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Wilson Pires: – 15 de outubro – BOM SUCESSO, 193 ANOS DE HISTÓRIA
15 de outubro – BOM SUCESSO, 193 ANOS DE HISTÓRIA
Por Wilson Pires –
Bom Sucesso, dentre os mais antigos núcleos habitacionais de Várzea Grande, surgiu a partir de 1.823. É a sede do Distrito de Várzea Grande do mesmo nome e que é constituído de sete comunidades: Bom Sucesso (sede), Souza Lima (antigo Sovaco), Capão Grande, Pai André, Praia Grande, Capela do Piçarrão e Limpo Grande.
O Distrito está situado às margens do rio Cuiabá, cuja rua principal, estreita se alonga na barranca do rio, ostentando casas boas, peixarias e muitas residências humildes ao longo de aproximadamente mil metros lineares.
A área onde situa Bom Sucesso, pertencia ao Sr. Justino Antonio da Silva Claro, que foi adquirindo terras para formar seu sítio, onde florescem os canaviais, que não só se destinavam ao fabrico da famosa rapadura de Bom Sucesso, como alimentavam os engenhos e alambiques na fabricação de aguardente e do açúcar de barro (uma espécie de açúcar mascavo, muito apreciado nos primórdios da vida em Mato Grosso, quando era considerado pernicioso o uso do açúcar branco, refinado), com mão de obra de empregados e escravos. Com sua morte, seus herdeiros dividiram a área de terras e acomodaram-se nelas, na lide do cultivo de lavouras, tendo como principal atividade, o cultivo da cana-de-açúcar, ainda, predominantes nos dias de hoje.
Fizeram e ainda fazem parte da família do Sr. Justino, os senhores: Miguel Ângelo da Silva Claro, João Batista da Silva Claro, João Pinheiro, Joaquim José de Magalhães e João Vidal da Silva.
Os canaviais, cuja produção, no passado destinado à fabricação artesanal de rapaduras, aguardentes de alambique e do açúcar de barro, foi absorvida com o passar do tempo pelas usinas que se instalaram nos anos subseqüentes ao da fundação do povoado, como as de São Gonçalo, da Conceição e outra, ali mesmo de Bonsucesso denominada Cachoeira de Pau, que consumiam toda a produção de cana do local.
Hoje com a desativação dessas usinas, os moradores retornaram as origens e voltaram a produzir esses produtos e, que fazem parte do folclore do município.
Outra atividade, modesta, porém intensa no povoado, é a pesca profissional e amadora que dão formas de sobrevivência econômica e cultural, em que buscam seus moradores, através da Associação dos Pescadores, a realização de eventos festivos, atraindo para Bonsucesso, turistas dos mais diversos lugares do País. Além da pesca, alguns moradores dedicam-se a industrialização do couro do pescado e ao cultivo de hortifrutigranjeiros e do fumo.
PRIMEIRA ESCOLA
Na área da educação os registros constam que foi criado em 1.908 a primeira escola do povoado, tendo como educador o professor Miguel José da Silva, porém, em 1.915 foi transferida para Capão Grande. Outra escola, criada pelo Decreto-Lei nº 511-A, instalou-se no local em 16 de março de 1920, no governo do D. Aquino, denominada Escola Mista de Sucuri.
Após alguns anos, com a melhoria do ensino e com aumento da população, um novo prédio foi construído no governo do Dr. Arnaldo de Figueiredo, destinado a acomodar a garotada com idade escolar.
Com a enchente do rio Cuiabá em 1.974, a escola foi totalmente destruída e, somente foi reconstruída no governo municipal do Engº Júlio José de Campos, quando prefeito de Várzea Grande, que a denominou Escola Municipal de 1º Grau Maria Barbosa Martins.
RELIGIÃO
Hoje, graças aos esforços da gente de Bom Sucesso e de alguns colaboradores de Várzea Grande, o Distrito possui sua igreja, inaugurada em junho de 1968 pelo Arcebispo Metropolitano, D. Orlando Chaves, com todo o cerimonial religioso.
As imagens são do divino Espírito Santo e de São Benedito, doadas pelo coronel e historiador Ubaldo Monteiro da Silva, que a conduziu de São Paulo, especialmente para aquela igreja, cuja pedra fundamental ele lançou, colaborando na sua construção.
Os mais antigos cultuam até os dias de hoje uma tradição local, que é a festa junina, realizada anualmente, reunindo cantadores de Cururu das cercanias e da grande maioria dos povoados vizinhos.
O povo de Bom Sucesso e também da Capela do Piçarrão, sabiam que Justino Claro, fundador do distrito de Bonsucesso devotava cuidados especiais com uma capelinha de palha, erguida com uma grande cruz de madeira, na localidade hoje conhecida como “Capela do Piçarrão”, apesar de residir distante dela. Mais tarde foi construída uma igreja melhor com a denominação de “Igreja de Nossa Senhora da Conceição”, inaugurada em 1.968 pelo então bispo da Arquidiocese de Cuiabá, Dom Orlando Chaves. Ao falecer em Bom Sucesso, Justino Claro foi sepultado na Capela do Piçarrão, como seu benfeitor.
