Artigo
Sobre privatizações de Petrobrás e Correios
Autor: Cássio Faeddo –
Em mais uma de suas promessas de planos infalíveis para salvar o país, o ministro Paulo Guedes declarou recentemente que o governo precisa agilizar as privatizações de Correios e Petrobras.
Afirmou que os Correios correm o risco de se tornarem uma empresa irrelevante em dois ou três anos. O mesmo destino, de perder valor, estaria reservado à gigante estatal Petrobras, pois na visão de Guedes, o mundo inteiro está indo em direção à economia verde e não necessitará mais de combustíveis fósseis.
Mesmo que houvesse um traço de razão nas afirmações, fica claro que Paulo Guedes é daqueles péssimos vendedores que desvalorizam seus produtos no momento de vendê-los.
Guedes pode até ser um economista com boa formação, afirmando ter lido Keynes no original diante de seus pares, mas deixa a desejar quando o assunto é o interesse nacional.
Perguntamos, a China negociaria as suas estatais de energia em um momento de escassez energética? Não, mas Paulo Guedes diz que é ótimo negócio.
Paulo Guedes sabe, mas os incautos aos quais ele dirige tais absurdos talvez não. Combustível é o fim menos nobre para o petróleo.
O petróleo é matéria prima para a indústria química e serve para a fabricação de produtos como cosméticos, tintas, solventes, roupas, resina, parafinas, conservantes, corantes, flavorizantes, produtos plásticos, benzeno em alguns analgésicos, produtos de limpeza como detergente e desengordurantes, borracha sintética (para pneus, tênis e calçados, por exemplo), asfalto, giz de cera e até goma de mascar, como ilustrações.
Paulo Guedes sabe de tudo isso com certeza, mas prefere dizer que economia verde vai engolir a Petrobras. Bilhões de veículos, para Guedes, serão substituídos na velocidade de dobra espacial de “Jornada nas Estrelas”. É a mesma conversa de quem professa que tudo agora é indústria 4.0, decretando o fim de produção manufaturada e do emprego. Já conhecemos o destino das certezas como as narradas na obra “O fim da história” de Francis Fukuyama.
Entregar a energia para uma estatal norueguesa ou chinesa definitivamente não parece uma boa ideia em termos de soberania em tempos de Brexit.
Quanto aos Correios, é uma empresa de logística lucrativa, com ampla capilaridade, que faz chegar aos mais distantes locais do país toda espécie de encomenda, no imenso e crescente mercado de compras remotas.
Para Guedes os Correios perderão valor e sucumbirão à concorrência que prestará o mesmo serviço. Paulo Guedes precisa sair da Faria Lima urgentemente para conhecer os rincões deste país.
Em um tempo de crescimento vertiginoso de negócios on line, o ministro da economia desvaloriza e quer vender na sequência a estatal de logística.
O problema nunca foi uma empresa ser estatal ou privada, mas como se lida com a gestão. Acreditar que não ocorre corrupção privada, com custo na ponta final, o consumidor, é um devaneio brasileiro.
Prejuízo, os Correios não dão, tendo superávit nos últimos 20 anos, e repassado 73% dos resultados positivos para seu acionista, o governo federal.
A história é a mesma, elegemos gestores que têm como solução, em face de inépcia gerencial, o repasse de nossos ativos depreciados para a iniciativa privada.
A depreciação ocorre por todos os meios, até com declarações que desvalorizam as empresas antes de vendê-las.
As privatizações devem ser amplamente debatidas na campanha eleitoral de 2022, mas com dados e fatos. Não se pode manipular o eleitor com temas polêmicos, a maioria irrealistas e sobre costumes, para esconder assuntos de vital importância para a soberania nacional.
– Cássio Faeddo. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Ciências Políticas – USCS. MBA em Relações Internacionais. FGV/SP.
Artigos
Canetas para emagrecimento podem ajudar a reduzir o risco de câncer?
Autora: Mariana Ramos* –
As chamadas “canetas para emagrecimento” vêm transformando o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Mas os benefícios desses medicamentos podem ir além da perda de peso. Estudos recentes sugerem que eles também podem estar associados à redução do risco de alguns tipos de câncer relacionados à obesidade, uma hipótese que tem despertado crescente interesse entre pesquisadores de todo o mundo.
