AS ENGRENAGENS DA CORRUPÇÃO
Esquema de desvio de Emendas Parlamentares ultrapassa os R$ 6 milhões
O Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), por intermédio do Núcleo de Ações de Competência Originária (Naco), deflagrou, na manhã desta quinta-feira, 30 de abril de 2026, a “Operação Emenda Oculta“. A ofensiva institucional visa desmantelar uma sofisticada estrutura criminosa dedicada ao desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares, que deveriam ser aplicadas em projetos sociais e esportivos. A operação marca um capítulo rigoroso no combate à malversação do erário, focando na interrupção de fluxos financeiros ilícitos que comprometem a integridade das instituições democráticas e a eficácia das políticas públicas destinadas à população mato-grossense.
A ação investigativa recaiu sobre figuras centrais do cenário político local, tendo como alvos principais o deputado estadual Elizeu Nascimento (Novo) e seu irmão, o vereador por Cuiabá, Cezinha Nascimento (UB). Ambos são suspeitos de chefiar e se beneficiar de um esquema que utilizava institutos do terceiro setor como fachada para a drenagem de valores vultosos. O envolvimento de parlamentares de diferentes esferas sublinha a capilaridade da organização investigada, que teria estabelecido uma rede de influência capaz de manipular o direcionamento de recursos orçamentários em benefício próprio, sob o pretexto de fomento a atividades de interesse social.
A gênese da operação remete a auditorias e cruzamentos de dados que identificaram irregularidades sistemáticas no Instituto Social Mato-grossense (Ismat) e no Instituto Brasil Central (Ibrace). Estas entidades foram contempladas com montantes que totalizam, apenas no exercício financeiro de 2025, aproximadamente R$ 6,2 milhões em emendas parlamentares.

A discrepância entre os valores aportados e a execução efetiva dos serviços despertou a atenção das autoridades, que passaram a monitorar a movimentação financeira dessas instituições, revelando indícios robustos de que as organizações serviam apenas como entrepostos para a lavagem e a posterior distribuição de dinheiro a agentes públicos.
O modus operandi da organização consistia no repasse estratégico de recursos públicos para a empresa Sem Limite Esporte e Evento Ltda., que atuava como prestadora de serviços dos institutos. Após o recebimento dos valores estatais, a empresa procedia à devolução de parcelas significativas do montante aos parlamentares responsáveis pela indicação das emendas. Esse mecanismo de “retorno” financeiro era operado por meio de transações dissimuladas, visando ocultar a origem e o destino dos valores.
Trata-se de uma simbiose corrupta entre o setor privado e o poder legislativo, na qual o interesse público era secundarizado em favor do enriquecimento ilícito dos envolvidos.
Durante o cumprimento dos mandados judiciais, a materialidade dos fatos tornou-se evidente com a apreensão de R$ 200 mil em espécie nas residências dos parlamentares investigados. Na moradia do deputado Elizeu Nascimento, agentes do Naco localizaram R$ 150 mil em cédulas de diversos valores, enquanto na casa do vereador Cezinha Nascimento foram encontrados outros R$ 50 mil. A posse de altas somas em dinheiro vivo, sem justificativa imediata de origem lícita, corrobora a tese ministerial de circulação marginal de capital e reforça a necessidade das medidas cautelares adotadas para preservar a instrução processual e evitar a ocultação de novas provas.
No âmbito da Assembleia Legislativa Mato-grossense, destaca-se que Elizeu Nascimento destinou R$ 2,8 milhões diretamente ao Ismat, valor este que já foi efetivamente liquidado conforme registros do Portal da Transparência. Outros parlamentares, como Gilberto Cattani (PL), Dr. Eugênio (PSB) e Diego Guimarães (Republicanos), também direcionaram emendas às entidades sob investigação, somando repasses que variam entre R$ 300 mil e R$ 2,14 milhões.

É imperativo ressaltar que, até o presente estágio das apurações, esses outros deputados não são alvos de medidas restritivas, embora suas indicações orçamentárias estejam sob escrutínio para verificar se houve má-fé ou indução ao erro.
A “Operação Emenda Oculta“ é descrita pelos investigadores como um desdobramento técnico da “Operação Gorjeta“, realizada em janeiro deste ano, que culminou no afastamento do vereador Chico 2000 (PL). A continuidade das investigações demonstra um efeito dominó, no qual a análise de dispositivos eletrônicos e documentos apreendidos em fases anteriores permitiu aos promotores desenhar o organograma completo da rede de corrupção.
A conexão entre as operações revela que o desvio de emendas parlamentares em Mato Grosso não era um fato isolado, mas uma prática institucionalizada em determinados nichos políticos que agora enfrentam o rigor da lei.
Em resposta às graves acusações, o deputado Elizeu Nascimento emitiu nota oficial afirmando acompanhar os desdobramentos com serenidade e reiterando seu compromisso com a legalidade. A defesa do parlamentar sustenta que todos os recursos foram destinados dentro dos trâmites regimentais e que a verdade prevalecerá no curso do processo. O vereador Cezinha Nascimento, por sua vez, ainda não apresentou uma defesa detalhada sobre a origem do numerário apreendido em sua residência, limitando-se a declarar, por intermédio de seus advogados, que colaborará integralmente com a justiça para esclarecer os fatos ocorridos.
As agremiações partidárias dos envolvidos manifestaram-se de forma cautelosa, porém assertiva, quanto à conduta ética de seus quadros.
