ARTIGO DE OPINIÃO

Cuidado: crianças vítimas dos genitores

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Autora: Ana Lúcia Ricarte –

Em 27 anos de atuação no direito das famílias pude observar que os que mais sofrem com os litígios são as crianças, o que decorre do emotivo, irresponsável, imaturo e egocêntrico comportamento de alguns pais, principalmente, quando a própria criança é o foco das disputas judiciais e emocionais.

Pude observar nos relatos clínicos dos Psicólogos (aqueles em que as crianças são submetidas durante o divórcio/disputas judiciais) os mais variados sintomas, tais como: ansiedade, problemas de aprendizagem, queixas somáticas, fobias, tiques, dificuldades nos relacionamentos interpessoais e na expressão verbal.

Muitos genitores movidos pelo sentimento de vingança agem como se estivessem em um campo de batalha, neste aspecto anseiam por uma “vitória” a qualquer custo.

Quando nos deparamos com Pais Narcisistas Perversos, percebemos com clareza o modus operandi desses seres. Eles se utilizam de diversos tipos de estratégias para provarem sua superioridade e poder, tais como: ameaças e mecanismos de força para coagir o (a) outro (a) genitor (a), e desta forma, oprimem e agridem os que estão ao seu redor, sem medir os efeitos de sua verbalização, ditos e atos, principalmente, sobre os filhos.

Pais Narcisistas Perversos são capazes de tudo para agredir o outro cônjuge. Quando confrontados ou mesmo contrariados se mostram agressivos, controladores, apresentam traços paranoicos, são instáveis emocionalmente. Esses pais agem de forma que os filhos e o outro genitor gravitem ao seu redor, impondo de forma ditatorial o que deve ser feito com os filhos.

Estes genitores driblam a justiça e não cumprem decisões judiciais. Para isso inventam diversos tipos de subterfúgios e mentiras para justificar condutas ambíguas e incoerentes.

Segundo a Dra. Lenita Pacheco Lemos Duarte:

Cabe lembrar que ao abusador do poder parental, o genitor alienador busca persuadir de todas as formas os seus filhos a acreditarem em suas crenças e opiniões, conseguindo impressioná-los e levá-los a se sentirem amedrontados na presença do outro genitor“.

Ora! Por que estes genitores buscam de qualquer forma afastar a criança do outro genitor? O que o abusador ganha com condutas do tipo: esconder a criança e impedir o contato? O que se pretende?

Na realidade, ao afastar os filhos do outro genitor por semanas os filhos sentem-se traídos e rejeitados. É importante dizer que o tempo para a criança é diferente do tempo do adulto, isso significa que quinze dias trará a criança a sensação de abandono, o sentimento de não pertencimento e de não ocupar o lugar desejado na vida do outro genitor.

Com o afastamento, o genitor Narcísico manipula a criança e a faz declarar o que ele quiser.

É muito importante que pais não transformem seus filhos em objeto de disputa, o que muitas vezes não depende de um dos cônjuges pois os genitores Narcisistas Perversos agem por conta da Psicopatia, uma vez que desprovidos de empatia, a intenção é destruir qualquer um que o enfrente ou que ofereça obstáculo aos seus planos, que caso for o de ficar com a criança sem a presença do outro genitor na vida do filho, irá praticar qualquer tipo de ato para isso, mesmo que signifique prejudicar ou enlouquecer os filhos.

O Poder Judiciário precisa investir ainda mais na formação de sua equipe multidisciplinar, com o objetivo de coibir este tipo de conduta. Uma das ferramentas é o “teste de Rorschach”, que deverá ser utilizado quando há evidência do comportamento perverso dos genitores, sendo esse teste o único a diagnosticar o TPN (Transtorno de Personalidade Narcisista), e uma vez detectado deve então o Magistrado preservar a criança do contato com o genitor Narcisista Perverso.

