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Quando a vida é doce

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Autora: Kamila Garcia* –

A vida não nasce amarga. Somos nós que, aos poucos, vamos desaprendendo a sua doçura. Entre cobranças, perdas, responsabilidades e frustrações, deixamos para trás a espontaneidade de quem um dia acreditou que uma tarde brincando na rua poderia ser um grande acontecimento. Crescemos, aprendemos a cumprir horários, pagar contas e esconder fragilidades. Mas ninguém nos avisou que amadurecer não precisava significar endurecer.

Talvez uma das maiores perdas da vida adulta seja esquecer a criança que fomos. Aquela que corria, jogava bola, inventava histórias e encontrava felicidade nas coisas mais simples. O mundo parecia imenso porque ainda havia espaço para o encantamento.

Toda criança deveria ter o direito de simplesmente ser criança. Brincar, imaginar, descobrir, errar e aprender no seu próprio tempo. Parece óbvio, mas nem sempre é. Muitas convivem cedo demais com preocupações e conflitos que deveriam pertencer ao universo adulto.

A psicanalista Melanie Klein, uma das principais referências da psicanálise infantil, encontrou justamente no brincar um caminho para compreender o mundo interno da criança. Em sua prática clínica, percebeu que a brincadeira poderia exercer, na análise infantil, função semelhante à associação livre utilizada com adultos.

Ao brincar, a criança comunica aquilo que ainda não consegue transformar em palavras. Medos, fantasias, desejos, amor, raiva, culpa e angústias aparecem simbolicamente nos brinquedos, personagens e histórias que cria. Para Klein, brincar não era apenas diversão. Era linguagem, expressão e possibilidade de elaboração emocional.

E talvez seja justamente essa capacidade que vamos perdendo quando crescemos.

Em algum momento, brincar passa a ser visto como perda de tempo. A produtividade ocupa quase todos os espaços e a seriedade vira obrigação. Tornamo-nos adultos capazes de cumprir agendas e resolver problemas, mas, muitas vezes, incapazes de descansar, pedir ajuda ou experimentar alegria sem culpa.

Melanie Klein também demonstrou a importância dos primeiros vínculos afetivos na formação do nosso mundo interno. Experiências de amor, cuidado, ausência, frustração e acolhimento deixam marcas e influenciam a maneira como construímos relações ao longo da vida.

Crianças precisam de atenção, proteção, afeto e colo. Adultos também.

O colo apenas muda de forma. Pode ser uma conversa sem julgamento, um abraço, uma escuta verdadeira ou a presença de alguém quando as palavras já não conseguem explicar a dor.

Talvez esteja faltando justamente isso em nossas relações: doçura.

Vivemos cercados por cobranças e julgamentos. Exigimos força e equilíbrio como se demonstrar fragilidade fosse fraqueza. Esquecemos que cada pessoa carrega uma história feita de afetos, perdas, medos e feridas que nem sempre conseguimos enxergar.

Depois de um Setembro Amarelo e com a proximidade do Dia das Crianças, essa reflexão ganha ainda mais sentido. Olhar para a infância não significa romantizá-la — para muitos, ela não foi feliz. Significa reconhecer aquilo que permanece dentro de nós e que, por vezes, ainda pede cuidado.

A vida adulta tem contas, horários, compromissos e responsabilidades. Mas não precisa ser permanentemente cinza. Pode guardar espaço para alegria, imaginação, delicadeza, afeto e até para um pouco de fantasia.

Melanie Klein nos ensinou que, por meio do brincar, a criança expressa e elabora seu mundo interior. Talvez nós, adultos, também precisemos recuperar algo dessa capacidade: brincar com a existência sem deixar de levá-la a sério.

Porque crescer é inevitável. Perder a doçura não deveria ser.

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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Artigos

Outubro Rosa: Cuidar de si também é uma responsabilidade

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Autora: Ulana Bruehmueller* –

O Outubro Rosa nos lembra da importância da prevenção do câncer de mama. Mas também nos convida a uma reflexão mais ampla: como estamos cuidando de nós mesmas?

Somos mães, filhas, esposas, amigas, profissionais. Entre compromissos, afetos e responsabilidades, procuramos estar presentes para todos. Muitas vezes, porém, deixamos nossas próprias necessidades para depois. Adiamos uma consulta, ignoramos o cansaço, guardamos uma tristeza e abandonamos algo que nos fazia bem. Aos poucos, podemos perder o contato com a mulher que existe além de tantos papéis.

Reconheço isso em minha própria trajetória. A dedicação à família e à vida profissional ocupou a maior parte dos meus anos. Com o tempo, compreendi que precisava também reservar espaço para mim. Voltar a escrever poemas foi uma dessas escolhas. Reencontrar as palavras foi uma maneira de ouvir meus sentimentos e dar lugar à minha sensibilidade.

Aos 59 anos, registrei na pele um desenho como forma de um compromisso: “Nunca mais me abandonarei“. A tatuagem expressa uma decisão: não deixar meus sonhos sempre no fim da fila.

Para mim, o autocuidado passa por manter consultas e exames conforme orientação profissional, cuidar da alimentação, movimentar o corpo e preservar o descanso. Passa também por pedir ajuda, compartilhar responsabilidades, estabelecer limites e buscar apoio profissional quando necessário.

Neste Outubro Rosa, desejo que cada mulher se inclua entre as pessoas de quem cuida. Que encontre tempo para uma consulta, uma conversa, uma caminhada e também para retomar algo que lhe traz alegria.

Nossos papéis são importantes. Nossa vida também. E ela merece cuidado durante o ano inteiro.

*Ulana Bruehmueller é CEO da Refrigerantes Marajá, Conselheira & Palestrante

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