UM OLHAR PARA O SEU ELEITOR
Se os candidatos a prefeito e vereadores não têm propostas para a crise climática, fuja que é cilada
Setembro começou com a intensificação da campanha eleitoral para prefeitos e vereadores em todo o Brasil, que chegou também com o Horário Eleitoral às emissoras de TV e Rádio país afora. E os candidatos vão mais e mais às ruas para distribuir “santinhos” e tentar conquistar eleitores.
Outra “novidade” que chegou em setembro é uma intensa onda de calor tomando conta da maior parte do território brasileiro, do Norte ao Sul do país, mais uma, em pleno inverno. Com temperaturas ficando até 5ºC acima da média em várias regiões quase até meados do mês, meteorologistas já preveem que poderemos ter o setembro mais quente já registrado de todos os tempos.
O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. Vivemos em cidades: é em aglomerados urbanos que residem mais de 60% dos brasileiros. É nelas que sentimos esse calor infernal. Que sofremos com temporais que alagam, provocam deslizamentos, desalojam, desabrigam e matam, como se viu no Rio Grande do Sul em maio. Que ficamos sem água por causa de uma seca histórica que atinge quase 4.000 dos 5.570 municípios brasileiros. Que respiramos um ar poluído, seja pela fumaça dos incêndios na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado, mesmo a milhares de quilômetros de distância, seja pela fumaça de carros, caminhões, ônibus, indústrias e termelétricas que queimam combustíveis fósseis.
E é nas cidades que vemos que não estamos preparados para os eventos cada vez mais frequentes e intensos relacionados às mudanças climáticas, causadas principalmente pela queima de petróleo, gás fóssil e carvão. Mas também pelo desmatamento e por práticas devastadoras da agricultura e da pecuária, como a queimada, mesmo a milhares de quilômetros de distância.
Por isso é fundamental que candidatos a prefeito e vereadores apresentem planos de ação para enfrentar a crise climática. Principalmente para preparar as cidades para esse “novo anormal” de calor, chuvas e secas intensos, mas também para reduzir a emissão de gases do efeito estufa.
A crise climática é um tema que atravessa todas as áreas de uma gestão municipal. Com calor extremo, mais mosquitos e mais poluição do ar, mais pessoas são afetadas, pressionando os sistemas públicos de saúde. Secas afetam o abastecimento de água. Inundações e deslizamentos ameaçam a vida de milhares de pessoas, acabam com a infraestrutura urbana e alteram o ir e vir da população. Escolas são fechadas, sejam por causa do calor, seja pelo excesso de chuvas. Toda cidade agora tem de se adaptar para resistir a esses eventos, evitar os piores impactos e preservar vidas.

Se o apelo social não é suficiente, basta fazer as contas: as mudanças climáticas aumentam os gastos e diminuem a arrecadação. Os bilhões de reais injetados em algumas prefeituras do nosso querido Brasil, que teve de negociar suas dívidas por ter perdido tributos, é um exemplo. Algo que nenhum prefeito ou vereador quer que aconteça na sua cidade.
É aí que está o grave problema da atual campanha eleitoral. Apesar dessa realidade, e embora 97% da população brasileira declare perceber as mudanças climáticas, como mostrou uma recente pesquisa do Datafolha, o tema passa longe das propostas da imensa maioria de candidatos a prefeitos e vereadores.
É como se as imagens dramáticas que todos nós vimos e vivemos nos últimos meses não tivessem existido. A maior parte das campanhas eleitorais esta esquecida com toda essa situação climática. Exemplo disso temos; Manaus e Porto Velho, na Amazônia, com um ar quase irrespirável; Cuiabá torrando sob um calor incomum; e a pequena Assis Brasil, no Acre, decretando situação de emergência por sofrer com uma seca intensa e inesperada.
Calor, seca, tempestades, enchentes: o que prefeitos e vereadores têm a ver com isso?
Os políticos locais devem começar mapeando áreas de risco de enchentes e deslizamentos e planejando rotas seguras de fuga, além de obras que adaptem esses locais a chuvas mais intensas e frequentes.
O calor não é menos perigoso. Casas populares não são construídas normalmente pensando em ventilação adequada, muito pelo contrário. Serviços ao ar livre, inclusive obras públicas e particulares, devem considerar as temperaturas muito elevadas, pelo bem dos trabalhadores.
Estes são alguns exemplos de adaptação, mas existem muitos outros.

Tem mais: quando se fala em mudanças climáticas, o imaginário costuma nos levar a grandes decisões políticas, tomadas por líderes dos países. E isso está correto em parte. Pois a micropolítica, a política do dia a dia, da rua, do bairro, é também importante para conter a crise climática. Estimular o transporte público de qualidade, de preferência eletrificando os meios de transporte urbano, e gerir adequadamente os resíduos sólidos são pontos mínimos a serem levados em consideração.
É preciso administrar efeitos das mudanças do clima enquanto não conseguimos acabar com elas, mas sem esquecer que todos têm um papel a cumprir para enfrentar essa crise. Por isso é tão importante que prefeitos e vereadores estejam engajados nessa tarefa. Por isso candidatos a esses cargos têm de ter a questão climática em seus planos.
Não importa se você mora numa grande metrópole como São Paulo, com seus quase 12 milhões de habitantes, ou na pequena no interior de seu estado, ou em uma cidade menos populosa do Brasil. Se os candidatos a prefeito e vereadores não têm propostas para a crise climática, fuja que é cilada. E busque aqueles que tratam do tema com a seriedade e a urgência que ele pede. É a sua vida que está em jogo.
Política
Desdobramentos políticos e a pressão pela CPI na Assembleia Legislativa de Mato Grosso
A deflagração da “Operação Heritage” pela Polícia Federal (PF), com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), reacendeu a pressão política na Assembleia Legislativa de Mato Grosso para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). A iniciativa busca investigar supostas irregularidades em contratos consignados e o pagamento de precatórios que somam R$ 308 milhões em benefício da empresa de telefonia Oi S.A.
Atualmente, o requerimento oposicionista conta com sete assinaturas, necessitando de apenas mais uma adesão para que seja realizada a leitura oficial em Plenário e iniciado o processo formal de apuração no âmbito legislativo estadual.
Quem são os envolvidos:
As investigações da Polícia Federal atingem diretamente figuras centrais do cenário político mato-grossense, incluindo o grupo político do ex-governador Mauro Mendes (UB) e a gestão do atual governador Otaviano Pivetta (Republicanos). Entre os alvos que sofreram mandados de busca e apreensão e bloqueio de bens, figuram a ex-primeira-dama Virgínia Mendes, seus três filhos, além do ex-secretário de Estado Mauro Carvalho e seus familiares.
No parlamento, destacam-se as atuações dos deputados Valdir Barranco (PT), defensor da comissão; Diego Guimarães, representante da base governista; e Júlio Campos, que adota uma postura intermediária.

