"FOGO AMIGO"
Áudio expõe tensão nos bastidores da ALMT e reacende embate entre servidores e Governo sobre RGA
Na política, a expressão “fogo amigo” descreve ataques, críticas ou sabotagens que partem de aliados, membros do mesmo partido ou integrantes de uma mesma coalizão governamental. Diferente da oposição tradicional, esse fenômeno costuma ser mais prejudicial por vir de dentro, gerando instabilidade e desconfiança na base de apoio. No cenário político atual, o termo tem sido frequentemente utilizado para descrever disputas internas em grandes campos políticos.
“Fogo Amigo”
A divulgação de um áudio atribuído ao deputado estadual Paulo Araújo (PP) provocou forte repercussão política em Mato Grosso e intensificou o debate em torno da Revisão Geral Anual (RGA) dos servidores públicos estaduais. Na gravação, que circulou amplamente entre parlamentares, sindicatos e nas redes sociais nesta quarta-feira (14), o deputado afirma que o governador Mauro Mendes (UB) não demonstra preocupação com o funcionalismo e que a pauta salarial estaria sendo utilizada como instrumento de barganha política dentro da Assembleia Legislativa.
No conteúdo do áudio, Paulo Araújo relata que parte dos deputados condicionaria apoio a matérias de interesse do Executivo à posição do governo sobre a recomposição salarial dos servidores. Segundo ele, cerca de 18 parlamentares estariam utilizando a RGA como moeda de negociação, o que, na avaliação do próprio deputado, tem travado qualquer avanço significativo na discussão sobre o índice de reajuste a ser concedido pelo Estado.
A gravação veio a público em um momento de acirramento das pressões sobre o governo estadual. Servidores públicos lotaram a Assembleia Legislativa Mato-grossense (AL/MT) para cobrar a aprovação da RGA e denunciar uma defasagem salarial acumulada próxima de 20%, resultado de perdas inflacionárias ao longo de vários anos. Apesar disso, o Executivo Estadual sinalizou que pretende conceder apenas 4,26% de reajuste, percentual correspondente à inflação oficial do período, proposta considerada insuficiente pelas categorias.
Aliado histórico do governador, Paulo Araújo afirma no áudio que ouve sempre os mesmos argumentos quando tenta interceder em favor dos servidores. Em um dos trechos mais contundentes, o parlamentar declara que Mauro Mendes já teria assumido publicamente sua resistência às reivindicações do funcionalismo. Para Araújo, a postura do chefe do Executivo Estadual demonstra que a pauta salarial deixou de ser uma prioridade política dentro do governo estadual.
“Ele não está preocupado com o servidor, ele não está preocupado, ele já não esconde isso de ninguém”.
No relato atribuído ao deputado, Mauro Mendes teria comparado salários do serviço público com os da iniciativa privada para justificar a negativa de reajustes acima da inflação. O parlamentar reproduz falas nas quais o governador questionaria a disparidade salarial entre servidores e trabalhadores do setor privado, argumento que, segundo o parlamentar, reforça o distanciamento do Executivo em relação às demandas do funcionalismo.
O áudio também lança luz sobre supostas articulações internas na Assembleia Legislativa. Paulo Araújo menciona práticas como a ocultação ou negociação de votos, o que, na sua avaliação, dificulta a construção de maioria para aprovar um índice de reajuste mais vantajoso aos servidores. As declarações alimentaram críticas de sindicatos, que veem no episódio a confirmação de que o impasse da RGA ultrapassa a esfera técnica e se transformou em disputa política.
“Ele me pergunta: ‘Paulo, você acha certo um enfermeiro ganhar R$ 5 mil na iniciativa privada e R$ 25 mil aqui? Você acha certo ficar digitando parecerzinho?’. Eu digo que acho certo, mas não tem resposta para ele. Ele já comprou a briga com o servidor, esquece“.
