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TEMPO DA CRIAÇÃO E O CALENDÁRIO ECOLÓGICO

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Autor: Juacy da Silva*

Estamos em pleno período de 01 de Setembro a 04 de Outubro, quando as Igrejas Cristãos, Católica Romanda, Ortodoxa e evangélicas celebram o TEMPO DA CRIAÇÃO. Um tempo de reflexão, de orações, mas, também que representa um chamado `as ações voltadas ao um melhor com a natureza e também `a população que sofre as consequências da degradação dos biomas e ecossistemas, principalmente os pobres e excluídos, sobre os quais esses impactos são mais devastadores.

Por isso, desde 2015, com a publicação da Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco já nos exortava dizendo que, neste planeta terra, “tudo está interligado”, a destruição das florestas tropicais afetam o clima mundial; a poluição ar é responsável por mais de sete milhões de mortes desnecessárias todos os anos; a degradação das águas, tanto de córregos, rios, mares e oceanos, principalmente desses últimos, afeta o clima, o regime das chuvas, provocando secas prolongadas que favorecem os incêndios florestais, a elevação do nível e da temperatura dos oceanos e contribuem para o derretimento das calotas polares e as geleiras, favorecendo desastres “naturais” como temos presenciado nesses últimos dias no Nepal e, com certeza, muitas outras consequências ainda virão nos próximos anos e décadas.

De forma semelhante, também o Papa Francisco, na mesma Encíclica Laudato Si nos alertava quanto `as consequências da destruição dos ecossistemas e biomas que recaem com muito mais impacto sobre as populações vulneráveis, ao afirmar textualmente que “o grito da terra é também o grito dos pobres e excluídos”.

E, para finalizar esta reflexão não podemos deixar de mencionar que todo este processo de destruição da natureza, da biodiversidade, das águas, a poluição dos solos e do ar, são os responsáveis diretos pela aquecimento global e aumento da temperatura da terra já esta impactando a saúde da população, a economia e poderá impossibilitar todos os tipos de vida no planeta, principalmente dos seres humanos.

Lamentavelmente, os responsáveis pelos sistemas políticos e pela economia não percebem que esta visão imediatista, a busca de lucro imediata sem considerar os limites da natureza é a grande causa de todas as mazelas que está se abatendo sobre a “mãe terra”.

Ao longo desses 34 dias do Tempo da Criação, como podemos perceber, existem diversos momentos relacionados diretamente com aspectos importantes da Ecologia Integral. Este deveria ser um tempo de reflexão sobre cada um desses momentos e buscarmos compreender melhor este processo de destruição socioambiental, para, de fato encontrarmos as saídas.

Essas saídas devem ter início com um processo de “conversão ecológica”, como também foi enfatizado na Encíclica Laudato Si, através da qual podemos transformar nossos hábitos consumistas e de desperdício que tanto impactam o meio ambiente, da mesma forma que precisamos lutar para que os sistemas econômicos predatórios e que estão exaurindo os recursos naturais, deixando um passivo ambiental impagável possam ser transformados, tendo a sustentabilidade e o respeito aos consumidores, aos trabalhadores seus novos paradigmas.

Cabe-nos ressaltar que o tema central do Tempo da Criação deste ano de 2026 é AGUA VIVA e isto nos remete a gravidade da crise hídrica que atualmente afeta praticamente todos os países, inclusive o Brasil.

No nosso caso (Brasil) esses impactos já estão sentido há algumas décadas, mas a omissão de nossos governantes, do empresariado e também da própria população esta nos conduzindo para uma verdadeira catástrofe.

Todos os biomas brasileiros tem sofrido os impactos negativos da crise hídrica que decorre das alterações no clima ao intensificarem os eventos extremos em todo o país, aproximando ecossistemas vitais do chamado “ponto de não retorno”.

Por exemplo, a Amazônia tem sofrido com secas históricas jamais vistas e sentidos ao longo de décadas, com redução do volume de água de seus rios e dos chamados rios voadores, importantes para o clima das demais regiões do pais, em decorrência do desmatamento ocorrido ao longo de várias décadas também.

