Artigo
Fecomércio-MT: 68 anos a serviço de Mato Grosso
Autor: Wenceslau Júnior* –
No dia 9 de fevereiro, a Fecomércio Mato Grosso completa 68 anos de atuação em defesa do setor que mais gera empregos, renda e oportunidades em nosso estado. É uma data que convida à celebração, mas, sobretudo, à reflexão sobre o papel que desempenhamos até aqui e os caminhos que precisamos trilhar adiante.
Falo como presidente da Fecomércio-MT, mas também como alguém que acredita profundamente na força do trabalho coletivo. Ao longo dessas quase sete décadas, a Federação consolidou-se como a principal representante dos empresários do comércio de bens, serviços e turismo em Mato Grosso, um setor plural, dinâmico e essencial para o desenvolvimento econômico e social do estado.
A Fecomércio é o braço institucional desse sistema, atuando na defesa de interesses, no diálogo com os poderes constituídos e na proposição de soluções para melhorar o ambiente de negócios. Mas nossa atuação vai muito além. Contamos com braços sociais igualmente fundamentais: o Sesc, voltado para a família comerciária, promovendo cultura, lazer, saúde, assistência social e educação; e o Senac, referência em qualificação profissional, preparando trabalhadores e empresários para os desafios de um mercado em constante transformação.
Nos últimos oito anos, desde que eu e minha diretoria assumimos a condução do Sistema Fecomércio-MT, essas instituições cresceram de forma significativa e ganharam ainda mais relevância dentro do estado. Esse crescimento não foi apenas numérico, mas territorial e social, alcançando regiões antes pouco atendidas e ampliando o impacto positivo de nossas ações.
A Fecomércio intensificou os serviços oferecidos aos empresários, como a assistência jurídica especializada, benefícios inovadores como a telemedicina e o desconto em energia solar compartilhada, além de programas estratégicos como o Renalegis. Esse programa atua de forma permanente junto aos Legislativos municipais e ao Legislativo estadual, acompanhando projetos de lei que possam prejudicar o setor e, principalmente, propondo alternativas e soluções que fortaleçam o comércio.
Os números do Sesc e do Senac ajudam a dimensionar essa expansão. O Sesc saltou de pouco mais de 300 colaboradores no início da nossa gestão para mais de 1.200 atualmente. O Senac passou de 144 para mais de 900 colaboradores. Esse aumento foi consequência direta da ampliação de projetos e serviços em todo o território mato-grossense. Hoje, o Sesc conta com 22 unidades fixas e 6 unidades móveis, enquanto o Senac possui 15 unidades fixas e atende todos os municípios do estado por meio de parcerias.
Tudo isso se justifica pela enorme relevância do comércio e dos serviços para Mato Grosso. Somos responsáveis por cerca de 975 mil empregos no estado, sendo 62% ligados ao comércio e aos serviços. Da arrecadação de ICMS prevista para 2025, estimada em R$ 25 bilhões, 49% têm origem nesse setor. Das 528 mil empresas existentes, 64% pertencem ao comércio e aos serviços. Esses números reforçam nossa responsabilidade e também o tamanho dos desafios que temos pela frente.
O momento exige atenção e mobilização. A reforma tributária está chegando e trará impactos profundos para empresários e consumidores. Soma-se a isso a necessidade urgente de uma reforma administrativa que torne o País mais eficiente e justo. Teremos obstáculos a vencer, mas acredito que, unidos, saberemos enfrentá-los com diálogo, técnica e equilíbrio.
Celebrar 68 anos da Fecomércio-MT é reconhecer o passado, valorizar o presente e assumir, com responsabilidade, o compromisso com o futuro. Seguiremos trabalhando juntos, defendendo quem empreende, gera empregos e movimenta a economia, para que Mato Grosso continue crescendo de forma sustentável e inclusiva.
*Wenceslau Júnior é empresário do setor de material de construção há mais de 40 anos e está desde 2018 como presidente do Sistema Comércio Mato Grosso, formado por Fecomércio, Sesc, Senac e IPF-MT.