ESPORTES
Bom Sucesso conta com um clube de futebol, o Vila Nova de Bom Sucesso, cujos fundadores, reuniram-se em 1.951, para dali dar o ponta pé num projeto que até hoje faz a alegria aos domingos da comunidade. Muitos atletas, surgidos dali se projetaram em equipes profissionais de âmbito estadual e nacional, a saber: Olívio Pereira da Silva “Boi de Carro” – Cruzeiro Esporte Clube; Adilson José de Souza – Riachuelo Esportes Clube; Admir – Clube Esportivo Operário VG; Orlando Ribeiro – Palmeirinha do Porto; Miroca e Nilton “Capitão” – Mixto Esporte Clube.
O Vila Nova de Bom Sucesso marcou presença e sendo reconhecido no Estado como uma Academia de Craques Talentosos, principalmente entre os anos de 1967 a 1973. Sagrou-se por uma vez campeão e três vezes vice-campeão em campeonatos realizados pela liga Independente de Futebol Amador de varzeagrandense.
Bom Sucesso vive, hoje, dos sonhos dos momentos de glória patrocinados pelos seus ilustres filhos esportistas, mantendo sua tradição desportistas, que sempre aos domingos lotam o seu o Estádio de Futebol da Comunidade. Muitos dos antigos atletas, contam suas histórias aos novos para, com isso estimulá-los para que as tradições na área cultural ou esportista sejam cultuadas e não se apaguem ou se percam com o tempo.
ROTA DO PEIXE
Por ser a Sede do Distrito de Bom Sucesso e um ponto turístico de Várzea Grande, onde aos domingos as iniciativas gastronômicas, representada pelas Peixarias ao estilo rústico instaladas às margens do Rio Cuiabá, recebem um significativo número de visitantes e amantes da saborosa Peixada no mais puro estilo ribeirinho.
Esse slogan surgiu com a criação da Associação de Cultura e Turismo de Bom Sucesso – ACBS em uma parceria entre SEBRAE, comunidade distrital e a Prefeitura de Várzea Grande. Assim sob a direção de técnicos do SEBRAE coordenaram os trabalhos de reuniões com os demais comerciantes, onde as propostas não foram bem aceitas pelos moradores.
Porém a situação ficou ainda mais difícil, diante de alguns investimentos que o poder público municipal deveria realizar, os quais não se concretizaram, levando o SEBRAE se retirar do projeto, deixando o idealismo à disposição dos moradores e interessados.
Assim com o espírito colaborador de alguns e outros ribeirinhos, a ACBS – associação de Cultura e Turismo de Bom Sucesso tornou-se uma realidade, sendo concretizada a sua fundação em 07 de Dezembro de 2004, pela Comunidade do Distrito de Bom Sucesso.
Contando com a habilitação para captação de todos os recursos disponíveis para investimento na área de incentivo ao turismo e preservação da história e das condições rústica que o Distrito de Bom Sucesso e sua vocação para o Turismo Gastronômico na Baixada Cuiabana.
Nas suas atividades a ACBS, com recursos próprios, frutos de eventos, doações e parcerias, consegue realizar trabalhos de registro histórico e resgate da cultura do Distrito de Bom Sucesso. Exemplo é a tradicional Festa de São Pedro o Pescador, que ocorre em 29 de junho todos os anos desde 1980.
A proposta da ACBS é congregar os segmentos, na soma de valores e na construção de um ideal de perpetuar as tradições e manifestações locais como as tradicionais festas de santos, o tradicional Bloco carnavalesco Clube do Meu Coração que resgatou seus trajes no retorno do carnaval de Rua do Distrito em 2005 e bem como o prazer das famílias nos já tradicionais torneios de futebol muito prestigiado por gerações.
Bom Sucesso conta hoje com aproximadamente 2 mil habitantes contando com suas inúmeras chácaras que rodeiam o povoado, pois muitas famílias transferiram suas residências para Cuiabá e centro de Várzea Grande, porém, continuam como eleitores de Bom Sucesso, por questão de amor ao lugar.
Os habitantes são inclinados à política e a praticam, desde a época em que “udenistas e pedessistas” trocavam palavras ofensivas e até alguns cascudos defendendo seus candidatos.
Tem como riqueza principal o rio Cuiabá, com sua faixa ribeirinha, na qual há hortas e cultivam-se cereais em pequenas áreas de terra lavrável.
Distrito de Várzea Grande, Bom Sucesso foi criado pela Lei nº 126, de 23 de Setembro de 1.948 e confirmada por Lei 9.583 de 24 de Dezembro de 1.948.
Wilson Pires é jornalista em Mato Grosso
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Quando a dor da mulher ainda é tratada como exagero
Autora: Giovana Fortunato* –
“É normal sentir dor.”
