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Lorena Lacerda: – Coronavírus e home office: como manter a produtividade
Coronavírus e home office: como manter a produtividade
Autora: Lorena Lacerda –
Uma emergência de saúde pública está agitando o mundo e segue modificando por tempo indeterminado a maneira como vivemos e trabalhamos. E é diante do progresso da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) que empresas globais – como Google, Microsoft, Twitter, Apple, Amazon e Spotify – implementaram políticas obrigatórias de home office. Por aqui, esse movimento também está começando.
Essa mudança do ambiente formal para o “escritório doméstico” deverá se tornar o novo normal para muitos de nós em breve – caso já não seja uma realidade. Para algumas pessoas essa será sua primeira experiência em home office, o que simboliza também um desafio acerca de como permanecer em suas atividades em um ambiente que pode não ser adequado à produtividade.
No entanto, existem diversas maneiras de obter ótimos resultados sem distrações. Melhor ainda, é possível ampliar seu conhecimento no período por meio da imersão em cursos online sobre temas relacionados à sua área de atuação. Aproveite para pesquisar sobre as novas plataformas e aplicativos educativos e insira os conteúdos na sua programação.
Agora, independente do fato de você ser líder ou colaborador, se é novato ou veterano nesse processo, alguns pontos podem auxiliá-lo no home office. Uma questão importante é o aprimoramento da comunicação. Ter alinhado de forma clara o que a empresa espera de você durante o cotidiano facilita o andamento do trabalho remoto. Às vezes, uma ligação breve no início do dia e outra no fim do expediente – como videoconferência – estreita a comunicação entre a equipe.
A propósito, trate o home office como um trabalho de verdade. Não é porque você pode permanecer de pijama em casa que deveria estar de pijama. Vista-se. Também aproveite para criar na sua casa um espaço personalizado para o trabalho – de preferência, exclusivo para suas atividades. Esqueça a ideia de deitar na cama com um notebook. Arraste a mesa de cabeceira para um local longe das distrações, arrume uma cadeira e crie limites.
Se precisar, avise todos os outros moradores da sua casa para que não incomodem você enquanto estiver em horário de expediente. Para facilitar a transição entre casa e home office, cogite começar o trabalho após um café e encerrar o dia com um alongamento, por exemplo. Claro que isso não deve lhe colocar em isolamento total. Ao longo do dia, faça pequenas pausas para conversas casuais.
Ao longo da semana, um happy hour virtual pode ser ideal para estreitar o relacionamento com os colegas de trabalho. A internet pode se tornar uma aliada para celebrar datas comemorativas (como aniversários), metas alcançadas e projetos concluídos. Mantenha o ânimo. Esses são tempos estressantes – repletos de notícias negativas, preocupação com entes queridos e ainda com os desfechos incertos.
Diante desse cenário, a inteligência emocional é muito importante, pois envolve componentes que vão desde a autogestão e o gerenciamento de relacionamento (interpessoal) até a autopercepção e a autoexpressão – que podem ser traduzidas como a nossa capacidade de perceber nossas emoções e entender nossas tendências de agir e se expressar de determinadas maneiras em determinadas situações. Exercite-a.
No mais, invista na prevenção do Covid-19. Aposte na esterilização dos ambientes; na lavagem das mãos com água e sabão e utilização de álcool em gel 70%; no ato de cobrir a boca e o nariz com um lenço descartável quando for tossir ou espirrar ou usar o cotovelo; se estiver muito ruim, evitar sair de casa – pelo seu bem e do próximo.
Lorena Lacerda é palestrante, Coach de Executivos e Times, Mentora de Liderança e Gestão, Presidente do Grupo Valure, associada à Fundação Dom Cabral em MT.
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Assédio moral e riscos psicossociais: o perigo de dirigir organizações sem freios
Autor: Valdiney de Arruda* –
Nas últimas semanas e meses, muitas pessoas viram vídeos, postagens, comentários e opiniões sobre riscos psicossociais nas organizações. O tema ganhou espaço no mundo corporativo e institucional diante da necessidade de tratar fatores capazes de contribuir para adoecimentos relacionados ao trabalho dentro da lógica do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e do Programa de Gerenciamento de Riscos.
Como ocorre com todo tema novo, surgiram dúvidas legítimas, mas também interpretações apressadas. Alguns passaram a dizer que agora “tudo será assédio”. Outros afirmaram que a norma é inaplicável. Há quem trate o assunto como mera burocracia. Há quem o veja apenas como ameaça. Há também quem diga que ninguém mais poderá cobrar metas, exigir desempenho ou exercer liderança.
Mas talvez o primeiro cuidado que precisamos ter seja este: não decidir sobre um tema complexo a partir de uma leitura simples demais.