O Partido Novo em Mato Grosso assegurou que adotará medidas drásticas e imediatas caso a corrupção seja comprovada, mantendo o rigor ético que caracteriza seu estatuto. Simultaneamente, o União Brasil, sob a liderança de Gisela Simona em Cuiabá, informou que busca o acesso integral aos autos para fundamentar as providências administrativas e disciplinares cabíveis. Ambas as siglas sinalizam que não oferecerão salvaguarda política a comportamentos que afrontem a moralidade administrativa.
O desfecho desta operação projeta repercussões profundas na governabilidade e na confiança pública durante o ano de 2026. A Justiça agora avalia a manutenção das medidas cautelares e a possível conversão das buscas em ações penais robustas. Enquanto o Ministério Público aprofunda a perícia nos materiais apreendidos, a sociedade mato-grossense aguarda a responsabilização rigorosa dos culpados e a recuperação dos valores desviados. O caso serve como um alerta contundente de que os mecanismos de controle estatal estão cada vez mais aptos a detectar e punir o uso indevido do tesouro público, reafirmando que a transparência é o único caminho legítimo para a atividade parlamentar.
Destaques
Deputado estadual e vereador de Cuiabá são investigados na “Operação Emenda Oculta”
A “Operação Emenda Oculta” do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), desta quinta-feira (30), tem como alvos o deputado estadual Elizeu Nascimento (Novo) e seu irmão, o vereador cuiabano Cezinha Nascimento (União), acusados de desvio de Emendas Parlamentares. A investigação apura um esquema de desvio de emendas destinadas ao Instituto Social Mato-grossense (Ismat) e ao Instituto Brasil Central (Ibrace).
Pelo menos R$ 200 mil em espécie foram apreendidos durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão, nas casas do deputado estadual Elizeu Nascimento (Novo) e do seu irmão, o vereador Cezinha Nascimento (UB). Na casa do deputado estadual, foram apreendidos R$ 150 mil em notas de R$ 100 e R$ 50. Já na residência do vereador, o valor apreendido foi de R$ 50 mil, também em notas de R$ 100 e R$ 50. A apreensão da dinheirama foi feita por agentes do Núcleo de Ações de Competência Originária (Naco), do Ministério Público.
A operação cumpriu medidas cautelares de busca e apreensão contra servidores, particulares e os dois parlamentares. Os recursos eram repassados à empresa Sem Limite Esporte e Evento Ltda. Após o recebimento dos valores, a empresa devolvia parte do montante aos parlamentares responsáveis pelas Emendas Parlamentares.
Operação Gorjeta
A ação é um desdobramento da Operação Gorjeta, que apurou o desvios de verbas do vereador Francisco Carlos Amorim, o Chico 2000, por meio do Instituto Ibrace.
Em janeiro deste ano, o vereador Chico 2000 foi alvo da Polícia Civil, que apurou o desvio de recursos públicos e a prática dos crimes de peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Além do vereador, a operação também mirou o presidente do Instituto Brasil Central (Ibrace), Alex Jones Silva, e o empresário João Nery Chiroli, da empresa Chiroli Uniformes.
A Polícia Civil apontou que servidores, empresários e o vereador, teria se associado para direcionar Emendas Parlamentares ao Instituto Brasil Central (Ibrace) e à empresa Chiroli Uniformes, sendo que parte dos recursos era posteriormente “devolvida” ao vereador Chico 2000, responsável pela destinação das Emendas dos Parlamentares.
Após a operação, o juiz Cássio Leite de Barros Netto determinou a realização de auditoria, no prazo de 120 dias, em 12 Emendas Parlamentares destinadas por vereadores de Cuiabá ao Instituto Brasil Central (Ibrace).
Das 12 Emendas a serem auditadas, sete são de autoria do vereador Chico 2000, totalizando R$ 3,65 milhões. Ele foi afastado do cargo e teve bens bloqueados na operação, assim como o Instituto Brasil Central (Ibrace).
Outras três emendas repassadas foram realizados entre 2023 e 2025, e são de autoria dos vereadores Cezinha Nascimento (UB), no valor de R$ 728 mil, e Dídimo Vovô (PSB), no total de R$ 100 mil, além do ex-vereador Dr. Luiz Fernando, que destinou R$ 350 mil.
O União Brasil informa por meio da presidente do diretório da legenda, em Cuiabá, Gisela Simona, que o partido está acompanhando de perto as notícias veiculadas nesta sexta-feira (30), sobre suposto envolvimento do vereador Cezinha Nascimento, filiado à sigla, em esquema de cobrança relacionado à destinação de emendas parlamentares. Em operação deflagrada pelo Núcleo de Ações de Competências Originárias (Naco), do Ministério Público Estadual (MPE/MT).
Segue nota abaixo na íntegra
NOTA PÚBLICA
O União Brasil em Cuiabá, por meio de sua presidente, Gisela Simona, informa que está acompanhando com atenção as notícias envolvendo o vereador Cezinha Nascimento, alvo de operação de busca e apreensão.
O partido ressalta que, até o momento, busca se inteirar plenamente dos fatos e das circunstâncias que envolvem o caso. Reforçamos nosso compromisso com a transparência, a legalidade e o devido processo legal.
Assim que houver conhecimento integral da situação, o União Brasil adotará todas as medidas cabíveis, em conformidade com seu estatuto e com a legislação vigente.
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