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ARTIGO

O ministério da saúde não adverte

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Autor: Manoel Vicente de Barros

Feito para te viciar, é uma forma de ocupar as mãos, deixa pessoas tímidas mais confortáveis, um companheiro para os momentos de solidão que cabe no seu bolso, poderia estar descrevendo um maço de cigarros, mas esse é o seu aparelho celular.

Designers são velhos aliados da indústria do tabaco, desenham um produto que pareça elegante, sabores diferentes tornam fumaça mais palatável, versões mais finas e com o rótulo “light” parecem mais seguras. A indústria quer fumantes e continuam pensando em como atrair novos usuários.

Da mesma forma, aplicativos de smartphones são milimetricamente desenhados para te viciar. Do outro lado da tela existem centenas de programadores com um único objetivo: captar sua atenção.

Uma vibração ou alerta desperta a expectativa de recompensa, um trago que te prende em um fluxo de informações desnecessárias, enquanto capturam seus dados para retroalimentar o ciclo.

Disfarçados de ferramenta útil, aplicativos podem dominar seu tempo e te distanciar de fontes de prazer valorosas. Para quem está preso no ciclo de olhar a tela a cada minuto, se desconectar induz abstinência. Você se torna, literalmente, um usuário. Com login e senha.

O tabagismo também é estimulado pela ansiedade social, é um fator que dificulta inclusive os que querem abandonar o fumo. Em festas ou reuniões, fumantes se descrevem desajustados, sem saber o que fazer com as mãos se não tiverem um cigarro ao alcance.

Hoje, recorreremos facilmente às telas. Não existe desajuste social em mexer no celular sozinho, assuntos intensos e desconfortáveis são apaziguados em checagens repetidas às notificações. Se todos conversam em uma mesa, você não precisa interagir, abra seu feed que está tudo bem.

Como uma profecia autocumprida, o desconforto com interações induzem um hábito que mina ainda mais o estabelecimento de vínculo, intimidade e traquejo social.

Solidão também estimula ambos os vícios, morar sozinho é um fator de risco para diversas dependências. O cigarro é descrito como um companheiro. Um celular conquista com a falsa sensação de conexões reais.

Crianças que competem demais com as telas dos pais acabam ganhando uma para ficarem no silencioso. Nós levamos celulares para a cama e, como consequência, nunca dormimos tão mal. Assistir um filme completo sem acessar redes sociais parece um sacrifício. Eles estão na mesa de jantar, entre uma garfada e outra, só aquela conferida, por que não?

Os mais modernos estudos em dependências apontam que o que determina a gravidade e os prejuízos do quadro não é a droga em si, mas a relação estabelecida com ela.

Alguém que tenha outras fontes de prazer, consegue, com mais facilidade, se afastar do hábito ou substância.

O problema é que pessoas, livros e boas músicas não tem feeds, desenhados especificamente para te agradar, te curtir, nem recebem atualizações semanais para se tornarem mais viciantes.

Celulares, por sorte, não causam câncer, mas podem te distanciar do que realmente importa para você. Isso o ministério da saúde não adverte.

Não se deixar levar pelo fluxo viciante e uso compulsivo de celulares é um esforço ativo, exige que você nade contra a maré.

Criar cômodos sem celulares na casa, horários para se desconectar e silenciar todas as notificações possíveis é um ótimo caminho para começar.

E se você está lendo esse texto em sua tela de bolso, sem neuras, mas modere o uso, se afaste do próximo trago. Pare, olhe ao redor, converse com quem estiver por perto. Faz um dia lindo lá fora

Manoel Vicente de Barros é Psiquiatra em Cuiabá e atua no tratamento de Depressão e Ansiedade, CRM 8273, RQE 4866. Instagram: @dr.manoelvicente

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Artigos

Canetas para emagrecimento podem ajudar a reduzir o risco de câncer?

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Autora: Mariana Ramos*

As chamadas “canetas para emagrecimento” vêm transformando o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Mas os benefícios desses medicamentos podem ir além da perda de peso. Estudos recentes sugerem que eles também podem estar associados à redução do risco de alguns tipos de câncer relacionados à obesidade, uma hipótese que tem despertado crescente interesse entre pesquisadores de todo o mundo.