“Toda mulher passa por isso.”
“Depois que você tiver filhos, melhora.”
“Você precisa aprender a conviver.“
Frases como essas ainda fazem parte da história de muitas mulheres que chegam ao consultório depois de anos convivendo com uma dor que nunca deveria ter sido normalizada. Algumas passaram a adolescência acreditando que desmaiar durante a menstruação fazia parte do ciclo. Outras aprenderam a organizar a vida em torno da dor: faltam ao trabalho, deixam de estudar, evitam relações sexuais, cancelam compromissos e, pouco a pouco, adaptam a rotina a um sofrimento que ninguém conseguiu explicar.
O mais preocupante é que, muitas vezes, antes de receberem um diagnóstico, essas mulheres ouviram que eram “sensíveis demais”, que tinham baixa tolerância à dor ou que o problema poderia ser emocional.
A medicina avançou muito. Mas ainda precisamos avançar na forma como ouvimos as mulheres.
A dor é subjetiva, não aparece em um exame de sangue como um número que possa ser facilmente medido e varia de uma pessoa para outra. Isso, no entanto, não a torna menos real. Quando uma mulher relata uma dor recorrente, intensa e capaz de interferir em sua rotina, esse relato precisa ser investigado.
A endometriose é talvez um dos exemplos mais evidentes das consequências dessa normalização. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo e pode provocar cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. Ainda assim, o caminho até o diagnóstico pode levar anos.
Existe uma diferença importante entre o desconforto que pode acompanhar a menstruação e uma dor incapacitante. Menstruar não deveria significar perder dias de vida.
Se todos os meses uma adolescente precisa faltar à escola porque não consegue sair da cama, isso merece atenção. Se uma mulher depende repetidamente de medicamentos para conseguir trabalhar durante o período menstrual, precisamos investigar. Se há dor durante a relação sexual, ao evacuar ou urinar, especialmente quando esses sintomas se relacionam ao ciclo menstrual, não deveríamos simplesmente dizer que é normal.
Normalizar a dor tem consequências.
Quando o diagnóstico demora, não é apenas uma doença que permanece sem o acompanhamento adequado. Há uma mulher tentando continuar sua vida enquanto convive com sintomas que podem comprometer seu bem-estar, seus relacionamentos, sua sexualidade, sua produtividade e, em alguns casos, seus planos de maternidade.
No caso da endometriose, esse último aspecto merece atenção especial. A doença pode estar associada à infertilidade e, dependendo de sua localização e extensão, pode comprometer estruturas importantes para a reprodução. Isso não significa que toda mulher com endometriose terá dificuldade para engravidar. Significa que o diagnóstico e o acompanhamento adequados permitem avaliar cada caso individualmente e discutir, no momento oportuno, inclusive questões relacionadas à preservação da fertilidade.
Também precisamos abandonar a ideia de que uma mulher só precisa investigar a endometriose quando decide ser mãe. A saúde feminina não pode ser medida exclusivamente pela capacidade reprodutiva. Uma adolescente com cólicas incapacitantes merece atenção independentemente de pensar ou não em maternidade. Uma mulher com dor durante as relações sexuais merece tratamento mesmo que não queira engravidar. Qualidade de vida também é desfecho de saúde.
Há outro ponto fundamental nessa discussão: ouvir uma paciente não significa concluir antecipadamente que toda dor pélvica é endometriose. Existem diferentes condições ginecológicas e não ginecológicas que podem provocar sintomas semelhantes. Escutar significa reconhecer que existe uma queixa legítima, fazer uma boa história clínica, examinar quando indicado e investigar as possíveis causas.
É justamente aí que precisamos substituir a banalização pela atenção.
Nos últimos anos, ampliamos muito nosso conhecimento sobre endometriose, aprimoramos os exames de imagem e avançamos na possibilidade de diagnóstico sem que toda paciente precise necessariamente passar por cirurgia. Mas nenhum avanço tecnológico será suficiente se a primeira barreira continuar sendo convencer alguém de que a dor existe.
Precisamos ensinar meninas desde cedo que conhecer o próprio ciclo menstrual também é uma forma de cuidar da saúde. Precisamos orientar mães e famílias para que não reproduzam automaticamente a ideia de que sofrer faz parte de ser mulher. E nós, profissionais de saúde, precisamos estar preparados para reconhecer sinais de alerta e, sobretudo, ouvir sem preconceitos.
Durante muito tempo, suportar a dor em silêncio foi quase tratado como uma característica feminina. Não deveria ser.
A mulher que procura atendimento não precisa provar que está sofrendo o suficiente para merecer investigação. Ela precisa ser ouvida.
E talvez uma das mudanças mais importantes na saúde da mulher comece justamente aí: parar de perguntar se ela está exagerando e começar a perguntar por que está doendo.*
*Dra. Giovana Fortunato é ginecologista, especialista em endometriose e infertilidade, e professora da UFMT.
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