MEDIDAS DO GOVERNO FEDERAL É FACTOIDE
“Mato Grosso não irá se sujeitar a orientações restritivas em troca de “DINHEIRINHO””
O governo federal publicou nesta terça-feira (24), no Diário Oficial da União (DOU), um decreto que propõe regras sobre o uso da força por policiais de todo o Brasil. Trata-se da primeira etapa para a regulação da atuação das polícias no território nacional.
De acordo com o documento, o decreto tem como objetivos a “valorização dos profissionais de segurança pública e respeito aos direitos humanos”. A norma foi elaborada pelo Ministério da Justiça e da Segurança Pública, comandado por Ricardo Lewandowski.
Segundo o texto, o uso da força policial deve ser compatível com o risco da operação pretendida e sempre norteado pela legalidade.
“O uso da força e de instrumentos de menor potencial ofensivo somente poderá ocorrer para a consecução de um objetivo legal e nos estritos limites da lei”, diz o decreto.
O decreto do governo sobre uso da força policial atualiza uma portaria anterior do Ministério da Justiça, em vigor desde 2010. O texto apresenta ainda uma regulamentação sobre o uso de algemas, a necessidade de planejamento das grandes operações e a criação do Comitê Nacional de Monitoramento do Uso da Força.

Armas de fogo e Comitê de Monitoramento
O texto também proíbe o uso de arma de fogo contra “veículo que desrespeite bloqueio policial em via pública, exceto quando o ato represente risco de morte ou lesão aos profissionais de segurança pública ou a terceiros”.
“O repasse de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Penitenciário Nacional para ações que envolvam o uso da força pelos órgãos de segurança pública dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios está condicionado à observância do disposto na Lei nº 13.060, de 22 de dezembro de 2014, e neste Decreto”, diz o texto.
Mauro Mendes afirma que decreto federal é um “absurdo” que tenta culpar a PM pela violência no país
O governador do Estado de Mato Grosso, Mauro Mendes (UB), criticou o Decreto do Governo Federal sobre o uso da força policial. Durante participação ao vivo no programa Jovem Pan News, neste sábado (28), ele defendeu a autonomia dos estados na gestão da segurança pública e classificou as propostas de desarme dos policiais e de câmeras nas fardas como medidas equivocadas e factoide que desvia o foco do real combate à violência.
“O que me deixa um pouco preocupado é que, diante de um problema grandioso como esse, das facções crescendo e da violência aumentando no Brasil inteiro, trava-se um grande debate como se uma grande solução para enfrentar o problema da violência no país fosse colocar câmeras na farda dos policiais, transformando-os nos grandes causadores da violência no Brasil. Para mim, isso é um absurdo. É uma mudança completa de contexto e de foco. A violência hoje praticada no Brasil resultou, nos últimos anos, em mais de 40 mil assassinatos. Somos o país que mais mata em números absolutos no mundo. Isso tem que ser combatido com leis duras, inteligência e estratégia, e não com a criação desse factoide”, declarou Mauro.
Segundo Mauro Mendes, essas mudanças tentam transferir a responsabilidade pela crescente violência no país para os policiais e continuará com política de “Tolerância Zero” com os criminosos
O governador mato-grossense reforçou a necessidade de medidas mais severas contra o crime e discordou da centralização de decisões de segurança pública pelo governo federal. Ele defendeu que os estados mantenham autonomia para definir suas estratégias e políticas e mostrou sua insatisfação quanto ao debate sobre segurança com foco na Polícia Militar.

Para o governador, o decreto não passa de um “factoide”
“Está tudo errado, na minha opinião. Eu não concordo com esse decreto. Respeito, o atual presidente, porque devemos respeitar as autoridades, mas eu discordo completamente dessa estratégia de querer fazer esse grande debate em cima da Polícia Militar, como se eles fossem os causadores dos altos índices de violência”, disse o governador.
Questionado se acha um erro o Governo Federal condicionar a liberação de recursos para os estados ao fato de ter que seguir as regras de segurança propostas, Mauro Mendes disse que prefere não receber o repasse do que seguir uma regra na qual não acredita.
“Esse dinheiro da União é muito pouco diante daquilo que todos os estados brasileiros, inclusive o meu, investem. Não conheço os números exatos, mas tenho certeza de que os custos com Segurança Pública, Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Penal, que bancamos com os recursos do Estado, são muito, mas muito maiores do que esse dinheiro que eventualmente deixaria de vir para o meu estado. Já adianto: prefiro deixar de receber esse “dinheirinho” do que ter que seguir uma regra que, na minha opinião, não vai ajudar na estratégia de melhorar o ambiente de segurança para o cidadão e para a sociedade”, afirmou.
“É a minoria, zero vírgula qualquer coisa por cento dos policiais que tem desvio de conduta. A grande maioria são cidadãos de bem que trabalham para prover segurança pública em todos os estados e todas as cidades brasileiras“, completou.
Mauro Mendes ainda defendeu a atuação da Polícia Militar e pontuou que o Brasil precisa de medidas realmente efetivas para enfrentar a violência.
O governador finalizou a entrevista dizendo que Mato Grosso não tem mais dependência do dinheiro de Brasília e criticando a espécie de “barganha” que o governo Lula propõe, dizendo que só quem seguir as regras irá receber recursos e aproveitou para criticar a gastança do Governo Federal.
