ENTRE AFAGOS NACIONAIS E TENSÕES REGIONAIS
O dilema do PL de Mato Grosso ante a possível aliança com o MDB
A recente aproximação diplomática entre o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ), pré-candidato à Presidência da República, e o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi (MDB/SP), desencadeou uma onda de instabilidade nas bases aliadas do Partido Liberal no estado de Mato Grosso. O que se desenha no cenário federal como uma coalizão estratégica para fortalecer o palanque da direita e centro-direita, especialmente visando ao projeto de reeleição de Tarcísio de Freitas em São Paulo, encontra uma resistência feroz em Cuiabá. O clima de cordialidade em Brasília contrasta drasticamente com a temperatura política local, evidenciando que a costura de uma aliança nacional terá de superar obstáculos geográficos e idiossincrasias regionais para se concretizar de forma harmônica nas urnas mato-grossenses.
O epicentro desta resistência é personificado pelo Prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), uma das principais lideranças do partido no estado, que se manifestou de forma contundente contra qualquer vínculo formal com os emedebistas. Para o gestor da capital, a sigla comandada localmente pela deputada estadual Janaina Riva (MDB) representa um modelo político que colide frontalmente com os valores defendidos por seu grupo. Enquanto outras lideranças, como o deputado federal José Medeiros (PL), optaram por um silêncio cauteloso acerca do impacto dessa relação na chapa majoritária estadual, Brunini assumiu o protagonismo do dissenso, reafirmando que o alinhamento ideológico deve prevalecer sobre o pragmatismo das cúpulas partidárias nacionais.
As motivações por trás dessa repulsa são de natureza histórica e ideológica, conforme detalhado pelo prefeito cuiabano em declarações recentes. Abilio classifica o MDB como uma legenda “fisiológica”, argumentando que o partido possui raízes profundas na esquerda brasileira, o que tornaria a união espúria para o eleitorado conservador de Mato Grosso.
O prefeito cuiabano enfatiza sua falta de confiança na estrutura partidária regional, citando episódios passados e reuniões ligadas ao ex-deputado José Riva para justificar sua intransigência.
“Eu não vou caminhar com o MDB em hipótese alguma. Nem se o Bolsonaro pedir“, declarou Brunini, estabelecendo uma linha vermelha que desafia até mesmo a hierarquia máxima de sua agremiação.
A arquitetura dessa possível coligação está sendo erguida sob a justificativa de consolidar uma base ampla de apoio parlamentar e tempo de televisão para a disputa presidencial de Flávio Bolsonaro. Estrategistas em Brasília acreditam que a capilaridade do MDB é essencial para neutralizar avanços da esquerda em redutos estratégicos. Contudo, em Mato Grosso, o cenário é matizado por laços familiares que confundem a fronteira entre o público e o privado, visto que a deputada Janaina Riva é nora do senador Wellington Fagundes (PL), pré-candidato ao Governo do Estado.
Essa conexão de parentesco, longe de pacificar os ânimos, é lida por críticos como uma tentativa de perpetuação de poder por meio de clãs políticos tradicionais.
O cenário torna-se ainda mais complexo quando se observa a movimentação nos bastidores da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (AL/MT), onde parlamentares monitoram as marés políticas com redobrada atenção. As decisões tomadas nos gabinetes brasilienses repercutem imediatamente nos corredores do legislativo estadual, alterando alianças proporcionais e estratégias de prefeitos que administram os maiores colégios eleitorais do estado. O receio de parte do PL é que o desgaste eleitoral do MDB, somado a uma avaliação instável de alguns gestores municipais, possa contaminar a performance da direita em um estado onde o eleitorado é majoritariamente conservador e avesso a composições consideradas oportunistas.
Abilio Brunini não hesita em utilizar o termo “oportunismo eleitoral” para descrever a movimentação da deputada Janaina Riva em direção a Flávio Bolsonaro. Segundo ele, o MDB mato-grossense busca uma “sobrevivência política” ao tentar se revestir com as cores verde e amarela para ludibriar o eleitorado de direita. A crítica sugere que a aproximação não se baseia em uma convergência de programas de governo ou ideais, mas sim em um cálculo cínico para garantir a manutenção de cargos e influência em um território onde o bolsonarismo permanece como força hegemônica.
