Artigo
Epidemia silenciosa: O Brasil é o 6º no mundo em incidência da diabetes
Autora: Mariana Ramos* –
Quando falamos sobre saúde pública, poucos temas são tão urgentes e impactantes quanto o diabetes. Essa doença crônica, muitas vezes silenciosa, já afeta milhões de brasileiros e exige da sociedade, dos profissionais de saúde e dos próprios pacientes uma atenção redobrada.
O diabetes é causado por um mau funcionamento na produção ou na absorção da insulina, hormônio responsável por regular os níveis de glicose no sangue. Quando esse sistema falha, o açúcar se acumula na corrente sanguínea, abrindo portas para uma série de complicações que podem ser evitadas com prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento adequado.
Segundo a Federação Internacional de Diabetes, o Brasil ocupa o sexto lugar no ranking mundial de incidência da doença. Mais de 16 milhões de pessoas convivem atualmente com o diabetes em nosso país — um número alarmante, que reflete mudanças no estilo de vida e desafios no acesso a cuidados preventivos.
A Organização Mundial da Saúde já classificou o diabetes como uma epidemia global. E não é à toa: estamos a lidar com uma condição que pode evoluir silenciosamente durante anos, sem sintomas aparentes, até que os danos se tornem irreversíveis. Entre as consequências mais graves estão as doenças cardiovasculares, insuficiência renal, perda de visão e até amputações.
Mas há boas notícias. O diabetes tipo 2, o mais prevalente, está diretamente ligado aos nossos hábitos diários — o que significa que pode ser prevenido. Uma alimentação equilibrada, a prática regular de atividade física, evitar o tabaco e manter um peso saudável são atitudes simples, mas poderosas.
A chave, no entanto, está também no diagnóstico precoce. Exames de sangue rotineiros podem detectar alterações nos níveis de glicose e permitir a intervenção antes que o quadro se complique. Por isso, é fundamental que as pessoas estejam atentas e realizem os seus exames de forma regular, especialmente aquelas com histórico familiar ou fatores de risco associados.
No caso do diagnóstico, o tratamento deve ser personalizado. Mudanças no estilo de vida, medicamentos orais e, em alguns casos, a aplicação de insulina fazem parte de uma rotina que, com o apoio de uma equipa médica, pode proporcionar qualidade de vida e bem-estar.
Fica o alerta: o diabetes pode não ter cura, mas tem controle — e, sobretudo, pode ser prevenido. Não espere pelos sintomas. Cuide-se hoje para garantir um amanhã mais saudável.
*Dra. Mariana Ramos é médica endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá (MT)
Artigos
A democracia refém de partidos enfraquecidos
Autor: Luiz Carlos Borges da Silveira* –
A democracia depende de partidos políticos fortes, com identidade ideológica, organização e militância ativa. Quando os partidos são sólidos, a sociedade participa mais intensamente da vida política e o debate público ganha qualidade. Antes de 1964, o Brasil possuía partidos com identidade política bem definida e significativa participação popular. Com o regime militar instaurado naquele ano, o sistema partidário foi extinto e substituído pelo bipartidarismo, representado pela Arena e pelo MDB, reduzindo a pluralidade política. Com a redemocratização, na década de 1980, a criação de novos partidos foi novamente permitida. Entretanto, esse processo ocorreu de forma desordenada, favorecendo, em muitos casos, interesses pessoais e projetos eleitorais em detrimento da construção de instituições partidárias consistentes.
A eleição presidencial de 1989, a primeira por voto direto após o fim do regime militar, representou um exemplo da força dos partidos políticos. As principais legendas apresentaram seus candidatos: Ulysses Guimarães (MDB), Leonel Brizola (PDT), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Afif Domingos (PL), Aureliano Chaves (PFL), Mário Covas (PSDB), Roberto Freire (PCB) e Fernando Collor de Mello (PRN). O sistema eleitoral em dois turnos foi concebido justamente para permitir que cada partido apresente seu projeto à sociedade no primeiro turno e, posteriormente, construa alianças no segundo. Esse mecanismo fortalece o debate democrático e valoriza as propostas partidárias. Entretanto, o resultado daquela eleição produziu um efeito contrário ao esperado.
A vitória de Fernando Collor, por um partido de pouca expressão nacional, desestimulou as grandes legendas a lançarem candidatos próprios nas eleições seguintes. Aos poucos, os partidos perderam protagonismo, enquanto as candidaturas individuais passaram a ocupar o centro da disputa política. Ao longo dos anos, mudanças na legislação eleitoral contribuíram para esse enfraquecimento. As comissões provisórias passaram a substituir diretórios legitimamente eleitos, permitindo que decisões locais fossem submetidas aos interesses das cúpulas nacionais. Com isso, os filiados perderam espaço na definição dos rumos de seus próprios partidos. Também desapareceram as disputas internas pelos diretórios, que eram momentos importantes de mobilização, participação e fortalecimento da democracia partidária.
A criação do Fundo Partidário, embora tenha o objetivo de financiar o funcionamento das legendas, concentrou grande poder nas direções nacionais, que passaram a decidir, quase sem controle interno, a distribuição desses recursos. Outro fator que contribuiu para a distorção do sistema político foi a ampliação das emendas parlamentares. Além das frequentes críticas quanto à falta de transparência e aos riscos de mau uso dos recursos públicos, elas fortaleceram o poder eleitoral dos parlamentares em exercício, dificultando a renovação política e reduzindo as oportunidades para novos candidatos. Como consequência, muitos cidadãos idealistas e bem-intencionados passaram a se afastar da atividade política. Um verdadeiro político — com “P” maiúsculo — trabalha pensando nas próximas gerações. Infelizmente, no Brasil de hoje, salvo raras exceções, muitos políticos parecem trabalhar apenas em função das próximas eleições. Essa lógica fez com que os partidos passassem a dedicar mais atenção às eleições legislativas do que às disputas pelo Poder Executivo.
Quanto maior o número de deputados eleitos, maiores são os recursos do Fundo Partidário, o acesso ao Fundo Eleitoral e o poder de negociação das legendas junto ao governo. Mais uma vez, às vésperas de uma eleição presidencial, assistimos a partidos liberando seus dirigentes e parlamentares para apoiarem candidatos diferentes daquele oficialmente indicado pela legenda, conforme as conveniências políticas e eleitorais de cada momento. O fortalecimento das instituições partidárias cede lugar aos interesses circunstanciais. É triste constatar esse cenário. O Brasil é um país de dimensões continentais, rico em recursos naturais, talentoso em seu povo e profundamente abençoado. Merece uma democracia mais sólida, partidos mais representativos e uma política comprometida com o interesse público e com o futuro da nação.
*Luiz Carlos Borges da Silveira é empresário, médico e professor. Foi ministro da Saúde e deputado federal.
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