Daniel Kahneman, ao lado de Amos Tversky, demonstrou que grande parte das nossas decisões não nasce de uma análise profunda, lenta e cuidadosa. Muitas vezes, decidimos por atalhos. Usamos aquilo que já conhecemos. Repetimos interpretações familiares. Procuramos respostas rápidas porque pensar com profundidade exige energia.
Diante de um tema novo, o cérebro humano tende a perguntar: “com o que isso se parece?“. E, a partir daí, tenta encaixar o novo dentro de uma gaveta antiga.
O problema é que nem todo fenômeno novo cabe bem em gavetas antigas.
Durante muito tempo, aprendemos a olhar para o adoecimento mental no trabalho quase sempre como problema individual. A conclusão rápida era: “a pessoa não aguentou a pressão“. Em outras situações, olhamos apenas pela lente do conflito pessoal: “isso é problema entre chefe e subordinado“. Pela lente jurídica, reduzimos tudo a reparação individual e responsabilização do agressor. Pela lente administrativa, surgem respostas como: “isso é exagero“, “isso não se aplica aqui“, “é mais uma obrigação” ou “agora ninguém pode cobrar nada“.
Todas essas leituras podem enxergar uma parte do problema. Mas nenhuma delas, sozinha, enxerga o fenômeno inteiro.
Os riscos psicossociais relacionados ao trabalho exigem uma mudança de pergunta. Não se trata de negar a responsabilidade individual, nem de transformar toda cobrança em assédio moral. Trata-se de compreender que a forma como o trabalho é organizado, liderado, comunicado, cobrado e controlado pode aumentar ou reduzir riscos de sofrimento, conflito, adoecimento, afastamento e perda de desempenho.
A evolução da proteção no trabalho sempre exigiu essa mudança de olhar. Durante muito tempo, quando acontecia um acidente, a pergunta mais comum era: “o trabalhador errou?“. Depois, aprendemos a fazer perguntas melhores: o equipamento era seguro? Havia treinamento? Havia manutenção? A meta era compatível com o tempo disponível? A equipe era suficiente? A liderança pressionou de modo inadequado? O ambiente permitia uma decisão segura?
Com os riscos psicossociais acontece algo semelhante.
Pensemos nos carros.
Hoje, um motorista pode ser excelente. Pode ter experiência, atenção, responsabilidade e domínio da direção. Mesmo assim, ninguém diria que, por ele ser bom motorista, o carro não precisa de freios eficientes, cinto de segurança, airbag, controle de estabilidade, pneus adequados, revisão periódica e sinalização no painel.
A indústria automobilística evoluiu porque entendeu uma coisa essencial: segurança não pode depender apenas da habilidade do motorista. O sistema precisa ser desenhado para reduzir danos, prevenir falhas e proteger vidas, inclusive quando o ser humano está cansado, pressionado, distraído ou diante de uma situação inesperada.
A organização do trabalho se parece muito com esse carro.
O trabalhador pode ser competente. O servidor pode ser comprometido. O gestor pode ser experiente. O RH pode ser responsável. A equipe pode ter vocação pública, senso de entrega e compromisso com resultados. Mas, se o sistema organizacional opera com metas incompatíveis com os recursos disponíveis, comunicação hostil, liderança baseada no medo, ausência de escuta, jornadas excessivas, conflitos ignorados, assédio moral normalizado, insegurança sobre papéis, falta de apoio ou retorno ao trabalho mal conduzido, a organização está circulando sem dispositivos adequados de proteção.
Quando algo acontece, não basta perguntar apenas: “por que esse trabalhador adoeceu?“.
A pergunta mais estratégica é outra: o que no modo de organizar, liderar, cobrar, comunicar e responder aos sinais de sofrimento está aumentando o risco de adoecimento?
Uma organização madura não espera o acidente para revisar o carro. Não espera o afastamento para olhar a carga de trabalho. Não espera a denúncia para discutir assédio moral. Não espera a perícia para perceber que a cultura está adoecendo pessoas. Não espera a ruptura para construir canais de escuta.
E talvez esta seja a pergunta que deve acompanhar gestores, lideranças, RH, órgãos de controle, sindicatos, instituições públicas e empresas privadas nos próximos anos: que tipo de sistema de trabalho estamos colocando as pessoas para dirigir todos os dias?
*Valdiney A. de Arruda é administrador, especialista em Políticas Públicas e Questão Ambiental, MBA em ESG. Atua com Direito do Trabalho, Saúde e Segurança Ocupacional, e desenvolve estudos em Neurociência, Desenvolvimento Humano e Comunicação Não Violenta
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