Artigo
Homenagem à Vó Maria de Matos: Um legado de amor e acolhimento!
Autora: Soraya Medeiros* –
Neste sábado, 28 de setembro, Vó Maria de Matos fez sua passagem para o plano espiritual. A partida de alguém tão especial nunca encontra o coração realmente preparado, pois, embora a morte do corpo seja parte da vida, o laço afetivo que construímos com aqueles que amamos transcende essa realidade.
Maria José da Silva Matos nasceu em 11 de abril de 1939, em Cuiabá. Iniciou, aos 14 anos, seu trabalho de mediunidade no Terreiro São Sebastião. Em 1978, começou a construir o Centro Espírita Pai Jeremias, no bairro Dom Aquino, onde trabalhou até a semana passada, sempre ao lado de centenas de filhos e filhas de santo. Ao longo dessa jornada, Vó Maria nos ensinou que devemos sempre trabalhar com amor e caridade, pilares da Umbanda. Hoje, expressamos nossa eterna gratidão por todo o trabalho que ela desenvolveu e pelos ensinamentos que deixou, mostrando que o amor é a base para acolher e transformar vidas.
Hoje, despeço-me da Vó Maria, que foi e sempre será muito especial para mim. Minha mãe de santo, um ser de luz que iluminou meus caminhos com amor, sabedoria e respeito. Levo comigo cada ensinamento, cada palavra e todo o carinho que nos uniu. Que sua passagem seja de paz e que sua luz continue a brilhar, guiando todos que tiveram a sorte de tê-la em suas vidas. Gratidão eterna.
No entanto, em meio à dor da despedida, surge a gratidão pela existência da Vó Maria e pelo legado inestimável que ela deixou. Sua vida foi marcada por um incansável trabalho de amor, acolhida e dedicação. Por anos, ela se dedicou ao cuidado e à orientação espiritual de muitos, levando conforto, ensinamentos e esperança àqueles que a procuravam.
A criação do Centro Espírita Pai Jeremias foi uma de suas maiores realizações. Este espaço tornou-se um refúgio para todos que buscavam paz, compreensão e um caminho espiritual. Com afeto e sabedoria, Vó Maria acolheu inúmeras pessoas, sempre oferecendo um olhar gentil e palavras de fé. Sua presença serena e seu exemplo de caridade são a marca indelével de uma vida vivida em prol do outro.
A Vó Maria nos deixa um profundo ensinamento: que o amor e a espiritualidade podem ser os maiores instrumentos de transformação em nossas vidas. Embora sua ausência física seja sentida, sua essência permanece viva em cada ação de bondade, em cada gesto de acolhimento e nas lembranças que todos carregam de sua presença afetuosa.
Neste momento de luto, que possamos encontrar consolo nas sementes de amor que ela plantou em tantos corações. O legado de Vó Maria de Matos continua a nos guiar, inspirando todos nós a seguir seu exemplo de dedicação ao próximo e à espiritualidade. Que ela siga sua jornada no plano espiritual com a mesma luz que sempre irradiou aqui na Terra.
*Soraya Medeiros é jornalista com mais de 22 anos de experiência, possui pós-graduação em MBA em Gestão de Marketing. Além de sua sólida trajetória no jornalismo, é formada em Gastronomia e certificada como sommelier, trazendo uma combinação única de habilidades em comunicação, marketing e enogastronomia.
Artigos
O legado da ingratidão
Autora: Kamila Garcia* –
Caminhar pelo mundo tem se tornado, cada vez mais, uma experiência estranhamente árida de gentileza. O que antes era regra — o bom senso, a educação, a cordialidade — hoje parece ter sido relegado a um passado distante, como um hábito antigo que já não encontra espaço na pressa dos dias atuais. Fica a sensação de que valores essenciais deixaram de ser transmitidos de geração em geração, substituídos por um vazio crônico de reconhecimento e reciprocidade.
Expressões simples como “bom dia”, “como você tem passado?” e “obrigado” perderam sua naturalidade. Tornaram-se raras, quase protocolares. A empatia, por sua vez, deixou de ser uma prática cotidiana e passou a ser celebrada como exceção, quando deveria ser o mínimo nas relações humanas. Essa desconexão pavimenta o caminho para que o esquecimento do outro se torne a norma.
Vivemos tempos de aparências. Sorrisos são distribuídos com facilidade em encontros sociais, mas nem sempre carregam verdade. Dentro das famílias, multiplicam-se os silêncios incômodos, as ironias veladas, os julgamentos não ditos — ou, pior, ditos apenas na ausência de quem deveria ouvi-los. Falta coragem para o diálogo honesto, mas também falta sensibilidade para dizer a verdade sem ferir.
Falar exige responsabilidade. Há quem se expresse por impulso, sem medir consequências, e há quem se cale por medo do desconforto. No entanto, entre o excesso e a omissão, existe um ponto de equilíbrio: o da consciência emocional. Como afirmou o psicólogo Carl Rogers, “o curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar“. Antes de apontar o outro, é preciso olhar para si e compreender o que nossas palavras revelam sobre nós.
A palavra tem força. Ela pode acolher ou ferir, construir ou destruir, aproximar ou afastar. Por isso, é inevitável a reflexão: até onde vai a sua fala? Que marcas você deixa nas pessoas com aquilo que diz — ou com aquilo que escolhe não dizer?
Há quem se comunique por cansaço, quem o faça por carência, quem transborde por amor e quem ecoe pela ausência dele. Existem os que cultivam a gratidão como prática diária — e estes não precisam de discurso, pois sua atitude já comunica tudo. Mas há também aqueles que carregam na língua o peso da ingratidão.
A ingratidão é corrosiva. Ela desvaloriza gestos, rompe vínculos e esvazia relações. Diferente dos conflitos — que, quando bem conduzidos, podem fortalecer laços —, a ingratidão destrói de forma silenciosa e contínua.
Afastar-se de quem age assim não é fraqueza, é autocuidado. Porque não há solidão em quem escolhe a paz em vez de permanecer onde há desrespeito. Ingratidão não é cultura, tampouco traço inevitável de personalidade. É uma escolha. E o bom senso, ao contrário do que muitos pensam, não deveria ser negociável.
No fim, o verdadeiro legado que deixamos não está apenas nas palavras que pronunciamos, mas nas marcas emocionais que construímos ao longo da vida. E essas, inevitavelmente, permanecem.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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