O Cerrado tem experimentado períodos de secas mais prolongados, destruição de suas nascentes, afetando diversas bacias hidrográficas e a destruição de sua rica biodiversidade, em decorrência de um modelo agropastoril que não respeita o bioma.

O Pantanal, considerado um dos mais exuberantes patrimônio da humanidade pela UNESCO, ao longo das últimas quatro décadas já perdeu de 30% de sua superfície de água e mais de 20 milhões de hectares pelo desmatamento incêndios florestais, inclusive de natureza criminosa.

Os rios e bacias que “abastecem” o Pantanal, como os Rios Cuiabá, Paraguai, São Lourenço e outros mais estão morrendo pela destruição de suas nascentes, pela poluição urbana, pelo agrotóxico, pelo mercúrio de garimpos legais ou ilegais e também pela presença de inúmeras PCHs – Pequenas Centrais hidrelétrica que estão reduzindo a vazão desses cursos d’água.

Os demais biomas como a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa também enfrentam sérios problemas hídricos, afetando principalmente Centros Urbanos importantes e com milhões de habitantes como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre.

Ao longo desses 34 dias do Tempo da Criação teremos 20 dias especiais, vários dos quais diretamente ou indiretamente relacionados com a crise hídrica brasileira e outros mais que nos remetem para a necessidade de um cuidado especial tanto no sentido da preservação quanto da conservação, diante da importância dos mesmos no equilíbrio socioambiental/ecológico.

Tendo em vista a origem das celebrações do Tempo da Criação, julgamos importante que tanto a Igreja Católica quanto evangélicas, enfim, o povo cristão demonstrem na prática e não apenas com orações, a necessidade de um melhor cuidado com as obra da criação, sendo coerentes com a fé cristão diante do Criador.

Segue a relação dos momentos especiais que devemos, como cristãos, observarmos e celebrarmos durante esses 34 dias do Tempo da Criação, entre 01 de setembro até 04 de Outubro.

SETEMBRO

1º de setembro a 4 de outubro: Tempo da Criação
01 Festa da Criação e momento de abertura do Tempo da Criação
01 Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação
03 Dia do Biólogo
05 Dia da Amazônia
05 Dia Internacional da Sobrecarga de plásticos (Dia Internacional do excesso de plásticos)
07 Dia da Independência do Brasil
07 Dia Mundial do Ar Limpo (Combate `a poluição do Ar)
11 Dia Nacional do Cerrado
16 Dia Internacional de luta para a preservação da Camada de Ozônio
19 Dia Mundial de luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de Março)
21 Dia da Árvore (ver também 21 de Março e 17 Julho)
22 Dia Nacional em defesa da Fauna
25 Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
29 DIA Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Deperdício Zero). Ver também 30 de Março
29 Dia Mundial dos Rios

OUTUBRO

01 Dia Internacional e Nacional das Pessoas Idosas
01 Dia do Vegetarianismo
03 Dia Nacional da Agroecologia
03 Dia Nacional das Abelhas (ver 20 de Maio)
04 Dia de São Francisco de Assis e Encerramento do Tempo da Criação
04 Dia da Natureza
04 Dia dos Animais

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral.

E-mail [email protected]
Instagram @profjuacy
WhatsApp 65 9 9272 0052

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Violência contra as mulheres da Enfermagem: do plantão às redes sociais, não podemos mais normalizar

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Autora: Iracema Alencar*

Falar sobre violência contra a Enfermagem é falar, inevitavelmente, sobre violência contra as mulheres. Cerca de 85% da força de trabalho da Enfermagem brasileira é feminina. Portanto, quando discutimos agressões, assédio, humilhações e ameaças dirigidas à categoria, existe uma dimensão de gênero que não pode ser ignorada.

Essa violência está no ambiente de trabalho, mas não termina quando a profissional encerra o plantão. Ela atravessou as portas dos hospitais e unidades de saúde e chegou às redes sociais. Hoje, uma enfermeira pode ser agredida verbalmente durante o exercício profissional e continuar sendo atacada na internet, muitas vezes com exposição de sua imagem, comentários sobre seu corpo, insinuações sexuais, ofensas misóginas e tentativas de desqualificá-la não pelo trabalho que realiza, mas pelo fato de ser mulher.