Política
Teia de suspeitas do VLT e impasse do BRT tensionam relação entre “Governo” e “Oposição”
A Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso (AL/MT) converteu-se no cenário de um intenso embate político que paralisou o debate sobre a infraestrutura local. O episódio ocorreu durante uma Audiência Pública de prestação de contas que acabou por desviar o foco técnico para antigas disputas eleitorais. A sessão, que deveria esclarecer o andamento das obras do Ônibus de Trânsito Rápido (BRT), transformou-se em uma arena de acusações recíprocas entre a base governista e a oposição. O impasse reflete a profunda polarização que historicamente caracteriza a gestão das grandes obras de mobilidade urbana na capital mato-grossense.
O debate centralizador das discussões ocorreu no Palácio Dante de Oliveira, sede do Poder Legislativo do Estado de Mato Grosso, localizada no Centro Político Administrativo de Cuiabá. A escolha do local conferiu caráter oficial e solene ao encontro, que reuniu parlamentares, gestores públicos e representantes da sociedade civil organizada. A capital, que convive há mais de uma década com os transtornos decorrentes de projetos de transporte inacabados, serviu como pano de fundo geográfico e social para o confronto. O ambiente do plenário, marcado por discursos inflamados e questionamentos incisivos, evidenciou a urgência das respostas demandadas pela população cuiabana.
A reunião deliberativa aconteceu nesta terça-feira, momento em que o cronograma físico e financeiro do BRT voltou a ser oficialmente questionado pela Comissão Parlamentar competente. O agendamento da Audiência Pública atendeu a um requerimento de urgência apresentado pela oposição, motivado pelas sucessivas dilações nos prazos de entrega das vias exclusivas de transporte. A temporalidade do evento revelou-se estratégica, ocorrendo em um período de crescente cobrança social pela retomada e finalização dos corredores estruturais de trânsito na região metropolitana do Vale do Rio Cuiabá.
O secretário de Estado de Infraestrutura e Logística do Estado de Mato Grosso (SINFRA/MT), Marcelo de Oliveira, conhecido politicamente como Marcelo “Padeiro”, figurou como o principal convocado para prestar os esclarecimentos técnicos necessários. O gestor, contudo, optou por retirar-se do recinto parlamentar antes da formulação das perguntas cruciais pelos deputados da oposição, gerando forte descontentamento no plenário.
A conduta do secretário foi interpretada pela bancada oposicionista como uma deliberada esquiva diante das responsabilidades administrativas referentes aos contratos e aditivos vigentes.
A convocação oficial da autoridade governamental deu-se em razão da necessidade imperiosa de esclarecer os motivos das constantes paralisações e o encarecimento das obras do BRT. O projeto atual, que substituiu o antigo modelo de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), é alvo de investigações que apontam suposta falta de planejamento e excesso de contratações diretas sem licitação. Os deputados estaduais exigiam a apresentação detalhada de planilhas de custos e a justificativa para a escolha de consórcios específicos para a execução dos lotes remanescentes.
A controvérsia instalou-se em virtude do abandono da sessão pelo secretário e das posteriores declarações do governador Otaviano Pivetta, do partido Republicanos, que saiu em defesa de seu colaborador. O chefe do Executivo Estadual descaracterizou as cobranças técnicas da oposição ao sugerir que a campanha eleitoral de 2012 do deputado estadual Lúdio Cabral (PT), fora financiada com desvios do extinto projeto do VLT.
Esse movimento retórico redirecionou a pauta de fiscalização orçamentária para o campo das suspeitas criminais pretéritas, inflamando o ambiente político estadual e deslocando o foco das atuais falhas de execução do BRT.
Os parlamentares estaduais utilizaram-se dos mecanismos constitucionais de fiscalização do Poder Executivo, amparados pelo regimento interno da Casa de Leis e pela prerrogativa de controle externo da administração pública. A inquirição dos secretários de Estado constitui um dever do parlamento e um direito do cidadão ao acesso à informação e à transparência pública. A utilização desse instrumento de controle democrático visa garantir que os recursos públicos sejam aplicados em conformidade com os princípios da legalidade, da impessoalidade e da moralidade administrativa.
A complexidade operacional e financeira que envolve a transição do modelo de VLT para o BRT justifica a intensa preocupação dos órgãos de controle e dos representantes do Legislativo. Um dos pontos de maior atrito consiste no expressivo aumento do valor de um lote licitado, cujo custo inicial saltou de R$ 68 milhões para expressivos R$ 120 milhões em apenas dois meses.
A dispensa de licitação concedida sistematicamente a uma única empresa construtora agravou as suspeitas de favorecimento, motivando pedidos de auditoria detalhada junto ao Tribunal de Contas do Estado.
O impacto imediato desse novo embate político consiste no severo travamento da interlocução institucional entre o Palácio Paiaguás e a Assembleia Legislativa de Mato Grosso. As declarações de Otaviano Pivetta geraram forte reação do deputado petista Lúdio Cabral, que refutou veementemente as acusações de corrupção eleitoral e prometeu acionar os meios jurídicos cabíveis para restabelecer sua honra. A judicialização da disputa política tende a prolongar o clima de instabilidade, prejudicando a aprovação de matérias de interesse público e a própria fiscalização das obras de mobilidade urbana.
A sociedade mato-grossense permanece como a principal prejudicada pelo prolongamento indefinido dos canteiros de obras que obstruem o tráfego e deterioram o comércio de Cuiabá. Enquanto as lideranças políticas priorizam a disputa de narrativas sobre eventos ocorridos há mais de uma década, o cronograma do BRT segue sem uma definição concreta de entrega.
A expectativa coletiva por um sistema de transporte coletivo moderno e eficiente continua frustrada pela crônica incapacidade de planejamento e pela constante partidarização das soluções de infraestrutura pública.
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