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Ciro Antonio Rosolem: – Quem paga o pato?

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                                      Quem paga o pato?

Por Ciro Antonio Rosolem

Mais uma vez os alimentos aparecem como vilãos da inflação. Certa vez foi o tomate, depois, alface, batata, até o pobre do chuchu já pagou o pato. Agora parece que será o feijão de cores, junto com o arroz. Se bem que vai ser difícil, porque o preço do pato deve ter subido também. Estamos vivendo um ano complicado para o agronegócio. Primeiro foi o atraso nas chuvas, atrasando a semeadura da safra de verão. Depois a seca de abril/maio, prejudicando o arroz, feijão, soja, algodão e, principalmente o milho de segunda safra. Agora o frio, geada, prejudicando frutas e hortaliças. O resultado é uma safra de grãos um pouco menor que a anterior, uma quebra não só da safra, mas também dos sucessivos recordes batidos ano a ano.

CiroAntonioRosolem-artigoMas, e a tal propalada pujança de nossa agricultura? Se somos tão eficientes, como isso ocorre com frequência no Brasil? Muito bem, vamos colocar cada coisa em seu lugar. O primeiro ponto é que, embora os preços dos alimentos, nas últimas décadas, tenham caído em nível de produtor, no varejo eles têm mais ou menos acompanhado a inflação. Nos últimos 16 anos: inflação acumulada de 194,31% e aumento acumulado da cesta básica de 191,00%. Mas, ainda há outro fator muito importante: em janeiro de 2000, um salário mínimo nacional comprava 1,01 cestas básicas, em maio de 2016 comprou 2,24. Então vamos combinar que não são os alimentos que detonam o orçamento familiar, certo?

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O fato é que, em função dos problemas climáticos, vai piorar um pouco. As carnes e o leite devem subir ainda, pois o milho e a soja são componentes importantes das rações. E houve queda na produção de ambos. O fato é que quando se produz bastante, os preços caem e o produtor é desestimulado, e produz menos no próximo ano; quando há quebra de produção os preços sobem e o consumidor paga o pato (olha ele aí outra vez).  Quem é responsável por essa gangorra? Existe uma coisa de chamamos de Estoque Regulador. Ou seja, em anos com superprodução, o governo deve garantir os preços ao produtor, de modo a mantê-lo produzindo de modo correto, sustentável, comprando e armazenando o excesso produzido, por preço justo; em anos de produção prejudicada, os estoques devem ser colocados no mercado, de modo a não sacrificar o consumidor, e controlar a inflação. Os estoques estão baixos no Brasil. Políticas públicas podem, e deveriam minimizar este tipo de problema. A manutenção de estoques implica em uma política correta de preços mínimos e de seguro rural, além de política fiscal coerente para o setor.

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Por mais que o agro seja eficiente, por mais técnica que se empregue na agricultura, por mais que a ciência tenha se desenvolvido, ainda não temos ferramentas que anulem os efeitos climáticos. Talvez nunca tenhamos. E, com o possível aquecimento global, isso vai piorar. Como lidar com isso tudo? Governos com um mínimo de comprometimento com os cidadãos. Governos que governem para o País e não para se manter no poder. A história é antiga… Por quanto tempo ainda teremos que achar alguém, ou algum produto, para pagar o pato?

Ciro Antonio Rosolem, Vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (FCA/Unesp Botucatu).

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Menopausa também é saúde mental — e falar de desejo, humor e autoestima é essencial

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Autora: Ana Paula Couto*

Romper o silêncio sobre a menopausa é essencial para o bem-estar físico e emocional das mulheres.

Você acorda e não se reconhece mais no espelho. Você começa a não compreender quem é aquela pessoa que agora habita o seu corpo. Há alguém vivendo em você, da pele para dentro, com uma mente povoada de estranhos pensamentos e você não faz sequer ideia de quem seja. Boa notícia, ou não: talvez essa seja você adentrando à menopausa, ou melhor, sendo jogada nela.