Isso também é violência.

Existe, ainda, uma característica particularmente perversa nesses ataques: quando a vítima é uma mulher da Enfermagem, a agressão frequentemente ganha conotação sexual.

Não podemos discutir esse problema sem enfrentar um estereótipo que acompanha a profissão há décadas. A figura da “enfermeira sexy”, transformada em fantasia, piada ou fetiche, pode parecer inofensiva para alguns, mas contribui para desumanizar e desprofissionalizar mulheres que exercem uma atividade científica, técnica e de enorme responsabilidade.

O próprio Conselho Federal de Enfermagem já alertou que a erotização da profissão ajuda a perpetuar uma cultura na qual profissionais são submetidas a piadas machistas, abordagens de conteúdo sexual, assédio e outras formas de violência.

Uma enfermeira não é uma fantasia. É uma profissional de saúde.

A dimensão do problema exige resposta. Levantamento divulgado pelo Coren-SP em 2026, com 4.402 profissionais, mostrou que 72,6% dos entrevistados sofreram algum tipo de violência no trabalho nos 12 meses anteriores. Entre as vítimas, 89,2% relataram violência verbal, 73,8% psicológica e 19,2% física.

Mas os números não mostram tudo. Existe uma violência cotidiana que muitas vezes sequer chega às estatísticas: a profissional que recebe uma mensagem de conteúdo sexual; aquela cuja fotografia é compartilhada com comentários sobre seu corpo; a que é atacada nas redes depois de um atendimento; a que sofre insinuações de pacientes, acompanhantes, colegas ou superiores. E há aquelas que permanecem em silêncio por medo de exposição, retaliação ou julgamento.

Não podemos exigir que essas mulheres aprendam a conviver com isso.

Também precisamos discutir por que uma profissão formada majoritariamente por mulheres ainda enfrenta tantas formas de desrespeito. A Enfermagem carrega uma herança histórica que associou o cuidado a uma suposta obrigação feminina, como se cuidar fosse uma extensão natural do papel da mulher, e não uma atividade profissional que exige conhecimento científico, formação, responsabilidade técnica e tomada de decisões.

Essa percepção ajuda a alimentar não apenas a sexualização, mas também a desvalorização profissional.

Por isso, combater a violência de gênero na Enfermagem não significa apenas punir quem agride. Significa discutir relações de poder, condições de trabalho, valorização, autonomia profissional e a presença das mulheres nos espaços onde as decisões são tomadas.

Precisamos de mecanismos efetivos de acolhimento e denúncia, orientação para preservar provas de ataques digitais e instituições preparadas para agir diante do assédio. Uma profissional que denuncia não cria um problema. O problema é a violência, não a denúncia.

Os Conselhos de Enfermagem também têm responsabilidade nesse enfrentamento. Fiscalizar o exercício profissional é essencial, mas proteger a dignidade da profissão e de seus profissionais também precisa ocupar lugar central na atuação institucional. O Sistema Cofen/Conselhos Regionais já possui uma política de prevenção e enfrentamento ao assédio moral, sexual e à discriminação, inclusive para condutas praticadas em ambientes virtuais. É preciso fazer com que essa proteção alcance efetivamente quem está na ponta.

Essa é, sim, uma discussão política. Não político-partidária, mas política no sentido de decidir quais relações de trabalho e quais comportamentos estamos dispostos a aceitar como sociedade.

Não é aceitável que uma mulher seja sexualizada porque veste um uniforme de Enfermagem. Não é aceitável que saia de um plantão exaustivo e encontre no celular uma nova extensão da violência que sofreu durante o trabalho.

A Enfermagem brasileira é majoritariamente feminina. Defender a profissão passa, necessariamente, por defender essas mulheres.

Quem cuida também tem direito à proteção. E nenhuma mulher da Enfermagem deve considerar o assédio, a humilhação ou a violência — presencial ou digital — como parte do seu trabalho

*Iracema Paulino de Alencar é enfermeira e obstetra, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT, com trajetória na gestão pública, assistência, docência e formação em saúde.

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