Artigo
O que o colesterol revela sobre a saúde hormonal?
Autora: Mariana Ramos* –
Quando o exame de sangue aponta colesterol elevado, a primeira preocupação costuma ser a saúde do coração. Embora essa preocupação seja fundamental, poucas pessoas sabem que o colesterol também está intimamente ligado ao funcionamento do sistema endócrino. Hormônios e metabolismo caminham lado a lado, e diversas doenças endocrinológicas podem favorecer desequilíbrios no perfil lipídico, aumentando o risco de complicações cardiovasculares.
O colesterol é uma gordura indispensável para o organismo. Ele participa da formação das membranas das células e da produção de hormônios como estrogênio, progesterona, testosterona e cortisol, além da vitamina D. O problema não está na sua existência, mas no excesso, principalmente do LDL, popularmente conhecido como “colesterol ruim”, que favorece o acúmulo de placas nas artérias e aumenta o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
A endocrinologia entra em cena porque diversas alterações hormonais interferem diretamente na forma como o organismo produz, utiliza e elimina o colesterol. O hipotireoidismo, por exemplo, costuma estar associado ao aumento do LDL devido à redução do metabolismo. Já quem convive com obesidade, diabetes tipo 2, resistência à insulina ou síndrome metabólica costuma apresentar um conjunto de alterações que inclui colesterol elevado, triglicerídeos aumentados e redução do HDL, popularmente conhecido como colesterol bom.
Na prática, isso significa que nem sempre controlar apenas a alimentação será suficiente para normalizar os exames. Se a causa do colesterol elevado estiver relacionada a uma doença hormonal ou metabólica, é necessário tratar a condição de base para que os resultados sejam duradouros.
Outro exemplo importante ocorre durante o climatério e a menopausa. Com a queda da produção de estrogênio, é comum que haja aumento do colesterol LDL e redução do HDL, elevando naturalmente o risco cardiovascular das mulheres. Esse é um dos motivos pelos quais o acompanhamento endocrinológico e ginecológico torna-se ainda mais importante nessa fase da vida.
Existe também a influência da genética. Algumas pessoas apresentam hipercolesterolemia familiar, uma doença hereditária caracterizada por níveis muito elevados de colesterol desde a infância. Nesses casos, além das mudanças no estilo de vida, o tratamento medicamentoso costuma ser indispensável para reduzir os riscos futuros.
Um dos maiores desafios é que o colesterol alto raramente provoca sintomas. A maioria dos pacientes só descobre a alteração durante exames de rotina. Enquanto isso, o processo de formação de placas nas artérias pode evoluir silenciosamente por anos. Por esse motivo, realizar avaliações periódicas é uma das principais estratégias de prevenção.
O endocrinologista não avalia apenas o colesterol isoladamente. A avaliação inclui peso corporal, circunferência abdominal, glicemia, funcionamento da tireoide, pressão arterial, histórico familiar e outros fatores metabólicos que ajudam a identificar a origem do problema e definir o tratamento mais adequado para cada paciente.
A prevenção continua sendo a melhor estratégia. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso, abandono do tabagismo, consumo moderado de bebidas alcoólicas e acompanhamento médico periódico reduzem significativamente o risco de alterações no colesterol e de doenças cardiovasculares.
Quando necessário, medicamentos podem ser prescritos para controlar os níveis de colesterol. No entanto, o tratamento deve ser individualizado. O objetivo não é apenas melhorar um exame laboratorial, mas reduzir efetivamente o risco de eventos cardiovasculares e promover um equilíbrio metabólico duradouro.
O Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, lembrado em 8 de agosto, reforça uma mensagem importante: colesterol elevado nem sempre é um problema isolado. Muitas vezes, ele é o primeiro sinal de que existe um desequilíbrio que também precisa ser investigado. Identificar essa causa precocemente permite um tratamento mais completo, protege o coração e contribui para uma vida mais saudável.
Mais do que olhar para um único número no exame, é preciso compreender o organismo de forma integrada. Essa é a essência da endocrinologia: identificar as causas das alterações metabólicas, tratar o paciente como um todo e prevenir doenças antes que elas provoquem consequências mais graves.
*Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.
Artigos
Quem suporta o seu brilho?
Autora: Soraya Medeiros* –
Dizem que é na dor que conhecemos os verdadeiros amigos. A tempestade seleciona presenças, derruba aparências e revela quem permanece quando já não temos sorrisos ou conquistas para oferecer.
Mas existe um teste ainda mais silencioso: a nossa felicidade.
Há pessoas capazes de nos abraçar quando estamos no chão, mas incapazes de aplaudir quando nos levantamos. Oferecem consolo diante do fracasso, mas se inquietam diante da nossa vitória. E é justamente quando começamos a florescer que certas relações mostram raízes que nunca havíamos enxergado.
O psicólogo Leon Festinger, ao formular a Teoria da Comparação Social, demonstrou como tendemos a avaliar a nós mesmos em relação aos outros. A comparação faz parte da experiência humana. O problema começa quando a conquista alheia passa a ser interpretada como medida da própria insuficiência.
É nesse terreno que a inveja encontra espaço.
E ela raramente chega anunciando o próprio nome. Aparece na ironia disfarçada de brincadeira, no elogio seguido de um, “mas”, no silêncio inesperado ou na tentativa de diminuir aquilo que você levou anos para construir.
Nem toda ausência é inveja. Nem todo silêncio significa ressentimento. Maturidade exige cuidado para não transformar todo comportamento em ameaça. Mas padrões dizem muito. Sobretudo quando alguém sempre encontrou palavras para nossas derrotas e, curiosamente, fica sem palavras diante das nossas vitórias.
Talvez porque acolher a dor do outro seja, para algumas pessoas, mais fácil do que suportar seu crescimento.
Celebrar alguém exige segurança emocional e a compreensão de que a felicidade não é um recurso escasso. O sucesso alheio não rouba nossas possibilidades. A luz do outro não diminui a nossa.
Existe uma palavra de origem budista que traduz uma bela capacidade humana: mudita, a alegria genuína diante da felicidade do outro. É uma resposta à inveja. É conseguir pensar: “Que bom que aconteceu com você”, mesmo quando aquilo ainda não aconteceu conosco.
Isso é grandeza emocional.
Com o tempo, aprendemos que algumas pessoas suportam nossas tempestades, mas não suportam nossa primavera. Gostavam de nos aconselhar, mas estranham quando já não precisamos ser salvos. Sentiam-se confortáveis diante das nossas fragilidades, mas se incomodam diante da nossa força.
Perceber isso não deve nos tornar desconfiados ou amargos. Deve nos ensinar a escolher melhor onde depositamos nossa intimidade.
Amizade verdadeira não é somente oferecer o ombro quando alguém chora. É também estar na primeira fila quando essa pessoa vence.
No fim, talvez não devêssemos observar apenas quem permaneceu quando tudo deu errado. É preciso olhar também para quem sorriu quando finalmente deu certo. Segurar nossa mão durante a queda é uma demonstração de afeto. Mas aplaudir, sem comparação, competição ou ressentimento, quando chega a nossa vez de brilhar talvez seja uma das provas mais bonitas — e mais raras — de amor.
*Soraya Medeiros é jornalista.
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