Foi assim que me senti quando, aos 49 anos, me vi tendo crises de ansiedades, com tremor e formigamento nas mãos, sem saber do que se tratava. Pelo que deduzi mais tarde, a perimenopausa já estava me acompanhando havia um tempo, mas, como ninguém tocava no assunto e a vida não me deixava parar com as suas infindáveis demandas, eu seguia sem notar que algo de muito importante estava acontecendo dentro de mim. Como pode algo de tamanha importância não ser notado? Como não parei antes e olhei com cuidado para mim mesma? Talvez porque simplesmente ensinem às mulheres a serem imparáveis, implacáveis, imbatíveis e, sendo assim, terem dores invisíveis. É tanto prefixo de negação que acabamos por não nos notar!

Quando tive que parar de fato, melhor dizendo, quando fui parada pelas crises de pânico, que eu sequer acreditava ser ansiedade — pois achava tratar-se de algum problema neurológico —, foi que a ficha começou a cair. Não percebi de imediato que a estranheza que me rondava, a insegurança que passou a morar em mim e a sensação de não pertencimento a mim mesma faziam parte de um combo trazido pela menopausa.

O peso do silêncio e o tabu do envelhecimento feminino

As conversas com as mulheres que viviam o mesmo período que eu também não ajudaram, por incrível que pareça. Estavam na mesma luta interna, muitas não se sentiam confortáveis em tocar nesse assunto e tampouco nos seus “trocentos” sintomas. Algumas sequer assumiam estar nesse momento da vida, pois ele é a prova cabal do envelhecimento feminino, da perda do viço da pele, do tesão, do desejo e da autoestima. Eu me sentia a chata sofredora quando tocava no tema. Aquele assunto! E vem ela com aquele papo de novo? Me sentia na narrativa de Harry Potter bem às avessas, muito às avessas, aquele assunto que não deve ser nomeado e eu, quase um Voldemort por trazê-lo à tona. Por muitas vezes me calei, me ressenti (porque a gente passa a sofrer por tudo) e fingi estar bem, afinal, ninguém quer ser considerada chata.

Cuidar de si é um ato de resistência

A saga de encontrar a solução começou com um cardiologista após um desmaio. Exausta, com uma insônia atroz, que me levou a um burnout, uma bela noite levantei durante a noite e caí dura no chão. Buscar alguns médicos (homens) como um psiquiatra e meu antigo ginecologista, naquele momento, não me ajudou. Ouvi deles que menopausa era uma fase natural da mulher e que tudo melhoraria com o tempo. Não quero dizer que todos os profissionais da saúde do sexo masculino são assim, mas não tive a sorte de ouvir algo que me acolhesse, muito pelo contrário. Eu precisava me sentir melhor. Queria uma solução imediata e não esperar anos para essa tal fase ir embora. E ela não vai. É para todo o sempre.

Entre tantas decisões, sem saber para onde correr, a mais acertada foi buscar novas perspectivas. Assumi que precisava ser cuidada, que estava ruindo e que necessitava de ajuda. Decidi me cercar de profissionais do sexo feminino. Busquei por psicóloga, psiquiatra, cardiologista e ginecologista. Foi o meu caminho, a forma que me senti escutada.

Aos poucos comecei a me informar, a me entender e a me acolher. Aceitei algumas propostas como a reposição hormonal, algo que realmente mudou a minha vida. Fui me reorganizando, me sentindo melhor, parecia estar voltando a ser quem eu era. Já conseguia sorrir. Deixei alguns medicamentos, passei a tomar alguns suplementos, mantive a terapia, a yoga e a musculação. Enfim, percebi, de uma forma mais forte, que somente eu sou responsável pela minha felicidade e pelo meu bem-estar. Sendo assim, o cuidado comigo mesma é algo de minha inteira responsabilidade.

Foi fácil? Não. Precisa ser assim? Não. Fique esperta! Olhe-se, atende-se às mudanças do seu corpo porque ele fala, só que muitas vezes não o escutamos. Passe a ver a sua rotina de cuidados, que agora é necessária, como algo bom e não como um fardo.

Priorize-se! Porque, afinal, uma mulher que passa pela menopausa com desejo não quer guerra e nem precisa provar nada para ninguém. Ela tem uma estrada percorrida e sabe que, com saúde, humor e a autoestima elevada ela, agora sim, cheia de si, é imparável, implacável e imbatível.

*Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Em 2025, lançou “Amor de Alecrim”, continuação da obra, com a personagem aos 50 anos.

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