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Endometriose no ovário e infertilidade

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Autora: Giovana Fortunato –

Também chamada de endometrioma, a endometriose no ovário ocorre quando o tecido endometrial, que deveria estar apenas dentro do útero, se desenvolve também no ovário, o que pode provocar cólicas muito intensas durante o período menstrual e levar à dificuldade para engravidar.

A endometriose no ovário é considerada uma alteração benigna, no entanto tende a provocar sinais e sintomas muito desconfortáveis como cólica muito forte durante a menstruação, sangue nas fezes, especialmente durante a menstruação e dor durante a relação sexual.

Além disso, mulheres com endometriose também têm tendência para apresentar dificuldade para engravidar, mesmo após 6 meses a 1 ano de tentativas.

O diagnóstico é feito pelo ginecologista com base no exame de toque vaginal e por meio de ultrassom com preparo de intestino, ou através da ressonância magnética. Assim o médico poderá saber a extensão da endometriose ovariana e indicar o tratamento mais adequado.

Como há o comprometimento do ovário, há uma redução da reserva ovariana, comprometendo as trompas, reduzindo também a taxa de implantação do embrião com desfechos de perdas gestacionais. As chances de gravidez na mulher com endometriose no ovário diminuem a cada mês de acordo com a evolução da doença.

O médico pode indicar a cirurgia para remover este tecido, principalmente quando a doença já se encontra mais avançada, mas a própria cirurgia pode interferir negativamente no ovário, prejudicando a fertilidade da mulher.

Assim, o ginecologista pode recomendar que a mulher inicie as tentativas de engravidar o quanto antes, ou poderá indicar a técnica de congelamento de óvulos, para que no futuro ela possa decidir se quer fazer a inseminação artificial e ter filhos.

O tratamento vai depender da idade da mulher, desejo reprodutivo, sintomas apresentados e extensão da doença. Nos casos em que o tecido tem menos de 3 cm o uso de medicamentos para reduzir os sintomas pode ser eficaz, mas nos casos mais graves, em que o cisto tem mais de 4 cm, é indicada a cirurgia por laparoscopia para retirada do cisto e sua cápsula.

Em alguns casos, o ginecologista também pode indicar tratamento clínico após menopausa para evitar recorrência da doença com a terapia hormonal.

Portanto, não hesite em procurar um profissional em caso de sintomas.

Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, professora da UFMT e especialista em endometriose e infertilidade

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Atravessamentos que formam — e deformam

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Autora: Kamila Garcia*

Eu atravesso; tu atravessas; ele atravessa; nós atravessamos. Atravessamos o tempo, o espaço, a história — atravessamos jornadas inteiras sem, muitas vezes, perceber a profundidade de cada passagem.

Atravessamos uns aos outros e deixamos marcas. Em nós, no outro e em tantos que sequer imaginamos alcançar. Há atravessamentos que constroem, outros que ferem — todos, porém, transformam.

Atravessamos ruas, cruzamos pontes, encurtamos distâncias. Passamos pela vida do outro, por vezes desejando permanecer, mesmo quando somos convidados a partir. E, de algum modo, permanecemos: no que deixamos, no que foi absorvido, no que passou a existir também no outro.

Assim também atravessam os aprendizados — silenciosos, persistentes — que percorrem gerações. Eles conduzem saberes, mas também perpetuam padrões de comportamento, sejam eles virtuosos ou nocivos.

É assim com os filhos: filhos de outros filhos que, ao longo do caminho, por vezes se perderam de si mesmos. Esqueceram os limites da convivência, os fundamentos da educação, o valor do respeito.

O que preocupa é que passamos a naturalizar os atravessamentos da má educação. Professores deixaram de ser respeitados. Pais, muitas vezes desorientados, abdicaram de seu papel essencial, transferindo à escola uma responsabilidade que não lhe pertence por completo. Confundiu-se à educação com instrução. O preço dessa confusão já começa a ser cobrado.

Atravessamos uns aos outros em um mundo cada vez mais desorientado, onde se enfraquece o senso crítico e se diluem os limites que sustentam o respeito — aos mais velhos, aos pais, ao outro e a si mesmo.

Como já apontava o psicólogo Jean Piaget, o desenvolvimento moral da criança não ocorre de forma espontânea, mas é construído a partir das relações, dos limites e das experiências vividas no ambiente familiar e social. Sem referências claras, a criança tende a não internalizar regras, dificultando a construção de autonomia e responsabilidade.

Atravessamos tanto que ultrapassamos as fronteiras da boa educação. Criamos uma geração pouco preparada para ouvir o “não”, para compreender limites e para lidar com frustrações. Nesse processo, contribuímos para formar crianças mimadas, emocionalmente frágeis e, muitas vezes, medicalizadas ou rotuladas com diagnósticos que mascaram o problema real, quando, na verdade, faltaram-lhes referências sólidas.

Até que ponto pais atravessam seus filhos de forma indevida? Até que ponto inserem crianças sem limites no convívio social, transferindo responsabilidades que são, antes de tudo, familiares?

Atravessar é inevitável. Mas atravessar com responsabilidade é escolha. E, no fim, aquilo que mais marca uma criança não é o mundo que ela encontra — mas aquilo que, dentro de casa, a atravessou.

Porque a responsabilidade, inegavelmente, começa em casa.

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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