Artigo
Jogue a primeira pedra
Autor: Francisney Liberato* –
“Quem de vocês estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra nesta mulher“. João 8:7
Aqueles homens mal-intencionados estavam diante do Mestre em busca de alguma prova ou deslize para poder acusá-Lo e condená-Lo.
Jesus sabia das intenções daqueles homens, porque Ele conhece não só as nossas atitudes como também aqueles pensamentos mais obscuros que guardamos a sete chaves em nossas mentes.
O Mestre conhecia a lei e, segundo o costume da época, era dever do marido entrar com uma ação contra a mulher e as partes envolvidas, e que ambos deveriam ser condenados igualmente. Sendo assim, aqueles homens não possuíam autorização para tal ambiente.
Ao observar o cenário, Jesus sequer dirigiu uma palavra àqueles homens acusadores, pelo contrário, Ele se abaixou, não com intuito de se curvar diante daqueles homens e mestres da lei, mas para fazer revelações sobre a vida de cada um deles.
Jesus, em contato com o chão, começou a escrever todos os pecados cometidos por aqueles homens em suas vidas. Jesus escreve na areia os erros cometidos pelos acusadores.
Eles não entenderam ou não quiseram entender e muito menos enxergar o que Cristo tinha escrito no chão daquele lugar.
“Mas o Senhor, o que diz sobre isso?” João 8:5.
Eles insistiam para que Cristo proferisse o veredito sobre a situação da mulher que tinha cometido o pecado.
Esses homens deveriam ter vergonha daquela situação, porquanto já estava nítido o que Cristo apresentava a eles. Contudo, quando as pessoas têm intenção de fazer algo contra alguém, elas não enxergam mais nada do que está à sua volta. Ficam cegas, com raiva, com ódio, e sempre desejando a destruição do outro.
Como eles insistiram por uma resposta do Mestre, a qual já estava escrita na areia e eles não quiseram enxergar, Jesus então arruma a Sua posição corporal e pela primeira vez verbaliza para aqueles homens as seguintes palavras:
“Quem de vocês estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra nesta mulher”.
E Jesus, novamente, com uma atitude silenciosa e discreta, se abaixa e volta a escrever com os Seus dedos naquele chão.
Quem não tem pecado, que atire a primeira pedra.
Será que a afirmação do Messias é dirigida a nós hoje? Será que, às vezes, nós não fazemos o papel daqueles acusadores? Será que mesmo tendo os sinais de que também cometemos falhas, preferimos não enxergar os nossos atos? Por que é mais fácil enxergar os erros dos outros do que enxergar os nossos próprios erros?
Jesus quase não falou nada. Ele simplesmente conduziu aqueles homens para uma sincera reflexão. Eles puderam entender que todos nós somos falhos, pecadores e que necessitamos da graça, da bondade e da misericórdia de Jesus Cristo.
Ainda bem que temos um Deus que é misericordioso e que nos ama profundamente.
Que possamos hoje reconhecer e aplicar as palavras da canção do Grupo Prisma Brasil:
“Um milagre, Senhor […] Não consigo entender o que Tu vês em mim. Oh, Senhor, eu não sou o que devia ser, mas só Tu, com amor, me limpas de meu mal, esse amor é que me ajuda a seguir”.
*Francisney Liberato é Auditor do Tribunal de Contas. Escritor. Palestrante. Professor. Coach e Mentor. Mestre em Educação. Doutor Honoris Causa. Bacharel em Administração, Bacharel em Ciências Contábeis (CRC-MT) e Bacharel em Direito (OAB-MT). Membro da Academia Mundial de Letras.
Artigos
Quando a dor da mulher ainda é tratada como exagero
Autora: Giovana Fortunato* –
“É normal sentir dor.”
“Toda mulher passa por isso.”
“Depois que você tiver filhos, melhora.”
“Você precisa aprender a conviver.“
Frases como essas ainda fazem parte da história de muitas mulheres que chegam ao consultório depois de anos convivendo com uma dor que nunca deveria ter sido normalizada. Algumas passaram a adolescência acreditando que desmaiar durante a menstruação fazia parte do ciclo. Outras aprenderam a organizar a vida em torno da dor: faltam ao trabalho, deixam de estudar, evitam relações sexuais, cancelam compromissos e, pouco a pouco, adaptam a rotina a um sofrimento que ninguém conseguiu explicar.