Esse discurso ressoa entre os militantes mais radicais do PL, que veem na aliança uma traição aos princípios que levaram a sigla à ascensão.
No campo das estratégias eleitorais, a influência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é um fator determinante para que o diálogo entre Flávio e Baleia Rossi avance. A cúpula nacional entende que a política é a arte da composição e que o isolamento purista pode ser fatal em uma eleição presidencial. Entretanto, o custo dessa pragmática pode ser a fragmentação da base em estados vitais como Mato Grosso. A possibilidade de o MDB agregar valor à candidatura presidencial é real, mas o preço pode ser a rebeldia de prefeitos e deputados estaduais que dependem do voto ideológico direto para renovar seus mandatos e sustentar suas gestões administrativas.

As investigações políticas informais sugerem que o impasse em Mato Grosso servirá como um laboratório para a viabilidade da aliança em todo o Centro-Oeste. Se a resistência de Abilio Brunini e seus aliados for bem-sucedida, o PL Nacional poderá se ver obrigado a permitir palanques dissociados, onde o apoio à presidência seja comum, mas as coligações estaduais sigam caminhos independentes. No entanto, tal fragmentação enfraquece a unidade visual e programática da campanha, algo que Flávio Bolsonaro deseja evitar a todo custo.
A dinâmica das marés políticas, conforme descrita nos bastidores da AL/MT, sugere que as posições hoje consideradas pétreas podem sofrer erosão conforme o calendário eleitoral avança.
A resposta da deputada Janaina Riva e do senador Wellington Fagundes a essas críticas tem sido pautada pelo silêncio estratégico ou pela defesa da união em prol de um projeto maior para o estado e para o país. A proximidade familiar entre eles é apresentada como uma convergência natural de interesses que visa à estabilidade administrativa de Mato Grosso. Todavia, para o eleitor médio, a distinção entre aliança programática e conveniência familiar torna-se cada vez mais turva, alimentando o discurso de renovação política sustentado por Brunini.
A disputa narrativa está posta: de um lado, a eficiência da coalizão ampla; de outro, a preservação da identidade ideológica pura.
Por fim, o desfecho deste embate partidário definirá não apenas os nomes que figurarão nas urnas em outubro, mas a própria fisionomia da direita brasileira no pós-bolsonarismo. Se o pragmatismo de Flávio Bolsonaro vencer a resistência de Abilio Brunini, o PL confirmará sua transição para um partido de centro-direita tradicional, aberto ao diálogo com o “fisiologismo” que outrora combateu. Se o prefeito cuiabano mantiver sua intransigência e arrastar consigo a base estadual, Mato Grosso consolidará sua posição como o bastião da direita ideológica, avessa a concessões.
O tempo, senhor das marés políticas, dirá se os ventos de Brasília serão fortes o suficiente para dobrar os carvalhos mato-grossenses ou se a brisa local ditará o rumo da navegação estadual.
Política
Teia de suspeitas do VLT e impasse do BRT tensionam relação entre “Governo” e “Oposição”
A Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso (AL/MT) converteu-se no cenário de um intenso embate político que paralisou o debate sobre a infraestrutura local. O episódio ocorreu durante uma Audiência Pública de prestação de contas que acabou por desviar o foco técnico para antigas disputas eleitorais. A sessão, que deveria esclarecer o andamento das obras do Ônibus de Trânsito Rápido (BRT), transformou-se em uma arena de acusações recíprocas entre a base governista e a oposição. O impasse reflete a profunda polarização que historicamente caracteriza a gestão das grandes obras de mobilidade urbana na capital mato-grossense.
O debate centralizador das discussões ocorreu no Palácio Dante de Oliveira, sede do Poder Legislativo do Estado de Mato Grosso, localizada no Centro Político Administrativo de Cuiabá. A escolha do local conferiu caráter oficial e solene ao encontro, que reuniu parlamentares, gestores públicos e representantes da sociedade civil organizada. A capital, que convive há mais de uma década com os transtornos decorrentes de projetos de transporte inacabados, serviu como pano de fundo geográfico e social para o confronto. O ambiente do plenário, marcado por discursos inflamados e questionamentos incisivos, evidenciou a urgência das respostas demandadas pela população cuiabana.