A repercussão da gravação ampliou o desgaste entre o governo estadual e as categorias do serviço público, além de gerar desconforto entre parlamentares aliados do Executivo. O tema ganhou ainda mais centralidade diante da convocação de sessão extraordinária para discutir a RGA, considerada decisiva para definir se o reajuste será limitado à inflação ou se haverá abertura para recomposição parcial das perdas acumuladas.
Até o fechamento desta matéria, nem o deputado Paulo Araújo nem a assessoria do governador Mauro Mendes haviam se manifestado oficialmente sobre a autenticidade ou o conteúdo do áudio. Nos bastidores da Assembleia Legislativa, entretanto, a avaliação predominante é de que as declarações devem influenciar diretamente as articulações políticas e o clima da votação, aprofundando o embate entre Executivo, Parlamento e servidores públicos estaduais.

Paulo Araújo acusa o jornalista de realizar uma “gravação clandestina e criminosa”
O deputado estadual Paulo Araújo acusou o jornalista de realizar uma “gravação clandestina e criminosa”. Tal afirmação é juridicamente infundada e demonstra desconhecimento, ou má-fé, sobre a jurisprudência brasileira e o papel da imprensa.
O fato ocorreu nos corredores da Assembleia Legislativa Mato-grossense (AL/MT), local de trânsito livre e espaço público por excelência. Um deputado, no exercício do mandato, discutindo pautas governamentais (RGA e gestão pública), não goza de expectativa de privacidade que se sobreponha ao interesse público. O jornalista Lázaro Thor não instalou uma escuta ilegal (grampo); ele estava presente, exercendo sua profissão em local onde a circulação da imprensa é livre e necessária.
O Supremo Tribunal Federal (STF) possui entendimento consolidado (Tema 237 da Repercussão Geral – RE 583.937) de que é lícita a gravação de conversa ambiental realizada por um dos interlocutores ou por quem esteja presente no ambiente, ainda que sem o conhecimento dos demais, especialmente quando não há reserva legal de sigilo.

O Sindicato defende o jornalismo, não o silêncio
O deputado Paulo Araújo sugeriu, em entrevista, que o SINDJOR/MT deveria “repreender” tal conduta. A resposta deste sindicato é clara: nós não repreendemos o jornalismo; nós o defendemos.
Ao classificar a reportagem como “criminosa”, o parlamentar tenta criar uma cortina de fumaça para desviar o foco do conteúdo revelado: a admissão de que o governo estadual “não está preocupado com o servidor”. O jornalista apenas retirou o véu da retórica oficial, entregando à população a verdade dos fatos. Isso não é crime; isso é a essência do jornalismo fiscalizatório. A alegação de que o áudio foi “tirado de contexto” é o refúgio habitual de quem não consegue sustentar suas próprias palavras quando elas vêm a público.
O Supremo Tribunal Federal (STF) possui entendimento consolidado (Tema 237 da Repercussão Geral – RE 583.937) de que é lícita a gravação de conversa ambiental realizada por um dos interlocutores ou por quem esteja presente no ambiente, ainda que sem o conhecimento dos demais, especialmente quando não há reserva legal de sigilo.
Política
Invasão cibernética na Saúde alimenta embate político em Mato Grosso
Um sofisticado incidente cibernético violou a infraestrutura tecnológica da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), deflagrando uma crise institucional que mobiliza o Poder Executivo e a Assembleia Legislativa Mato-grossense (AL/MT). O episódio, classificado tecnicamente como uma “invasão hacker”, desestabilizou a percepção de segurança dos sistemas governamentais e gerou imediata repercussão no cenário político local. O evento expõe a vulnerabilidade digital da administração pública frente a ameaças externas cada vez mais ousadas e coordenadas.
Os alvos diretos e indiretos dessa ação criminosa envolvem a própria Secretaria de Saúde, responsável pelo gerenciamento de dados assistenciais, e a Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso (ALMT), que atua como órgão fiscalizador. O presidente do Parlamento Estadual, deputado Max Russi (Podemos), assumiu o protagonismo institucional ao externar profunda preocupação com o ocorrido, enquanto a equipe técnica da pasta de Saúde e os investigadores da Polícia Civil desdobram-se para mitigar os danos colaterais e identificar os autores do ataque.