Artigos
Transplante de microbiota fecal e mais um importante avanço da medicina
Autor: Fernando Bray* –
Parece papo de ficção científica: transplantar fezes de uma pessoa saudável para tratar uma doença. Porém, esse procedimento, chamado de Transplante de Microbiota Fecal (TMF) ou, simplesmente, transplante fecal, já é realidade na medicina — e vem ajudando pacientes que não respondiam a nenhum outro tratamento a recuperar a saúde intestinal e a qualidade de vida.
Para entender como funciona e para quem é indicado esse tipo de tratamento, é preciso explicar como funciona o nosso intestino. Ele abriga trilhões de micro-organismos, entre bactérias, vírus, fungos e outros seres microscópicos que formam a chamada microbiota intestinal, além de arqueas e substâncias produzidas por esse ecossistema, como ácidos graxos de cadeia curta e metabólitos que conversam diretamente com o nosso sistema imunológico.
Quando essa comunidade microbiana está equilibrada, ela ajuda a digerir alimentos, produzir vitaminas, regular a imunidade e até proteger contra infecções.
Mas, certas condições, como o uso repetido de antibióticos, podem destruir esse equilíbrio, abrindo espaço para bactérias agressivas dominarem o intestino.
O transplante de microbiota fecal consiste em transferir fezes de um doador saudável, previamente tirado e testado, para o intestino de um paciente, com o objetivo de restaurar essa comunidade microbiana benéfica. Mais do que uma “reposição de bactérias”, o procedimento pode ser traduzido também como uma verdadeira transferência de informação para o sistema imunológico.
Atualmente, a indicação para o TMF com aprovação formal e comprovação científica sólida é o tratamento da infecção recorrente ou refratária por Clostridioides difficile (C. difficile), uma bactéria que pode causar diarreia grave e recorrente, especialmente após o uso prolongado de antibióticos.
Estudos mostram taxas de cura entre 65% e 80% já na primeira infusão, chegando a até 95% com tratamentos repetidos — números muito superiores aos obtidos apenas com antibióticos nesses casos difíceis.
Outras aplicações do transplante têm sido pesquisadas, ainda sem aprovação para uso rotineiro, como na Doença de Crohn e retocolite ulcerativa, síndrome do intestino irritável e constipação crônica, além de doenças metabólicas, como obesidade, diabetes tipo 2 e resistência à insulina; doenças autoimunes; e condições neurológicas, como Parkinson e esclerose múltipla, e até o espectro autista. Para essas condições, vale reforçar, o transplante fecal ainda é experimental. Os resultados são promissores em alguns estudos, mas insuficientes para recomendação de rotina fora de protocolos de pesquisa.
O processo passa por etapas bem definidas, pensadas para garantir segurança e eficácia, desde a seleção rigorosa do doador, com investigação de doenças crônicas, infecciosas e intestinais, histórico de viagens, uso de medicamentos, tatuagens recentes e outros fatores de risco, o preparo do material fecal em laboratório, seguindo protocolos específicos, até chegar na administração ao paciente, por uma das vias possíveis: endoscopia digestiva alta, sonda nasoentérica, cápsulas orais (congeladas ou liofilizadas), colonoscopia ou enema, a depender da doença e da região do intestino que precisa ser tratada.
Essa flexibilidade de vias é, justamente, uma das razões pelas quais o transplante fecal tem sido adaptado para diferentes indicações clínicas.
Agora, como qualquer procedimento médico, o transplante fecal exige critérios rigorosos de segurança. O principal risco é a transmissão de patógenos presentes nas fezes do doador, incluindo bactérias multirresistentes, vírus ou outros micro-organismos indesejados. Por isso, a triagem do doador é extensa e inclui exames de sangue e fezes, questionários de saúde detalhados e reavaliações periódicas. Há um grande rigor e esse é um dos motivos que torna encontrar um doador uma tarefa complexa.
Com um profissional especializado e a busca certa de doadores, o transplante de microbiota acompanha a evolução da medicina e se transforma em recurso diferenciado na qualidade de vida do paciente. A saúde do intestino influencia muito mais do que a digestão, ela está ligada à imunidade, ao metabolismo e até ao bem-estar geral. Quem convive com infecções intestinais recorrentes, doença inflamatória intestinal, constipação persistente ou outros sintomas digestivos que atrapalham sua rotina, o primeiro passo é buscar uma avaliação especializada.
*Fernando Bray é médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde
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