Quando os fatos se deram:
A deflagração das medidas ostensivas da Operação Heritage ocorreu na última quinta-feira, dia 6, deflagrando um efeito imediato nas articulações parlamentares do Estado. A intensificação dos debates sobre a criação da CPI e as manifestações públicas dos deputados estaduais ocorreram nesta quarta-feira, dia 12. O contexto temporal ganha relevância adicional por situar-se a menos de 55 dias do pleito eleitoral e próximo ao recesso do Poder Legislativo, elemento que influencia diretamente o ritmo e a viabilidade das negociações políticas na Casa de Leis.
Onde a apuração se concentra:
O foco principal das diligências e das discussões institucionais está sediado na Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso (AL/MT), onde tramita a coleta de assinaturas para o requerimento. Contudo, os desdobramentos operacionais abrangem diversos endereços residenciais e comerciais no Estado onde foram cumpridos os mandados judiciais expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A abrangência territorial das investigações reflete a amplitude das relações financeiras e contratuais estabelecidas entre os agentes públicos, as instituições bancárias e a concessionária de telefonia.

Por que a operação foi deflagrada:
A atuação do Poder Judiciário e dos órgãos federais de fiscalização decorre da necessidade de averiguar indícios de favorecimento financeiro e desvio de recursos públicos do erário estadual. A suspeita central recai sobre a homologação de um acordo extraordinário firmado entre o Governo do Estado de Mato Grosso e a operadora Oi S.A., além de possíveis fraudes na gestão de contratos de empréstimos consignados.
A gravidade das denúncias e o expressivo montante financeiro envolvido fundamentaram a expedição das ordens de busca, apreensão e bloqueio de bens pela Suprema Corte.
Como os mandados foram executados:
As ações policiais foram executadas de forma simultânea por equipes da Polícia Federal, com o cumprimento de 25 mandados de busca e apreensão direcionados aos alvos da investigação. Paralelamente às buscas físicas, determinou-se o bloqueio patrimonial e bancário de 61 pessoas físicas e jurídicas supostamente ligadas ao esquema.
A coleta de documentos, mídias digitais e eventuais provas materiais visa instruir o inquérito policial e subsidiar as análises técnicas referentes às movimentações de capitais realizadas entre os envolvidos.
Quais os argumentos da oposição:
A bancada oposicionista, liderada publicamente pelo deputado Valdir Barranco, classifica a conduta anterior da Casa de Leis como uma omissão perante denúncias que já circulavam informalmente no parlamento. Para os parlamentares de oposição, a intervenção da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal expõe a necessidade premente de a Assembleia Legislativa Mato-grossense cumprir o seu papel fiscalizador.
O grupo argumenta que os deputados têm o dever de assinar a lista, considerando constrangedora a inércia legislativa diante de indícios consolidados de irregularidades na gestão pública.

Qual a defesa apresentada pela base governista:
Por sua vez, a base de sustentação do Palácio Paiaguás, representada pelo deputado Diego Guimarães, defende prudência e questiona o momento escolhido para a mobilização da comissão. Os parlamentares governistas argumentam que a proximidade do período eleitoral pode desviar o foco de uma apuração técnica e rigorosa, transformando a CPI em um instrumento de exploração política.
Segundo essa perspectiva, a iniciativa arrisca converter-se em um factoide destinado a expor os gestores públicos e a favorecer os adversários do governo na disputa eleitoral vindoura.
Qual a postura da posição intermediária:
Posicionado de forma neutra em relação aos blocos, o deputado Júlio Campos ratificou o avanço na captação de adesões ao requerimento, mas manifestou ceticismo quanto à utilidade prática do colegiado no momento atual. O parlamentar ressaltou que a execução de mandados judiciais pela Polícia Federal pressupõe a existência de estudos aprofundados e quebras de sigilo consolidadas no inquérito principal.
Contudo, apesar de ressaltar a redundância da medida ante a atuação federal, assegurou que participará ativamente dos trabalhos caso a comissão seja efetivamente instalada.
Quais os desdobramentos futuros:
O cenário político de Mato Grosso permanece em suspenso, condicionado à obtenção da oitava assinatura necessária para a formalização do pedido de CPI na Mesa Diretora. Caso o quórum mínimo seja alcançado e a leitura efetuada em Plenário, caberá aos blocos partidários a indicação dos membros que comporão o colegiado investigativo.
A evolução do caso dependerá tanto da tramitação do inquérito sob sigilo no Supremo Tribunal Federal quanto da capacidade de articulação entre os parlamentares para viabilizar os trabalhos da comissão antes do recesso.
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