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Algumas coisas mudam, outras não…

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Autora: Valéria del Cueto*

Fim de noite de domingo, quase pronta para o começo de mais uma semana, e eis que vem o breu. Deviam faltar uns quinze minutos para o fim de um episódio da série da vez quando a escuridão se instalou. Era geral. Nem os postes da rua eram visíveis no meio do mundo.

Nada a fazer além de ligar a lanterna do celular e desligar os interruptores a caminho da cama. A bateria do aparelho, menos por sorte e mais por prevenção, estava cheia.

Afinal, há dias está sendo anunciada mais uma onda de efeitos do El Niño. Dessa vez, um ciclone bomba trazendo ventanias, um calorão incomum para o mês de agosto e, na sequência, a queda abrupta da temperatura com a chegada de mais uma frente fria.

Já chove lá fora, a última etapa do roteiro programado e, graças a Deus, por aqui executada apenas parcialmente. A prometida ventania não atingiu essa parte do Sudeste com a violência prevista, poupando a região metropolitana do Rio de Janeiro de seus piores efeitos.

Os que, por precaução e prevenção, colocaram o poder público e as autoridades em geral em alerta permitindo, inclusive, um final de semana estendido, por assim dizer.

Houve a recomendação de uma liberação antecipada dos trabalhadores no início da tarde de sexta-feira para evitar problemas na volta pra casa no final do último dia da semana causados pelas turbulências visualizadas nos modelos meteorológicos.

Uns dizem que a renovação do contrato com a Fundação Cobra Coral, a entidade espiritual que previne desastres naturais, anunciada pela prefeitura do Rio um dia antes da chegada do fenômeno por aqui, foi o que evitou maiores danos e transtornos. Outros reclamam e fazem piadas sobre o sistema de prevenção, o que alerta para o provável evento climático.

Claro que a maioria da população se sentiu aliviada pela ausência do possível sacode do El Niño. Pelo menos por aqui. Em outros pontos, mais ao sul do país, as consequências foram mais severas…

Segunda de manhã e nada da energia voltar. A tarde chegou e a levada ainda é a mesma. Planos? Não os tenho mais.

Olho a geladeira, agora quase apenas um armário, e a mantenho fechada para que o ar ainda geladinho não escape e tenha forças para conservar os alimentos até que a concessionária de energia local tome as devidas e já tardias providências. Lá se vão mais de quinze horas.

Minha segunda-feira é um prolongamento do fim de semana. Nenhum plano pôde ser executado, nenhuma agenda cumprida. Sem contatos via internet, nem edição no computador com pouca bateria, ou notícias para rechear esse texto.

Estou sujeita a uma pausa involuntária num dia úmido, friorento e salpicado por uma chuvinha fina, também fora de época. Nada que incomode mais que a imponderabilidade de estar viva.

Essa segunda-feira que o Garfield, o gato preguiçoso (lembra dele?), dizia odiar é apenas uma chance de quebrar a rotina que, dizem, não é muito salutar e procurar alternativas para espantar o tédio inevitável.

Uma varrida na casa (esquece o aspirador de pó, não tem energia, lembra?), fazer doce de banana ou biscoitinho de queijo (ops, emprestei a farinha de trigo pra vizinha fazer panquecas ontem). Nem pensar no jardim que está todo encharcado e feliz com a chuva constante fora de época…

Ah, claro, tudo precisa ser feito enquanto ainda há luz do dia. Da elétrica, nem notícias. Então, há que se adiantar as atividades!

Depois que terminar a crônica, após abrir mais uma vez a geladeira/armário (ui) e esquentar a comida, me resta (com muito prazer) a opção mais indicada para um dia como hoje.

Abrir um livro, no caso, “Memória verde-rosa, cem anos de amor”, de Marcelo Oliveira, e mergulhar em saborosas reminiscências mangueirenses de outros carnavais. O livro é o volume 1, “Bambas da Estação Primeira de Mangueira” do projeto do autor para o centenário da agremiação, que será comemorado em 2027.

