Artigo
O atesto de Deus
Autor: Francisney Liberato*
“O Senhor firma os passos de um homem, quando a conduta deste o agrada“. Salmos 37:23
Se eu lhe oferecer um cheque com o valor de R$ 10 milhões de reais, como você se sentiria? Ficaria alegre com o presente ou não? E qual é o motivo de sua resposta?
Se eu assinar um pedaço de papel com o valor de R$ 10 milhões, é provável que você pense que o cheque não tem valor, visto que não terei saldo para honrar o compromisso financeiro.
Vamos imaginar outro cenário, eu ofereço o cheque no mesmo valor. Ainda, o bilionário Bill Gates avaliza o meu cheque, isto é, se responsabiliza pelo pagamento, caso eu não honre com o cheque. Nesta situação, você daria crédito ao cheque? Creio que sim, mas, por qual motivo? É óbvio que devido ao fato de que o cheque está com a garantia de recebimento do Bill Gates.
O documento para fins de pagamento até pode ser o mesmo, porém, a diferença está na assinatura, no avalista, no aceite, na fiança, na garantia, na responsabilidade e no atesto de quem possui capacidade para firmar e honrar as obrigações.
Fazendo analogia para o campo espiritual, nós somos os maiores caloteiros deste mundo. Durante esta vida, provavelmente, nós já emitimos centenas de cheques sem fundos. Entretanto, Deus é o nosso Bill Gates, que já garantiu o pagamento de nossa dívida, com o seu próprio sangue, um dia no passado, na Cruz do Calvário.
Quando você não honra o compromisso, o cobrador não se esquece e não perdoa a sua dívida. Esse cobrador, nós sabemos que é Satanás, que está nos vigiando 24 horas por dia, como um leão querendo devorar as suas presas.
Não podemos nos acovardar. Se somos devedores, não há outra solução exceto a de levar a dívida para o ser mais rico do universo, que pode, se quiser, honrar os nossos compromissos atrasados.
Com Deus, os nossos passos estarão firmes e sólidos, para podermos passar por quaisquer dificuldades deste mundo. Deus deseja firmar e corrigir os nossos passos tortos e imprudentes.
Salmos 37 fala do nosso fiador, do nosso garantidor, e honrador de dívidas, Jesus Cristo. Ele diz que o Senhor pode firmar, atestar, assinar, rubricar, avalizar os nossos passos e caminhos desta vida. Mas há uma condicional para que Deus ateste e garanta os nossos compromissos: nossa conduta e comportamento, que devem agradá-Lo.
Para nós que estamos com muitas dívidas e compromissos acumulados, não há nada melhor do que chegar alguém e dizer para você: “filho, a sua dívida já está saldada”. Você não precisa fazer mais nada, pois o compromisso está quitado. Nenhum cobrador pode surgir para lhe cobrar. O preço está pago. A graça lhe basta.
E você? Quer receber a garantia de Deus? Se sim, é necessário pelo menos conhecê-lo e aceitá-lo, para que assim Ele possa assumir o saldo de sua dívida. Uma das maneiras de se fazer isso também é por intermédio de nossas condutas e comportamentos.
*Francisney Liberato é Auditor do Tribunal de Contas. Escritor, Palestrante, Professor, Coach e Mentor. Mestre em Educação pela University of Florida. Doutor em Filosofia Universal Ph.I. Honoris Causa. Bacharel em Administração, Bacharel em Ciências Contábeis (CRC-MT) e Bacharel em Direito (OAB-MT). Vice-presidente da Associação Brasileira dos Profissionais da Contabilidade – ABRAPCON. Membro da Academia Mundial de Letras.
Artigos
Quando a dor da mulher ainda é tratada como exagero
Autora: Giovana Fortunato* –
“É normal sentir dor.”
“Toda mulher passa por isso.”
“Depois que você tiver filhos, melhora.”
“Você precisa aprender a conviver.“
Frases como essas ainda fazem parte da história de muitas mulheres que chegam ao consultório depois de anos convivendo com uma dor que nunca deveria ter sido normalizada. Algumas passaram a adolescência acreditando que desmaiar durante a menstruação fazia parte do ciclo. Outras aprenderam a organizar a vida em torno da dor: faltam ao trabalho, deixam de estudar, evitam relações sexuais, cancelam compromissos e, pouco a pouco, adaptam a rotina a um sofrimento que ninguém conseguiu explicar.