Inicialmente desenvolvidos para o controle do diabetes tipo 2, fármacos como a semaglutida e a tirzepatida ganharam destaque mundial pela capacidade de promover perda de peso significativa e melhorar diversos indicadores metabólicos.
Agora, uma nova frente de pesquisas vem ganhando destaque: a possibilidade de que esses medicamentos também contribuam para reduzir o risco de alguns tipos de câncer relacionados à obesidade.
A relação entre obesidade e câncer já é amplamente conhecida pela medicina. O excesso de gordura corporal está associado a um estado de inflamação crônica de baixo grau, alterações hormonais e resistência à insulina, fatores que podem favorecer o desenvolvimento de diferentes tipos de tumores.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade está relacionada ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer, incluindo câncer de mama pós-menopausa, intestino, fígado, rim, pâncreas e endométrio.
Nesse contexto, pesquisadores passaram a investigar se os medicamentos capazes de promover perda de peso expressiva também poderiam contribuir para reduzir esse risco.
Estudos observacionais publicados nos últimos anos apontaram que pacientes tratados com agonistas do receptor de GLP-1, grupo ao qual pertence a semaglutida, apresentaram menor incidência de alguns cânceres associados à obesidade quando comparados a indivíduos com características semelhantes que não utilizaram essas medicações. Em uma análise apresentada no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) em 2025, envolvendo mais de 170 mil adultos com obesidade e diabetes, pessoas que utilizaram essas medicações apresentaram menor risco de desenvolver cânceres relacionados à obesidade quando comparadas àquelas que utilizavam outros medicamentos para o diabetes.
Além da perda de peso, os pesquisadores avaliam a hipótese de que esses medicamentos possam exercer efeitos biológicos adicionais, como a redução de processos inflamatórios, melhora da sensibilidade à insulina e modulação de mecanismos metabólicos que influenciam o crescimento celular.
Entretanto, é importante destacar que ainda não existem evidências suficientes para afirmar que esses medicamentos previnem câncer de forma direta. A maior parte dos dados disponíveis é baseada em estudos observacionais, que demonstram associações, mas não estabelecem necessariamente uma relação de causa e efeito.
Especialistas ressaltam que serão necessários estudos clínicos de longo prazo para confirmar se a redução do risco observada está relacionada exclusivamente à perda de peso ou se existe algum mecanismo protetor específico proporcionado pelos medicamentos.
Outra área que desperta interesse científico é o possível impacto dessas terapias em pacientes já diagnosticados com câncer. Pesquisas preliminares investigam se a melhora do perfil metabólico e a redução da inflamação poderiam influenciar positivamente a resposta a determinados tratamentos oncológicos. No entanto, essa hipótese ainda está em fase inicial de investigação e não faz parte das recomendações clínicas atuais.
O que já se sabe com segurança é que combater a obesidade representa uma das estratégias mais importantes para a prevenção de doenças crônicas. Além de reduzir o risco cardiovascular, melhorar o controle glicêmico e aumentar a qualidade de vida, a perda de peso também está associada à diminuição de fatores que contribuem para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer.
Por isso, o surgimento de tratamentos cada vez mais eficazes para a obesidade representa um avanço relevante para a saúde pública. À medida que a obesidade é reconhecida como uma doença crônica complexa e um importante fator de risco para diversas enfermidades, incluindo o câncer, torna-se ainda mais evidente a importância de ampliar o acesso a tratamentos eficazes e baseados em evidências.
Mais do que uma questão estética, o controle do peso corporal deve ser compreendido como parte fundamental da prevenção de doenças e da promoção da longevidade.
A ciência continua investigando os possíveis benefícios adicionais dessas medicações. Os resultados iniciais são promissores, mas ainda exigem cautela, acompanhamento e validação por novos estudos.
Embora ainda não possam ser considerados medicamentos para prevenção do câncer, os agonistas de GLP-1 vêm ampliando a compreensão sobre os impactos do tratamento da obesidade na saúde a longo prazo. Se os resultados observados até agora forem confirmados por estudos futuros, poderemos estar diante de mais um benefício relevante dessas terapias que já revolucionaram o tratamento da obesidade.
Até lá, a principal mensagem permanece a mesma: prevenir e tratar a obesidade é investir em mais saúde, qualidade de vida e proteção contra inúmeras doenças.
*Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.
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