Por fim, é imprescindível que nós, operadores do direito, estejamos alertas em relação aos Narcisistas e a forma como manipulam o conflito e as pessoas durante um processo. É preciso lutar e garantir que os direitos fundamentais das crianças e adolescentes sejam na prática considerados prioridade.

  • Ana Lúcia Ricarte é advogada especializada em Família e Sucessões há 27 anos. Diretora da ABA-MT (Associação Brasileira de Advogados).
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Estamos todos saindo da UTI?

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Autor: Jarbas da Silva Motta Junior –

Há 13 anos, passo um grande pedaço do meu dia em um ambiente que, infelizmente, passou a fazer parte da história de muitas famílias a partir do ano passado: a Unidade de Terapia Intensiva. Talvez os significados das palavras desse nome nunca fizeram tanto sentido. Unidade de profissionais que não fazem nada sozinhos, que precisam uns dos outros tanto para as ações “operacionais” como para virar um paciente de bruços ou para discutir os procedimentos cada vez mais multidisciplinares. Terapia atualizada e individualizada com uma rapidez jamais vista, graças à agilidade e ao esforço da ciência. E intensiva em todos os detalhes.

Nas últimas semanas, esses ambientes estão diferentes do que vivenciamos ao longo de quase 20 meses. Vemos as altas de pacientes sem que seus leitos sejam imediatamente ocupados por outros e novos – e em determinado momento da pandemia, literalmente, cada vez mais novos – pacientes. Em alguns dias, deixamos inclusive de ter casos ativos de Covid-19. Isso significa que, pela primeira vez, em mais de 500 dias, não havia pacientes com potencial de transmissão da doença. Para os profissionais de saúde esse é um marco que nos emociona e enche de esperança.

Ao olhar os leitos vazios, não podemos nos esquecer da trajetória até aqui. Uma realidade que nem os mais experientes profissionais estavam preparados. Foram dias em que precisamos encarar como principal desafio manter o paciente vivo para que o próprio corpo pudesse ter forças para combater o Coronavírus. E, para isso, recorremos a procedimentos complexos. Em algumas instituições, o uso da ECMO, por exemplo, chegou a ser nove vezes mais frequente do que antes da pandemia. O aparelho que funciona como coração e pulmão artificial representou novos suspiros para muitos homens e mulheres. Já as diálises, ainda no leito de UTI, cresceram quase 60%.

O médico intensivista reconhece o seu papel como divisor de águas no tratamento de um paciente. A entrada dele em ação deve ser precisa no momento em que o quadro do paciente se agrava e que pode ser irreversível sem esse suporte. E assim, também ser o momento da saída. Mas talvez essa definição nunca foi tão nebulosa quanto na Covid-19. Como doença sistêmica e imprevisível, em cada paciente ela agia de uma forma. E foi a união entre assistência e pesquisa que nos deu o suporte para seguir.

Em muitos momentos, tivemos que lutar com os braços que tínhamos. E eles eram escassos de norte a sul do Brasil. Apenas 1,6% dos médicos brasileiros registrados são intensivistas. A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) estima que o país precisaria ter, pelo menos, cinco vezes mais profissionais da área para atender toda a demanda de leitos de UTI. A matemática deixa claro o cansaço, mas as súplicas para voltar da intubação escancaram o peso que esses braços carregaram.

No início, observamos como a doença se comportava e compartilhamos conhecimento com o mundo. Agora, experimentamos os resultados desse movimento, que passa a ser coletivo. Vacinas em tempo recorde, adesão da população e a esperança de volta.

As ligações para as famílias e as longas semanas – até meses – de internamento nos aproximaram de cada um que venceu ou perdeu essa luta. Lidamos como uma tragédia social e humanitária e, apesar de acreditarem que somos heróis, sairemos dela mais humanos.

Jarbas da Silva Motta Junior, médico intensivista e coordenador da UTI do Hospital Marcelino Champagnat

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