O mais preocupante é que, muitas vezes, antes de receberem um diagnóstico, essas mulheres ouviram que eram “sensíveis demais”, que tinham baixa tolerância à dor ou que o problema poderia ser emocional.
A medicina avançou muito. Mas ainda precisamos avançar na forma como ouvimos as mulheres.
A dor é subjetiva, não aparece em um exame de sangue como um número que possa ser facilmente medido e varia de uma pessoa para outra. Isso, no entanto, não a torna menos real. Quando uma mulher relata uma dor recorrente, intensa e capaz de interferir em sua rotina, esse relato precisa ser investigado.
A endometriose é talvez um dos exemplos mais evidentes das consequências dessa normalização. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo e pode provocar cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. Ainda assim, o caminho até o diagnóstico pode levar anos.
Existe uma diferença importante entre o desconforto que pode acompanhar a menstruação e uma dor incapacitante. Menstruar não deveria significar perder dias de vida.
Se todos os meses uma adolescente precisa faltar à escola porque não consegue sair da cama, isso merece atenção. Se uma mulher depende repetidamente de medicamentos para conseguir trabalhar durante o período menstrual, precisamos investigar. Se há dor durante a relação sexual, ao evacuar ou urinar, especialmente quando esses sintomas se relacionam ao ciclo menstrual, não deveríamos simplesmente dizer que é normal.
Normalizar a dor tem consequências.
Quando o diagnóstico demora, não é apenas uma doença que permanece sem o acompanhamento adequado. Há uma mulher tentando continuar sua vida enquanto convive com sintomas que podem comprometer seu bem-estar, seus relacionamentos, sua sexualidade, sua produtividade e, em alguns casos, seus planos de maternidade.
No caso da endometriose, esse último aspecto merece atenção especial. A doença pode estar associada à infertilidade e, dependendo de sua localização e extensão, pode comprometer estruturas importantes para a reprodução. Isso não significa que toda mulher com endometriose terá dificuldade para engravidar. Significa que o diagnóstico e o acompanhamento adequados permitem avaliar cada caso individualmente e discutir, no momento oportuno, inclusive questões relacionadas à preservação da fertilidade.
Também precisamos abandonar a ideia de que uma mulher só precisa investigar a endometriose quando decide ser mãe. A saúde feminina não pode ser medida exclusivamente pela capacidade reprodutiva. Uma adolescente com cólicas incapacitantes merece atenção independentemente de pensar ou não em maternidade. Uma mulher com dor durante as relações sexuais merece tratamento mesmo que não queira engravidar. Qualidade de vida também é desfecho de saúde.
Há outro ponto fundamental nessa discussão: ouvir uma paciente não significa concluir antecipadamente que toda dor pélvica é endometriose. Existem diferentes condições ginecológicas e não ginecológicas que podem provocar sintomas semelhantes. Escutar significa reconhecer que existe uma queixa legítima, fazer uma boa história clínica, examinar quando indicado e investigar as possíveis causas.
É justamente aí que precisamos substituir a banalização pela atenção.
Nos últimos anos, ampliamos muito nosso conhecimento sobre endometriose, aprimoramos os exames de imagem e avançamos na possibilidade de diagnóstico sem que toda paciente precise necessariamente passar por cirurgia. Mas nenhum avanço tecnológico será suficiente se a primeira barreira continuar sendo convencer alguém de que a dor existe.
Precisamos ensinar meninas desde cedo que conhecer o próprio ciclo menstrual também é uma forma de cuidar da saúde. Precisamos orientar mães e famílias para que não reproduzam automaticamente a ideia de que sofrer faz parte de ser mulher. E nós, profissionais de saúde, precisamos estar preparados para reconhecer sinais de alerta e, sobretudo, ouvir sem preconceitos.
Durante muito tempo, suportar a dor em silêncio foi quase tratado como uma característica feminina. Não deveria ser.
A mulher que procura atendimento não precisa provar que está sofrendo o suficiente para merecer investigação. Ela precisa ser ouvida.
E talvez uma das mudanças mais importantes na saúde da mulher comece justamente aí: parar de perguntar se ela está exagerando e começar a perguntar por que está doendo.*
*Dra. Giovana Fortunato é ginecologista, especialista em endometriose e infertilidade, e professora da UFMT.
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