considerados medicamentos para prevenção do câncer, os agonistas de GLP-1 vêm ampliando a compreensão sobre os impactos do tratamento da obesidade na saúde a longo prazo. Se os resultados observados até agora forem confirmados por estudos futuros, poderemos estar diante de mais um benefício relevante dessas terapias que já revolucionaram o tratamento da obesidade.

Até lá, a principal mensagem permanece a mesma: prevenir e tratar a obesidade é investir em mais saúde, qualidade de vida e proteção contra inúmeras doenças.

*Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.

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