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Antonio Roque Dechen: – Samba, suor e lágrimas  

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                                    Samba, suor e lágrimas 

Por: Antonio Roque Dechen –  

Na atualidade a população brasileira é predominantemente urbana (86%) e, em menor proporção, rural (14%). Essa veio decrescendo no tempo, sendo que nos anos 80 a divisão estava estimada em 70% nas cidades e 30% no meio rural, porém a redução da população no ambiente rural foi acompanhada pelo desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovações nos centros de pesquisas, nas universidades e em ambientes científicos ligados às ciências agrárias, ambientais e sociais aplicadas o que posiciona o Brasil num dos celeiros da agricultura mundial.

As estatísticas comprovam esta evolução. Em artigo recente, Evaristo Miranda (Jornal Estado de S. Paulo em 29-09-2016) revela que o país vem produzindo ao redor de uma tonelada de grãos/habitante, sete milhões de toneladas de bananas, um milhão de toneladas de castanhas, amêndoas e nozes, 31 bilhões de litros de etanol, 35,2 bilhões de litros de leite, 4,1 bilhões de dúzias de ovos, 39,3 milhões de suínos, seis bilhões de frangos e tem cerca de 220 milhões de cabeças de gado revelando a efetiva eficiência de produção do setor agrícola, alicerçada na preocupação com a sustentabilidade e qualidade da produção agrícola. Um exemplo a ser lembrado é o do plantio direto na palha, inicialmente no estado do Paraná nos anos 70, e hoje amplamente difundido pela Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, adotado em muitos estados e exemplo para o mundo.  

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Com essa produção alimentamos o Brasil e o mundo que nos agradecem, pois nossa produção excedente é direcionada para muitos países gerando superávits na balança comercial e, domesticamente, tem forte participação no PIB nacional, na formação de capital, na geração de empregos e em programas sociais.

É comum no Brasil e no mundo as famílias, antes das refeições, agradecerem o alimento que está em suas mesas, louvando o pão nosso de cada dia. Portanto, causa-nos certo desconforto, num momento de uma crise nacional sem precedentes, numa das festas mais tradicionais do Brasil, o Carnaval, pessoas bem alimentadas virem a público criticar, no contesto do enredo de uma escola de samba (Imperatriz Leopoldinense), de forma tão contundente o produtor agrícola brasileiro, tratando-o como bandido.

Lamentavelmente o Estado do Rio de Janeiro está vivendo um momento de grande crise, porém durante os desfiles não faltarão comidas e bebidas, originarias de matérias primas produzidas pelos agricultores, os homens do campo.

Nós devemos sim exaltar e aproveitar o Carnaval, mas não podemos nos esquecer de render nossos respeitos e considerações aos profissionais das áreas de ciências agrárias e principalmente aos agricultores. E não injuriá-los, eles não estão nas arquibancadas e nas passarelas, eles não são nossos inimigos, eles estão no campo, mesmo nos dias de Carnaval, olhando para os céus e possivelmente rezando pelas chuvas, para que possam cultivar os solos e produzir alimentos para que não tenhamos fome. Avante agricultores: o mundo precisa de vocês e agradecemos!

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Antonio Roque Dechen, Presidente do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor Titular do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP, Presidente da Fundação Agrisus e Membro do Conselho do Agronegócio (COSAG-FIESP).

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Na era da IA, o diferencial será humano

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Autora: Silmara Casadei*

Transformações tecnológicas sempre alteraram a forma como trabalhamos. A diferença é que, desta vez, estamos diante de sistemas capazes de produzir textos, imagens, análises e respostas em poucos segundos. Isso provoca uma sensação inédita de concorrência com algo que se aproxima de processos antes considerados exclusivamente humanos.

A discussão sobre inteligência artificial costuma girar em torno das profissões que desaparecerão e das novas exigências do mercado de trabalho. Embora esse debate seja importante, ele deixa em segundo plano quais capacidades humanas precisarão ser fortalecidas desde a infância para que as próximas gerações possam viver de forma autônoma em um mundo cada vez mais mediado por sistemas inteligentes.

Curiosamente, à medida que as máquinas se tornam mais eficientes, características antes consideradas subjetivas passam a ganhar valor estratégico. Pensamento crítico, criatividade, flexibilidade cognitiva, capacidade de colaboração e inteligência socioemocional deixaram de ser apenas habilidades desejáveis e tornaram-se competências essenciais.

Isso ajuda a explicar um dado interessante: embora sejam os principais usuários dessas ferramentas, 66% dos jovens afirmam não confiar totalmente nas respostas geradas pela inteligência artificial (Ipsos, 2026). Mesmo entre aqueles que cresceram cercados pela tecnologia, permanece a percepção de que informação não é sinônimo de discernimento.

Discernimento não nasce do acúmulo de respostas prontas, porque ele se desenvolve por meio da experiência, da reflexão, do contato com diferentes perspectivas e da capacidade de duvidar antes de chegar a conclusões. Trata-se de um processo que envolve maturação intelectual e emocional, algo que não pode ser terceirizado a uma ferramenta.

Por essa razão, preparar crianças para o futuro não significa expô-las cada vez mais cedo às telas ou treiná-las para competir com algoritmos. Significa ajudá-las a desenvolver aquilo que os algoritmos não conseguem reproduzir. A criatividade, por exemplo, não surge apenas da produção de ideias. Ela depende de repertório, imaginação, experimentação e contato com situações reais.

Sob a perspectiva do desenvolvimento emocional, existe ainda outro desafio. Crianças que crescem recebendo respostas instantâneas podem ter menos oportunidades de exercitar a espera e a elaboração do pensamento. A educação do futuro tem menos relação com o domínio das tecnologias e mais com a preservação de experiências humanas que favorecem a autonomia. Quanto mais avançados forem esses sistemas, mais necessário será formar pessoas capazes de construir critérios próprios diante de respostas vazias tão acessíveis.

Nenhuma sociedade se sustenta apenas por velocidade ou acesso à informação. Ela depende também da responsabilidade em projetar futuros possíveis. São essas dimensões que conferem sentido ao conhecimento e que tornam a educação ainda mais decisiva em tempos de transformação tecnológica

*Silmara Casadei é doutora em Educação, psicanalista e autora de O Pequeno Mundo Criativo.

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