Artigo
Networking em tempos de modernidade líquida
Artigo: Mário Quirino* –
É provável que você já tenha ouvido falar em “modernidade líquida” ou no termo V.U.C.A. O conceito define volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade para entender o mundo. Paralelo a modernidade líquida, pesquisadores também descrevem o ambiente atual a qual estamos submetidos como B.A.N.I (Brittle, Anxious, Non-linear and Incomprehensible): frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Tentarei destrinchar mais esses conceitos a seguir, exemplificando como o networking tem se tornado uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de habilidades interpessoais e intrapessoais.
O conceito de V.U.C.A destaca a necessidade de flexibilidade e adaptabilidade em um ambiente em constante mudança, enquanto B.A.N.I enfatiza a fragilidade das estruturas e a necessidade de resiliência. Nesse contexto, o networking, ou a criação de redes de contatos profissionais e pessoais, pode ser um diferencial significativo.
Ao interagir com pessoas de diferentes origens e perspectivas, os indivíduos aprendem a navegar por situações diversas, a compreender melhor os outros e a construir relacionamentos sólidos. Essas interações proporcionam uma compreensão mais profunda das dinâmicas sociais e ajudam a desenvolver a habilidade de trabalhar em equipe, essencial em um mundo V.U.C.A e B.A.N.I.
O contato com profissionais experientes e diversos proporciona insights valiosos que podem ajudar na autoavaliação e no crescimento pessoal. A troca de experiências e a busca de mentoria dentro da rede de contatos oferecem suporte emocional e motivacional, fortalecendo a capacidade de lidar com adversidades e incertezas.
Portanto, em um mundo marcado pela complexidade e incerteza, investir em networking é crucial. Ele não apenas aprimora as habilidades interpessoais, necessárias para uma colaboração eficaz, mas também fortalece as habilidades intrapessoais, essenciais para a resiliência e o autodesenvolvimento. Em tempos de modernidade líquida, o networking se revela uma estratégia poderosa para prosperar em um ambiente V.U.C.A e B.A.N.I.
*Mário Quirino é especialista em desenvolvimento humano e Diretor Executivo do BNI Brasil em Mato Grosso.
Artigos
Atravessamentos que formam — e deformam
Autora: Kamila Garcia* –
Eu atravesso; tu atravessas; ele atravessa; nós atravessamos. Atravessamos o tempo, o espaço, a história — atravessamos jornadas inteiras sem, muitas vezes, perceber a profundidade de cada passagem.
Atravessamos uns aos outros e deixamos marcas. Em nós, no outro e em tantos que sequer imaginamos alcançar. Há atravessamentos que constroem, outros que ferem — todos, porém, transformam.
Atravessamos ruas, cruzamos pontes, encurtamos distâncias. Passamos pela vida do outro, por vezes desejando permanecer, mesmo quando somos convidados a partir. E, de algum modo, permanecemos: no que deixamos, no que foi absorvido, no que passou a existir também no outro.
Assim também atravessam os aprendizados — silenciosos, persistentes — que percorrem gerações. Eles conduzem saberes, mas também perpetuam padrões de comportamento, sejam eles virtuosos ou nocivos.
É assim com os filhos: filhos de outros filhos que, ao longo do caminho, por vezes se perderam de si mesmos. Esqueceram os limites da convivência, os fundamentos da educação, o valor do respeito.
O que preocupa é que passamos a naturalizar os atravessamentos da má educação. Professores deixaram de ser respeitados. Pais, muitas vezes desorientados, abdicaram de seu papel essencial, transferindo à escola uma responsabilidade que não lhe pertence por completo. Confundiu-se à educação com instrução. O preço dessa confusão já começa a ser cobrado.
Atravessamos uns aos outros em um mundo cada vez mais desorientado, onde se enfraquece o senso crítico e se diluem os limites que sustentam o respeito — aos mais velhos, aos pais, ao outro e a si mesmo.
Como já apontava o psicólogo Jean Piaget, o desenvolvimento moral da criança não ocorre de forma espontânea, mas é construído a partir das relações, dos limites e das experiências vividas no ambiente familiar e social. Sem referências claras, a criança tende a não internalizar regras, dificultando a construção de autonomia e responsabilidade.
Atravessamos tanto que ultrapassamos as fronteiras da boa educação. Criamos uma geração pouco preparada para ouvir o “não”, para compreender limites e para lidar com frustrações. Nesse processo, contribuímos para formar crianças mimadas, emocionalmente frágeis e, muitas vezes, medicalizadas ou rotuladas com diagnósticos que mascaram o problema real, quando, na verdade, faltaram-lhes referências sólidas.
Até que ponto pais atravessam seus filhos de forma indevida? Até que ponto inserem crianças sem limites no convívio social, transferindo responsabilidades que são, antes de tudo, familiares?
Atravessar é inevitável. Mas atravessar com responsabilidade é escolha. E, no fim, aquilo que mais marca uma criança não é o mundo que ela encontra — mas aquilo que, dentro de casa, a atravessou.
Porque a responsabilidade, inegavelmente, começa em casa.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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