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Ao sabor
Autora: Valéria del Cueto –
Com o fim dos jogos olímpicos de Tokyo 2020 em 2021 o esporte liberado é perseguir o sol e o calor numa montanha da serra fluminense. Caprichosos, os raios do “astro rei” requebram na varanda do lado norte da casa encarapitada na encosta.
Claro que o requebro não se dá por seu movimento leste/oeste, nem pelos obstáculos da construção, projetada para acolher seu calor. No inverno protegendo e no verão refrescando seus habitantes (os quartos ficam para o lado sul e os reflexos ao cair da tarde são belíssimos).
São as nuvens da franja final de mais uma frente fria que fazem o esquenta/esfria de quem estiver ávido para armazenar um pouco de calor nesse inverno incomumente rigoroso no Rio e outras parte do país. Elas dançam embaladas pelo vento querendo chamar a atenção para seus movimentos imprevisíveis.
Primeiro escurecem o céu como uma parede e esfriam a varanda, obrigando um movimento na direção da camiseta e da camisa de flanela que, assim como o moletom, foram sendo retirados com muita alegria anteriormente quando o corpo foi ficando quentinho e aquecido no lagarteio.
Aí, já rolou a primeira olhada para o paredão cor de chumbo. Ele se apresentou compacto. Perseguia umas nuvenzinhas apressadas que pareciam passar pelos ramos mais altos das árvores da Mata Atlântica que emolduravam o céu antes azulzinho, azulzinho.
Parece que a resenha “quarar ao sol” terá que ser encerrada. Recolhe-se os objetos ao redor. Moletom ainda não vestido, celular, bolsa com a máquina fotográfica, caneca de chá…
Só deu tempo de estruturar o conteúdo do texto em pensamento. Seria o mesmo tema que rola de quatro em quatro anos. O êxito individual e a falta de incentivo aos esportes de base como parte da estrutura educacional no crescimento, inclusive emocional – já que o assunto pipocou nessa edição olímpica, de nossos estudantes e novas gerações de talentos.
Força de vontade, foco, disciplina e resiliência são algumas qualidades desenvolvidas no cotidiano de um ambiente esportivo. Assunto pra mais de metro.
Tudo pensado antes da passagem das nuvens na Sapucaí térmica de Araras. Elas estão para o texto como o DJ que tomou de assalto as provas brazucas no Japão.
Ele não era o objeto dos eventos. Se destacou agregando um novo sentido à sua função precípua (vai pesquisar a palavra pra aumentar seu vocabulário) ao usar seu “setlist” para criar uma nova camada de comunicação ao dialogar e incentivar, não quem seria seu público inicial, as torcidas presenciais inexistentes nos espaços esportivos, mas com os espectadores que acompanhavam as competições do outro lado o mundo.
O DJ Stari mandou seu recado e contextualizou sua narrativa amarrando pontas até então intocáveis(!?). Estimulou, também, o entusiasmo dos jogadores. Ligando personagens e momentos especiais com as músicas do set, preencheu um vácuo. Mandou a letra, soltou os bichos e conectou dois pontos desse mundão. Ecoou.
Como as nuvens que gritam por atenção! Trocaram a configuração de parede para um entra-e-sai da frente do sol, num vai-e-vem de frio e calor. É tanto tira-e-bota camisa, moletom, meias e alpargatas que escrever que é bom, nada.
Diz que vai esquentar enquanto esperamos os Jogos Paralímpicos. Mesmo assim, é melhor brincar com as nuvens de “cadê o sol” e usufruir dos caprichos do vento.
É ele quem, na realidade, manda no pedaço. Apesar de não vê-lo podemos senti-lo e ouvir sua voz enquanto movimenta as nuvens que têm poder de apagar o sol e proporcionar, ou retirar, o calor que nos aquece.
Mais ou menos como aquele, a divindade que nos conduz. Múltipla, plural, incompreensível e que você leva, ou não, no coração…
- Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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Atravessamentos que formam — e deformam
Autora: Kamila Garcia* –
Eu atravesso; tu atravessas; ele atravessa; nós atravessamos. Atravessamos o tempo, o espaço, a história — atravessamos jornadas inteiras sem, muitas vezes, perceber a profundidade de cada passagem.
Atravessamos uns aos outros e deixamos marcas. Em nós, no outro e em tantos que sequer imaginamos alcançar. Há atravessamentos que constroem, outros que ferem — todos, porém, transformam.
Atravessamos ruas, cruzamos pontes, encurtamos distâncias. Passamos pela vida do outro, por vezes desejando permanecer, mesmo quando somos convidados a partir. E, de algum modo, permanecemos: no que deixamos, no que foi absorvido, no que passou a existir também no outro.
Assim também atravessam os aprendizados — silenciosos, persistentes — que percorrem gerações. Eles conduzem saberes, mas também perpetuam padrões de comportamento, sejam eles virtuosos ou nocivos.
É assim com os filhos: filhos de outros filhos que, ao longo do caminho, por vezes se perderam de si mesmos. Esqueceram os limites da convivência, os fundamentos da educação, o valor do respeito.
O que preocupa é que passamos a naturalizar os atravessamentos da má educação. Professores deixaram de ser respeitados. Pais, muitas vezes desorientados, abdicaram de seu papel essencial, transferindo à escola uma responsabilidade que não lhe pertence por completo. Confundiu-se à educação com instrução. O preço dessa confusão já começa a ser cobrado.
Atravessamos uns aos outros em um mundo cada vez mais desorientado, onde se enfraquece o senso crítico e se diluem os limites que sustentam o respeito — aos mais velhos, aos pais, ao outro e a si mesmo.
Como já apontava o psicólogo Jean Piaget, o desenvolvimento moral da criança não ocorre de forma espontânea, mas é construído a partir das relações, dos limites e das experiências vividas no ambiente familiar e social. Sem referências claras, a criança tende a não internalizar regras, dificultando a construção de autonomia e responsabilidade.
Atravessamos tanto que ultrapassamos as fronteiras da boa educação. Criamos uma geração pouco preparada para ouvir o “não”, para compreender limites e para lidar com frustrações. Nesse processo, contribuímos para formar crianças mimadas, emocionalmente frágeis e, muitas vezes, medicalizadas ou rotuladas com diagnósticos que mascaram o problema real, quando, na verdade, faltaram-lhes referências sólidas.
Até que ponto pais atravessam seus filhos de forma indevida? Até que ponto inserem crianças sem limites no convívio social, transferindo responsabilidades que são, antes de tudo, familiares?
Atravessar é inevitável. Mas atravessar com responsabilidade é escolha. E, no fim, aquilo que mais marca uma criança não é o mundo que ela encontra — mas aquilo que, dentro de casa, a atravessou.
Porque a responsabilidade, inegavelmente, começa em casa.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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