O mais preocupante é que, muitas vezes, antes de receberem um diagnóstico, essas mulheres ouviram que eram “sensíveis demais”, que tinham baixa tolerância à dor ou que o problema poderia ser emocional.
A medicina avançou muito. Mas ainda precisamos avançar na forma como ouvimos as mulheres.
A dor é subjetiva, não aparece em um exame de sangue como um número que possa ser facilmente medido e varia de uma pessoa para outra. Isso, no entanto, não a torna menos real. Quando uma mulher relata uma dor recorrente, intensa e capaz de interferir em sua rotina, esse relato precisa ser investigado.
A endometriose é talvez um dos exemplos mais evidentes das consequências dessa normalização. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo e pode provocar cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. Ainda assim, o caminho até o diagnóstico pode levar anos.
Existe uma diferença importante entre o desconforto que pode acompanhar a menstruação e uma dor incapacitante. Menstruar não deveria significar perder dias de vida.
Se todos os meses uma adolescente precisa faltar à escola porque não consegue sair da cama, isso merece atenção. Se uma mulher depende repetidamente de medicamentos para conseguir trabalhar durante o período menstrual, precisamos investigar. Se há dor durante a relação sexual, ao evacuar ou urinar, especialmente quando esses sintomas se relacionam ao ciclo menstrual, não deveríamos simplesmente dizer que é normal.
Normalizar a dor tem consequências.
Quando o diagnóstico demora, não é apenas uma doença que permanece sem o acompanhamento adequado. Há uma mulher tentando continuar sua vida enquanto convive com sintomas que podem comprometer seu bem-estar, seus relacionamentos, sua sexualidade, sua produtividade e, em alguns casos, seus planos de maternidade.
No caso da endometriose, esse último aspecto merece atenção especial. A doença pode estar associada à infertilidade e, dependendo de sua localização e extensão, pode comprometer estruturas importantes para a reprodução. Isso não significa que toda mulher com endometriose terá dificuldade para engravidar. Significa que o diagnóstico e o acompanhamento adequados permitem avaliar cada caso individualmente e discutir, no momento oportuno, inclusive questões relacionadas à preservação da fertilidade.
Também precisamos abandonar a ideia de que uma mulher só precisa investigar a endometriose quando decide ser mãe. A saúde feminina não pode ser medida exclusivamente pela capacidade reprodutiva. Uma adolescente com cólicas incapacitantes merece atenção independentemente de pensar ou não em maternidade. Uma mulher com dor durante as relações sexuais merece tratamento mesmo que não queira engravidar. Qualidade de vida também é desfecho de saúde.
Há outro ponto fundamental nessa discussão: ouvir uma paciente não significa concluir antecipadamente que toda dor pélvica é endometriose. Existem diferentes condições ginecológicas e não ginecológicas que podem provocar sintomas semelhantes. Escutar significa reconhecer que existe uma queixa legítima, fazer uma boa história clínica, examinar quando indicado e investigar as possíveis causas.
É justamente aí que precisamos substituir a banalização pela atenção.
Nos últimos anos, ampliamos muito nosso conhecimento sobre endometriose, aprimoramos os exames de imagem e avançamos na possibilidade de diagnóstico sem que toda paciente precise necessariamente passar por cirurgia. Mas nenhum avanço tecnológico será suficiente se a primeira barreira continuar sendo convencer alguém de que a dor existe.
Precisamos ensinar meninas desde cedo que conhecer o próprio ciclo menstrual também é uma forma de cuidar da saúde. Precisamos orientar mães e famílias para que não reproduzam automaticamente a ideia de que sofrer faz parte de ser mulher. E nós, profissionais de saúde, precisamos estar preparados para reconhecer sinais de alerta e, sobretudo, ouvir sem preconceitos.
Durante muito tempo, suportar a dor em silêncio foi quase tratado como uma característica feminina. Não deveria ser.
A mulher que procura atendimento não precisa provar que está sofrendo o suficiente para merecer investigação. Ela precisa ser ouvida.
E talvez uma das mudanças mais importantes na saúde da mulher comece justamente aí: parar de perguntar se ela está exagerando e começar a perguntar por que está doendo.*
*Dra. Giovana Fortunato é ginecologista, especialista em endometriose e infertilidade, e professora da UFMT.
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