Artigo
Para que serve a poesia no século 21?
Autor: Marcelo Gomes Jorge Feres* –
Podemos dizer, sem grande exagero, que a poesia foi mãe da filosofia e, de certo modo, avó das ciências. Se voltarmos à tradição ocidental, veremos que a busca pelo sentido da vida não é algo novo. Antes mesmo das explicações racionais da filosofia, vieram os mitos e as poesias. No mundo grego arcaico, os aedos e rapsodos já narravam, em versos, as origens, os conflitos, os deuses, os destinos e os mistérios da existência.
Isso porque o ser humano, antes de explicar o mundo, precisou senti-lo. Antes das razões organizadas, vieram os espantos, como no homem que sai da caverna de Platão e se assombra com o real. E é justamente desse “thaumazéin”, como diriam os gregos, que nasceu a necessidade humana de uma linguagem simbólica, sensível e interior.
A poesia sempre serviu como um modo de nomear aquilo que escapa. Ela não existe apenas para ornamentar a linguagem ou embelezar a realidade. Sua função mais profunda talvez seja a de restituir espessura à vida. Em outras palavras, ela nos ajuda a perceber que viver não é apenas funcionar. E esse ponto parece decisivo no século 21.
Vivemos um tempo de aceleração contínua, de produtividade compulsória e de materialismos cada vez mais externos. Tudo nos empurra para fora: para a performance, para a exposição, para a utilidade, para o consumo veloz de conteúdos e sensações. E, assim, o espaço do silêncio e da contemplação vai sendo comprimido.
Talvez por isso tanta gente experimente, hoje, uma estranha falta de sentido mesmo em meio a tantas possibilidades. Há informação em abundância, mas há pouca assimilação. Há conexão o tempo todo, mas pouca presença. Há discursos por toda parte, mas escasseiam as palavras que realmente toquem o ser.
Quando quase tudo precisa “servir para alguma coisa” de modo prático, a poesia nos recorda que há valor também no invisível, e isso não é pouco. Ela nos devolve àquilo que ainda pulsa sob a rotina endurecida, e lembra que nem tudo o que importa pode ser medido, monetizado ou imediatamente explicado.
Não por acaso, eu ainda gosto de voltar, em espírito, à Grécia antiga, aos templos, a Delfos, ao “conhece-te a ti mesmo”. Não por nostalgia estéril, mas porque ali permanece uma intuição decisiva: a de que o ser humano não vive apenas de respostas externas.
Há algo que precisa ser buscado adentro e a poesia continua sendo uma das linguagens mais aptas para essa travessia interior.
*Marcelo Gomes Jorge Feres é historiador, escritor, estudante de Filosofia e autor do livro O balbuciar de um eterno, sob o pseudônimo de Dionysius Fredericus.
Artigos
Fandango Caiçara: uma tradição que permanece (no tempo)
Autor: Rodrigo Fonseca* –
Poucas manifestações culturais conseguem atravessar séculos sem desaparecer. O Fandango Caiçara é uma delas. Presente no litoral sul e sudeste do Brasil, essa prática segue viva mesmo diante das profundas transformações sociais, econômicas e culturais do país.
Segundo o Diccionario de Autoridades da Real Academia Española, de 1732, o Fandango é descrito como um “baile introduzido por aqueles que vieram dos reinos ‘Las Índias’, realizado ao som de uma melodia muito alegre e festiva”. Essa definição remete ao contexto do início do século XVIII, quando os espanhóis denominavam suas terras colonizadas nas Américas como “Las Índias”, o que indica que o Fandango já era uma prática festiva nas regiões coloniais das Américas.
Já o historiador Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, descreve o Fandango praticado no Norte e Nordeste como um “auto popular dos marujos”, enquanto nas regiões Sul e Sudeste aparece como uma festa com danças variadas, como o rufado, marcado pelo sapateado, e o valsado, realizado em pares. É esse Fandango do litoral de São Paulo e Paraná que viria a ser reconhecido, em 2012, como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Caracterizado por instrumentos artesanais como a rabeca, a viola caiçara, o machete, a caixa de folia e o adufe, o Fandango embalou por séculos as festas após os mutirões comunitários. Mais do que música e dança, ele expressa modos de vida, relações comunitárias e saberes tradicionais; é nessa dimensão cultural que habita sua força temporal.
No Brasil, pouco se discute como essas culturas resistem ao tempo. Em um país marcado pela velocidade e pelo consumo, práticas enraizadas em territórios são frequentemente invisibilizadas ou tratadas como vestígios do passado.
Nas últimas décadas, a cultura de massa, a urbanização e as transformações territoriais trouxeram desafios reais. Ainda assim, o Fandango não desapareceu. Ao contrário, se reorganizou e hoje circula entre festas comunitárias, festivais e apresentações institucionais. Entre elas, destacam-se a Festa Nacional do Fandango Caiçara, em Paranaguá, e as festas realizadas em Cananéia e Ubatuba.
Essa permanência revela que culturas populares não são estáticas: elas se transformam e dialogam com o presente sem romper com suas raízes. Mais do que preservar, é preciso reconhecer essas manifestações como formas legítimas de conhecimento e fortalecer as comunidades que as mantêm vivas.
*Rodrigo Fonseca é autor do livro “A Comunicação da Cultura Popular”, artista multimídia, produtor cultural, pesquisador e doutorando em Comunicação e Cultura na Universidade de Sorocaba.
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