A reunião deliberativa aconteceu nesta terça-feira, momento em que o cronograma físico e financeiro do BRT voltou a ser oficialmente questionado pela Comissão Parlamentar competente. O agendamento da Audiência Pública atendeu a um requerimento de urgência apresentado pela oposição, motivado pelas sucessivas dilações nos prazos de entrega das vias exclusivas de transporte. A temporalidade do evento revelou-se estratégica, ocorrendo em um período de crescente cobrança social pela retomada e finalização dos corredores estruturais de trânsito na região metropolitana do Vale do Rio Cuiabá.
O secretário de Estado de Infraestrutura e Logística do Estado de Mato Grosso (SINFRA/MT), Marcelo de Oliveira, conhecido politicamente como Marcelo “Padeiro”, figurou como o principal convocado para prestar os esclarecimentos técnicos necessários. O gestor, contudo, optou por retirar-se do recinto parlamentar antes da formulação das perguntas cruciais pelos deputados da oposição, gerando forte descontentamento no plenário.
A conduta do secretário foi interpretada pela bancada oposicionista como uma deliberada esquiva diante das responsabilidades administrativas referentes aos contratos e aditivos vigentes.
A convocação oficial da autoridade governamental deu-se em razão da necessidade imperiosa de esclarecer os motivos das constantes paralisações e o encarecimento das obras do BRT. O projeto atual, que substituiu o antigo modelo de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), é alvo de investigações que apontam suposta falta de planejamento e excesso de contratações diretas sem licitação. Os deputados estaduais exigiam a apresentação detalhada de planilhas de custos e a justificativa para a escolha de consórcios específicos para a execução dos lotes remanescentes.
A controvérsia instalou-se em virtude do abandono da sessão pelo secretário e das posteriores declarações do governador Otaviano Pivetta, do partido Republicanos, que saiu em defesa de seu colaborador. O chefe do Executivo Estadual descaracterizou as cobranças técnicas da oposição ao sugerir que a campanha eleitoral de 2012 do deputado estadual Lúdio Cabral (PT), fora financiada com desvios do extinto projeto do VLT.
Esse movimento retórico redirecionou a pauta de fiscalização orçamentária para o campo das suspeitas criminais pretéritas, inflamando o ambiente político estadual e deslocando o foco das atuais falhas de execução do BRT.
Os parlamentares estaduais utilizaram-se dos mecanismos constitucionais de fiscalização do Poder Executivo, amparados pelo regimento interno da Casa de Leis e pela prerrogativa de controle externo da administração pública. A inquirição dos secretários de Estado constitui um dever do parlamento e um direito do cidadão ao acesso à informação e à transparência pública. A utilização desse instrumento de controle democrático visa garantir que os recursos públicos sejam aplicados em conformidade com os princípios da legalidade, da impessoalidade e da moralidade administrativa.
A complexidade operacional e financeira que envolve a transição do modelo de VLT para o BRT justifica a intensa preocupação dos órgãos de controle e dos representantes do Legislativo. Um dos pontos de maior atrito consiste no expressivo aumento do valor de um lote licitado, cujo custo inicial saltou de R$ 68 milhões para expressivos R$ 120 milhões em apenas dois meses.
A dispensa de licitação concedida sistematicamente a uma única empresa construtora agravou as suspeitas de favorecimento, motivando pedidos de auditoria detalhada junto ao Tribunal de Contas do Estado.
O impacto imediato desse novo embate político consiste no severo travamento da interlocução institucional entre o Palácio Paiaguás e a Assembleia Legislativa de Mato Grosso. As declarações de Otaviano Pivetta geraram forte reação do deputado petista Lúdio Cabral, que refutou veementemente as acusações de corrupção eleitoral e prometeu acionar os meios jurídicos cabíveis para restabelecer sua honra. A judicialização da disputa política tende a prolongar o clima de instabilidade, prejudicando a aprovação de matérias de interesse público e a própria fiscalização das obras de mobilidade urbana.
A sociedade mato-grossense permanece como a principal prejudicada pelo prolongamento indefinido dos canteiros de obras que obstruem o tráfego e deterioram o comércio de Cuiabá. Enquanto as lideranças políticas priorizam a disputa de narrativas sobre eventos ocorridos há mais de uma década, o cronograma do BRT segue sem uma definição concreta de entrega.
A expectativa coletiva por um sistema de transporte coletivo moderno e eficiente continua frustrada pela crônica incapacidade de planejamento e pela constante partidarização das soluções de infraestrutura pública.
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