Inicialmente desenvolvidos para o controle do diabetes tipo 2, fármacos como a semaglutida e a tirzepatida ganharam destaque mundial pela capacidade de promover perda de peso significativa e melhorar diversos indicadores metabólicos.

Agora, uma nova frente de pesquisas vem ganhando destaque: a possibilidade de que esses medicamentos também contribuam para reduzir o risco de alguns tipos de câncer relacionados à obesidade.

A relação entre obesidade e câncer já é amplamente conhecida pela medicina. O excesso de gordura corporal está associado a um estado de inflamação crônica de baixo grau, alterações hormonais e resistência à insulina, fatores que podem favorecer o desenvolvimento de diferentes tipos de tumores.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade está relacionada ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer, incluindo câncer de mama pós-menopausa, intestino, fígado, rim, pâncreas e endométrio.

Nesse contexto, pesquisadores passaram a investigar se os medicamentos capazes de promover perda de peso expressiva também poderiam contribuir para reduzir esse risco.

Estudos observacionais publicados nos últimos anos apontaram que pacientes tratados com agonistas do receptor de GLP-1, grupo ao qual pertence a semaglutida, apresentaram menor incidência de alguns cânceres associados à obesidade quando comparados a indivíduos com características semelhantes que não utilizaram essas medicações. Em uma análise apresentada no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) em 2025, envolvendo mais de 170 mil adultos com obesidade e diabetes, pessoas que utilizaram essas medicações apresentaram menor risco de desenvolver cânceres relacionados à obesidade quando comparadas àquelas que utilizavam outros medicamentos para o diabetes.

Além da perda de peso, os pesquisadores avaliam a hipótese de que esses medicamentos possam exercer efeitos biológicos adicionais, como a redução de processos inflamatórios, melhora da sensibilidade à insulina e modulação de mecanismos metabólicos que influenciam o crescimento celular.

Entretanto, é importante destacar que ainda não existem evidências suficientes para afirmar que esses medicamentos previnem câncer de forma direta. A maior parte dos dados disponíveis é baseada em estudos observacionais, que demonstram associações, mas não estabelecem necessariamente uma relação de causa e efeito.

Especialistas ressaltam que serão necessários estudos clínicos de longo prazo para confirmar se a redução do risco observada está relacionada exclusivamente à perda de peso ou se existe algum mecanismo protetor específico proporcionado pelos medicamentos.

Outra área que desperta interesse científico é o possível impacto dessas terapias em pacientes já diagnosticados com câncer. Pesquisas preliminares investigam se a melhora do perfil metabólico e a redução da inflamação poderiam influenciar positivamente a resposta a determinados tratamentos oncológicos. No entanto, essa hipótese ainda está em fase inicial de investigação e não faz parte das recomendações clínicas atuais.

O que já se sabe com segurança é que combater a obesidade representa uma das estratégias mais importantes para a prevenção de doenças crônicas. Além de reduzir o risco cardiovascular, melhorar o controle glicêmico e aumentar a qualidade de vida, a perda de peso também está associada à diminuição de fatores que contribuem para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer.

Por isso, o surgimento de tratamentos cada vez mais eficazes para a obesidade representa um avanço relevante para a saúde pública. À medida que a obesidade é reconhecida como uma doença crônica complexa e um importante fator de risco para diversas enfermidades, incluindo o câncer, torna-se ainda mais evidente a importância de ampliar o acesso a tratamentos eficazes e baseados em evidências.

Mais do que uma questão estética, o controle do peso corporal deve ser compreendido como parte fundamental da prevenção de doenças e da promoção da longevidade.

A ciência continua investigando os possíveis benefícios adicionais dessas medicações. Os resultados iniciais são promissores, mas ainda exigem cautela, acompanhamento e validação por novos estudos.

Embora ainda não possam ser considerados medicamentos para prevenção do câncer, os agonistas de GLP-1 vêm ampliando a compreensão sobre os impactos do tratamento da obesidade na saúde a longo prazo. Se os resultados observados até agora forem confirmados por estudos futuros, poderemos estar diante de mais um benefício relevante dessas terapias que já revolucionaram o tratamento da obesidade.

Até lá, a principal mensagem permanece a mesma: prevenir e tratar a obesidade é investir em mais saúde, qualidade de vida e proteção contra inúmeras doenças.

*Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.

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