Artigo
Em 10 anos estaremos todos mortos em Cuiabá?
Autor: Mailson Prado* –
Talvez o título pareça exagerado. Talvez seja (um pouco). Mas quando Cuiabá encosta nos 43°C, como aconteceu novamente, começo a me perguntar até quando vamos continuar tratando temperaturas extremas como se fossem apenas uma característica da nossa cidade.
Eu acho engraçado quando viajo para o interior ou para outros estados e alguém pergunta: “Cuiabá é muito quente, como você consegue?“ Normalmente, a gente ri, responde que está acostumado e segue a conversa. Porque realmente é verdade.
A Organização Mundial da Saúde alerta que o calor extremo é uma ameaça direta à saúde. Estimativas utilizadas pela OMS apontam cerca de 489 mil mortes relacionadas ao calor por ano no mundo. Em situações extremas, quando o organismo deixa de conseguir controlar sua própria temperatura, o quadro pode evoluir para insolação, comprometimento de órgãos e morte.
Isso quer dizer que alguém morre porque o termômetro da rua marcou 42°C? Não. Mas significa que temperaturas dessa intensidade, especialmente quando persistem por horas ou dias, aumentam significativamente o risco para idosos, crianças, pessoas com doenças cardiovasculares e respiratórias e também para quem trabalha diariamente debaixo do sol.
E precisamos falar sobre árvores.
Cuiabá já foi conhecida nacionalmente como Cidade Verde. Hoje, você pode andar pela cidade para perceber o quanto dessa identidade desapareceu (principalmente no centro de Cuiabá. Meu Deus, o que se tornou o centro de Cuiabá?). Árvores deram lugar a estacionamentos, praças cimentadas, avenidas e construções que armazenam calor durante o dia e, às vezes, à noite também.
Não podemos responsabilizar só o corte de árvores pelo aumento da temperatura. Existem as mudanças climáticas globais, a expansão urbana, o asfalto e outros fatores. Mas negar o papel das árvores no nosso dia seria fechar os olhos para o óbvio e para aquilo que pesquisas já demonstram: cidades plenamente arborizadas são mais frescas e têm mais conforto térmico. É qualidade de vida. Em uma cidade que ultrapassa os 40°C quase sempre, plantar e preservar árvores também deveria ser tratado como política de saúde pública.
Por isso, admiro iniciativas como o Programa Verde Novo, do Poder Judiciário de Mato Grosso. O projeto já distribuiu e plantou mais de 250 mil mudas de espécies nativas e frutíferas do Cerrado em todo o estado. Qualquer pessoa, instituição ou órgão pode solicitar mudas ou o plantio e, pasmem, é de graça. Você vai plantar uma árvore ou mais de uma e ajudar a melhorar um pouco a cidade.
Talvez não estejamos todos mortos daqui a dez anos. Não existe qualquer estudo que garanta essa previsão.
Mas esse não deveria ser nosso parâmetro.
A pergunta correta é: como estará Cuiabá daqui a dez anos se continuarmos cortando árvores e tratando cada recorde de calor como algo normal?
Então, aproveite seus filhos. Seus pais. Sua família. Aproveite uma tarde debaixo de uma árvore enquanto ainda encontramos uma.
E, principalmente, plante mais uma árvore.
*Mailson Prado é jornalista, estrategista em comunicação e amante da natureza.
Artigos
Outubro Rosa: quando o câncer é pequeno, as chances são grandes
Autora: Joelma Magalhães* –
Outubro chega trazendo o rosa como símbolo, mas, acima de tudo, trazendo uma mensagem que precisa ser lembrada durante todo o ano: o diagnóstico precoce do câncer de mama pode mudar uma história.
O câncer de mama continua sendo o câncer mais frequente entre as mulheres brasileiras, excluindo-se os tumores de pele não melanoma. Para o triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos por ano no Brasil.
Nas últimas décadas, temos observado um aumento da incidência da doença em diferentes regiões do mundo. Embora o risco aumente com a idade, o câncer de mama também pode ocorrer em mulheres jovens. Nos países de baixa e média renda, o desafio é ainda maior, especialmente porque muitas mulheres chegam ao diagnóstico em estágios mais avançados, o que contribui para resultados menos favoráveis.
É justamente por isso que precisamos falar sobre detectar lesões pequenas, antes que possam ser percebidas pelo toque ou provoquem sintomas.
A mamografia tem papel fundamental nesse cenário, pois pode identificar alterações ainda muito pequenas, muitas vezes não palpáveis. Dependendo da idade, da densidade mamária, dos antecedentes pessoais e familiares e de outros fatores de risco, exames complementares, como a ultrassonografia e a ressonância magnética, podem ser indicados pelo médico.
Quanto mais cedo o câncer de mama é diagnosticado, maiores são as possibilidades de tratamento e melhores são os resultados. Quando descoberto em estágios iniciais, apresenta elevadas taxas de sobrevida, próximas ou superiores a 90% em determinados grupos, além de frequentemente permitir tratamentos menos agressivos, com melhores resultados funcionais e estéticos.
Por isso, o objetivo dos exames de rastreamento não é simplesmente “procurar um câncer”. É possível encontrá-lo, caso exista, quando ainda é pequeno e as possibilidades de tratamento são maiores.
Também é importante lembrar que nenhuma mulher deve esperar pelo próximo exame de rotina se perceber alguma alteração nas mamas. Nódulo, retração da pele ou do mamilo, secreção sanguinolenta, alteração persistente da pele ou aumento de linfonodos na axila merecem avaliação médica.
Neste Outubro Rosa, mais do que vestir uma cor, precisamos fortalecer uma cultura de cuidado. Conhecer as próprias mamas, realizar acompanhamento médico e fazer os exames indicados para cada idade e perfil de risco são atitudes que podem fazer toda a diferença.
Porque, no câncer de mama, descobrir cedo significa ampliar as possibilidades de cura, preservar vidas e escrever novos capítulos para muitas mulheres.
*Dra. Joelma Magalhães é médica radiologista no IDAPI, em Cuiabá-MT, e coordena o setor de mamografia e ultrassonografia do HCan há mais de 15 anos.
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