Artigo
Atravessamentos que formam — e deformam
Autora: Kamila Garcia* –
Eu atravesso; tu atravessas; ele atravessa; nós atravessamos. Atravessamos o tempo, o espaço, a história — atravessamos jornadas inteiras sem, muitas vezes, perceber a profundidade de cada passagem.
Atravessamos uns aos outros e deixamos marcas. Em nós, no outro e em tantos que sequer imaginamos alcançar. Há atravessamentos que constroem, outros que ferem — todos, porém, transformam.
Atravessamos ruas, cruzamos pontes, encurtamos distâncias. Passamos pela vida do outro, por vezes desejando permanecer, mesmo quando somos convidados a partir. E, de algum modo, permanecemos: no que deixamos, no que foi absorvido, no que passou a existir também no outro.
Assim também atravessam os aprendizados — silenciosos, persistentes — que percorrem gerações. Eles conduzem saberes, mas também perpetuam padrões de comportamento, sejam eles virtuosos ou nocivos.
É assim com os filhos: filhos de outros filhos que, ao longo do caminho, por vezes se perderam de si mesmos. Esqueceram os limites da convivência, os fundamentos da educação, o valor do respeito.
O que preocupa é que passamos a naturalizar os atravessamentos da má educação. Professores deixaram de ser respeitados. Pais, muitas vezes desorientados, abdicaram de seu papel essencial, transferindo à escola uma responsabilidade que não lhe pertence por completo. Confundiu-se à educação com instrução. O preço dessa confusão já começa a ser cobrado.
Atravessamos uns aos outros em um mundo cada vez mais desorientado, onde se enfraquece o senso crítico e se diluem os limites que sustentam o respeito — aos mais velhos, aos pais, ao outro e a si mesmo.
Como já apontava o psicólogo Jean Piaget, o desenvolvimento moral da criança não ocorre de forma espontânea, mas é construído a partir das relações, dos limites e das experiências vividas no ambiente familiar e social. Sem referências claras, a criança tende a não internalizar regras, dificultando a construção de autonomia e responsabilidade.
Atravessamos tanto que ultrapassamos as fronteiras da boa educação. Criamos uma geração pouco preparada para ouvir o “não”, para compreender limites e para lidar com frustrações. Nesse processo, contribuímos para formar crianças mimadas, emocionalmente frágeis e, muitas vezes, medicalizadas ou rotuladas com diagnósticos que mascaram o problema real, quando, na verdade, faltaram-lhes referências sólidas.
Até que ponto pais atravessam seus filhos de forma indevida? Até que ponto inserem crianças sem limites no convívio social, transferindo responsabilidades que são, antes de tudo, familiares?
Atravessar é inevitável. Mas atravessar com responsabilidade é escolha. E, no fim, aquilo que mais marca uma criança não é o mundo que ela encontra — mas aquilo que, dentro de casa, a atravessou.
Porque a responsabilidade, inegavelmente, começa em casa.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
Artigos
Trabalho está deixando muita gente doente — e a lei mudou para valer com isso
Autora: Giselle Saggin* –
Desde o fim de maio de 2026, passou a valer uma mudança que pouca gente notou, mas que pode mexer com a rotina de empresas e trabalhadores em todo o país: as empresas agora podem ser fiscalizadas, e multadas, se não cuidarem também da saúde mental de quem trabalha.
A novidade está na NR-1, a norma que organiza as regras de segurança e saúde no ambiente de trabalho. Até pouco tempo, “risco no trabalho” era associado a máquina sem proteção, produto químico, ruído, calor. Agora, a forma como o trabalho é organizado também entra nessa conta. É o que especialistas chamam de riscos psicossociais. Não é exagero dizer que essa é uma das mudanças mais relevantes na área de segurança do trabalho dos últimos anos, ainda que tenha passado quase em silêncio.
Na prática, cobrança de metas impossíveis, jornadas sem fim e sem pausa de verdade, pressão constante e clima pesado no ambiente de trabalho deixam de ser vistos como apenas “estresse do dia a dia” e passam a ser tratados como risco, algo que a empresa precisa identificar e tentar evitar, do mesmo jeito que já fazia com riscos físicos.
Para as empresas, isso significa rever o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e incluir esses fatores de forma real, olhando para a própria rotina, o setor de atuação e o perfil das equipes. Cada empresa precisa entender onde, de fato, estão os pontos de pressão dentro da sua operação.
Como advogada trabalhista, tenho visto cada vez mais casos de pessoas que adoeceram por causa do trabalho — ansiedade, depressão, esgotamento, o tal burnout. Até pouco tempo, esses casos costumavam ser tratados como problema pessoal de quem não aguentou a pressão. Com essa mudança na NR-1, existe agora uma base mais clara para discutir, inclusive na Justiça, se a empresa fez ou não a sua parte para evitar esse adoecimento.
No fim das contas, a mudança tende a ser boa para os dois lados: empresas que se organizam evitam multas, processos e perda de bons profissionais; trabalhadores ganham mais respaldo para buscar seus direitos quando o ambiente de trabalho passa do limite do razoável. É um tema que, cedo ou tarde, vai aparecer na rotina de qualquer empresa — e quanto antes for tratado com seriedade, menores os riscos para todos os envolvidos.
*Giselle Saggin – Advogada trabalhista (OAB/MT 14.129-A), com escritório em Cuiabá (MT)
Instagram: @gisellesaggin
-
Artigos6 dias atrásO “menino” Neymar
-
ESPORTES6 dias atrásCuiabá vence e amplia crise na Ponte Preta
-
Artigos4 dias atrásA IGREJA E O COMBATE AO TRABALHO INFANTIL
-
Artigos3 dias atrásAmor e proteção previdenciária: os riscos da informalidade afetiva
-
Artigos3 dias atrásCanetas para emagrecimento podem ajudar a reduzir o risco de câncer?
-
Geral7 dias atrás“O xadrez ensina o aluno a lidar com pressão, frustrações e desafios”
-
Destaques7 dias atrásPF investiga estrutura de venda de sentenças e lavagem de dinheiro no Judiciário de Mato Grosso
-
ESPORTES4 dias atrásTrês cerimônias de abertura com espetáculo multicultural no México