Por meio dos históricos de 50 personalidades, famosas ou não, fundamentais para o surgimento e a consolidação da “maior escola de samba do planeta”, como dizia o intérprete Luizito, traça um quadro formado por fragmentos e causos que transportam o leitor para o cotidiano e os eventos que ajudaram a transformar em realidade o sonho dos arengueiros da Mangueira.

A luz ainda não voltou e já estou na letra T, de Tantinho, um amigo querido com quem convivi no Palácio do Samba. Sim, estou triste pelas poucas páginas que faltam para terminar a obra que remete a tempos em que faltar energia deveria ser mais corriqueiro do que hoje.

Pois é, algumas coisas mudam, outras não…

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e “É carnaval” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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Brasil 1, Brasil 2

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Autor: Onofre Ribeiro* – 

As eleições de 2026 vão encontrar um país que se dividiu. Antes era só a polarização política. Agora é uma inevitável divisão de personalidades. Há dois Brasis convivendo já há alguns anos.

O Brasil 1 está ligado à sociedade e aos setores produtivos. É conhecido pelo que produz, pelo que inova, pelos empregos e renda que gera e pela capacidade de empreender. É quem sustenta a balança comercial do país, arrecada os impostos e enfrenta a burocracia governamental. Antes, era quem financiava a política e os mandatos dos políticos mediante o financiamento das candidaturas. Hoje não mais. Perdeu esse poder para a burocracia do fundo partidário e da fiscalização judicial-eleitoral.

Já o Brasil 2 é o Brasil do Estado. É formado pelos chamados poderes da República: Executivo, Legislativo e Judiciário. Esses são os poderes que governam o Estado e deveriam manter o país vivo e funcionando, segundo a Constituição de 1988. Lembrando aqui que essa Constituição foi concebida num momento de revanche logo após o fim do regime militar em 1985. A eleição de 1986 elegeu um Congressos Nacional Constituinte para escrever a carta que ainda dura até hoje.

Houve absoluto domínio da ala progressista da época, comandada pelo MDB, que era o guarda-chuva de todos os partidos de esquerda. Foi concebida sob ampla concepção socialista: direitos sobrando e deveres faltando aos cidadãos. E deu aos poderes da República o poder de construir uma nação em que o Estado aos poucos ficaria muito grande e engoliria tanto a sociedade quanto a economia.

Neste momento está mais do que claro que o Estado engoliu tudo. É uma máquina pública pesadíssima, caríssima, burocrática, ineficiente e inibidora das ações do Brasil 1. Sem contar que o Estado inteiro corrompeu-se ao limite. Junto da corrupção veio o aparelhamento da máquina estatal aos ideais políticos da Constituição de 1988, e está descendo ladeira abaixo.

Quanto mais arrecada, mais gasta. O sistema de fiscalização que seria do Congresso Nacional, foi engolido pelo Executivo e dominado pelo Judiciário. Alcançamos o completo aparelhamento estatal sobre a sociedade e sobre o Brasil 1. A equação ficou assim: Brasil 2 contra o Brasil 1.

Em 2028 a Constituição completará 40 anos. Será o tempo suficiente para se construir o Brasil 2 socialista e aparelhar o Estado para o completo domínio do Brasil 1. Além do Estado ter engolido o Brasil 1, o atual Brasil 2 engoliu setores relevantes da nação: a mídia, as universidades , a educação, a saúde pública, a segurança pública e aparelhamento ideológico do Brasil 2.

A burocracia alcançou níveis altíssimos e o Brasil 1 precisa navegar dentro de uma máquina política enorme e cruel para se sustentar. Imposto em cima de impostos. Corrupção em cima de corrupção. Inchamento em cima de inchamento. Ineficiência em cima de ineficiência. Burocracia em cima de burocracia. O Judiciário que seria a ponta de lança da defesa dos direitos do Brasil 1, tornou-se ponta de lança exclusiva do Brasil 2. Assim como o Congresso Nacional abriu mão da sua autonomia e papel. O Executivo navega no silêncio e na complacência dos outros dois poderes. E assim o Brasil 2 caminha solene e vitorioso em direção ao projeto elaborado pelo Sistema que se aproveitou da Constituição e governa o caos.

*Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

[email protected]

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