As consequências imediatas do ataque cibernético resultaram no impacto restrito a um volume inferior a 1 Terabyte (TB) de informações do acervo digital da pasta, o qual acabou sendo integralmente recuperado por meio de sistemas de contingência e redundância. No entanto, o desdobramento mais crítico manifestou-se no plano político, manifestado pelo temor de que o apagão de dados pudesse inviabilizar o fornecimento de documentos essenciais para os trabalhos de fiscalização parlamentar em andamento na capital do estado.
O epicentro do incidente localiza-se nos servidores centrais da Secretaria de Saúde, situados no Centro Político Administrativo de Cuiabá, irradiando seus efeitos institucionais diretamente para o Palácio Paschoal Moreira Cabral, sede do Poder Legislativo Mato-grossense.

A proximidade geográfica e administrativa dessas instituições amplificou o eco do debate sobre a eficiência da infraestrutura tecnológica pública estadual, transformando a capital mineira-mútua do Agronegócio em um palco de intensas cobranças governamentais.
A identificação original do ataque digital ocorreu em meados de março de 2026, porém o ápice do tensionamento institucional consolidou-se nesta quarta-feira, 3 de junho, durante uma sessão coletiva de imprensa convocada pelo presidente da Casa de Leis. O momento cronológico do anúncio revelou-se extremamente sensível, por coincidir exatamente com a fase de instalação e estruturação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar a gestão da Saúde Pública no Estado.
A motivação presumida por trás da ação criminosa assume contornos ambíguos, dividindo-se entre a tentativa de extorsão financeira, prontamente rechaçada pelo Executivo, que negou qualquer pagamento de resgate, e a suspeita de sabotagem política. Parlamentares mais incisivos levantaram a hipótese de que a invasão visava ocultar passivos administrativos, embora a liderança do Legislativo tenda a encarar o episódio como uma nefasta coincidência oportunista que se aproveitou de fragilidades estruturais do sistema.
As justificativas técnicas apresentadas pela Secretaria de Saúde fundamentam-se na robustez de seus protocolos de segurança da informação, os quais permitiram o restabelecimento célere das atividades institucionais sem prejuízo ao atendimento da população. Por sua vez, a justificativa para a reação veemente do Parlamento baseia-se no dever constitucional de fiscalização, sustentando que qualquer instabilidade em bancos de dados governamentais representa uma ameaça direta à transparência e à estabilidade social.
O método operacional utilizado pelos criminosos consistiu na quebra de barreiras digitais de criptografia para acessar a rede interna da secretaria, seguido de uma suposta exigência financeira ilegal que acabou ignorada pelas autoridades. Do lado institucional, o método de resposta envolveu o acionamento imediato da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos e Cibernéticos (DRCI) para subsidiar a investigação criminal, além do anúncio de auditorias nos sistemas redundantes do Estado.

Os desdobramentos futuros desse imbróglio apontam para uma inevitável reformulação nas políticas de investimentos em segurança cibernética de Mato Grosso, com pressões para o fortalecimento da Empresa Pública de Tecnologia da Informação (MTI). Além disso, a Mesa Diretora do Legislativo garantiu que a comissão investigativa requisitará auditorias independentes para assegurar que nenhum dado relevante tenha sido permanentemente suprimido ou mascarado durante o período em que o sistema esteve vulnerável.
As perspectivas de encerramento do caso dependem agora do avanço do inquérito policial e da capacidade de o Estado demonstrar que seus mecanismos de salvaguarda digital são invioláveis contra futuras incursões. O presidente da Assembleia Legislativa assegurou que as investigações da CPI não sofrerão paralisações ou entraves técnicos, visto que os mecanismos de armazenamento externo garantirão o fluxo contínuo de provas, blindando o processo político contra interferências do crime virtual.
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